Como ovelhas entre os poderosos: a multidão em Ceuta e nós, crentes. Artigo de Santiago Agrelo Martinez

Foto: Andrew McConnell | UNHCR

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04 Agosto 2026

"Na jornada da humanidade, a diferença entre os salvos e os perdidos é determinada pela natureza da nossa relação com o poder: seja ele econômico, político, religioso, cultural, moral ou jurídico. Este último sempre se oporá a Cristo, buscando matá-lo e encerrá-lo no sepulcro... O mundo do poder - ou, se preferir, o mundo da riqueza - está em conflito perpétuo com o Evangelho", escreve Santiago Agrelo Martinez, em artigo publicado por Avvenire, 02-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Santiago Agrelo Martinez é frade menor e arcebispo emérito de Tânger.

Eis o artigo.

O que aconteceu em Ceuta nesta semana tem pouco ou nada a ver com o drama - a tragédia - da imigração irregular.

O que presenciamos, mais que uma demonstração do sofrimento dos últimos do planeta, parece um êxodo fomentado por interesses políticos. Mais do que a história de pobres em busca de pão, parece um confronto oportunista entre poderosos - sejam eles partidos políticos, nações ou ideologias. De qualquer modo, para quem crê, essa humanidade em movimento, dezenas de milhares de pessoas manipuladas e exploradas, se torna, mais uma vez, não uma questão de análise política, ideológica ou partidária, mas sim de compaixão.

Tal multidão é, em primeiro lugar, destinatária de misericórdia. Assim como é, para o cristão, qualquer escravo: do álcool, das drogas, da tecnologia, do luxo, do poder. Para o discípulo de Jesus, o princípio norteador em um cenário aberto a mil interpretações continua sendo a luz do Evangelho, o amor do Filho de Deus pelos últimos, a paixão do Filho do Homem por aquela que ele chamou de "a colheita" e ovelhas sem pastor... Os explorados, os manipulados, os oprimidos, os famintos. Ao crente em Cristo é dirigido incessantemente o mandamento: "Dai-lhes vós mesmos de comer".

Na jornada da humanidade, a diferença entre os salvos e os perdidos é determinada pela natureza da nossa relação com o poder: seja ele econômico, político, religioso, cultural, moral ou jurídico. Este último sempre se oporá a Cristo, buscando matá-lo e encerrá-lo no sepulcro... O mundo do poder - ou, se preferir, o mundo da riqueza - está em conflito perpétuo com o Evangelho...

E esse mundo, inimigo da Boa Nova e dos pobres, inimigo de Cristo e de Deus, habita nos governos e nos parlamentos, nas ruas, nas paróquias e nos conventos. Reside no coração das pessoas e criou raízes tão profundas em nós que parece ser a única maneira razoável, a única possível, a única correta... Confinados nesse mundo, deixamos Jesus sozinho na jornada insana que o leva a dar a vida pelos outros; sozinho em seu estilo de vida oferecido como pão; sozinho na cruz... Confinados nesse mundo, deixamos Deus sozinho com sua clemência e sua misericórdia, com sua justiça e sua bondade... Confinados nesse mundo, esquecemos o amor de Cristo, o amor do Pai revelado em Cristo Jesus... esquecemos que ser cristão nada mais é do que fazer do amor de Deus um estilo de vida.

O que aconteceu esta semana em Ceuta é um retrato do mundo em que vivemos... Ovelhas sem pastor ou, talvez pior, ovelhas conduzidas à morte: ninguém parece se importar com as dezenas de afogados.

Para quem crê, é sempre o momento de dar a vida, de perdê-la, de doá-la... É sempre o momento de amar...

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