Mohammed bin Salman realiza o sonho atômico, a vingança ainda conta

Mohammed bin Salman (Foto: Wikimedia Commons)

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25 Julho 2026

O reino não precisará mais depender exclusivamente do petróleo, mas o enriquecimento de urânio pode não se limitar a usos civis.

A reportagem é publicada por La Repubblica, 23-07-2026.

Para Mohammed bin Salman, é uma espécie de Santo Graal: o objetivo que ele persegue há anos, através de várias administrações americanas, de Trump I a Biden, até hoje. Para Donald Trump, deveria ser a cenoura para obter o troféu mais cobiçado: a adesão da Arábia Saudita aos Pactos Abraâmicos, sua visão para um novo Oriente Médio, em paz com Israel. Mas isso foi em 2020, e hoje, dezenas de milhares de mortes depois e com meia dúzia de guerras em curso e (talvez) encerradas nesse ínterim, é uma forma de manter um aliado fundamental. E, claro, de trazer dinheiro para os Estados Unidos.

Os Estados Unidos e a Arábia Saudita chegaram a um acordo de cooperação em energia nuclear civil: a Casa Branca deverá formalizar o acordo em breve. O acordo terá duração de 30 anos e inclui a participação de empresas americanas no desenvolvimento do programa nuclear saudita, com o objetivo de construir — após estudos conjuntos — uma instalação de enriquecimento de urânio no país. Após o anúncio, Trump terá que levar o acordo ao Congresso, onde dificilmente será aprovado sem obstáculos: após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018, Riad tem uma reputação ruim em Washington. Além disso, muitos no Congresso e no Senado podem temer que ajudar a Arábia Saudita a enriquecer urânio possa abrir caminho para novas fases de proliferação. Esse temor é intensificado pelo fato de que, apesar de o reino ser membro da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o acordo não inclui o Protocolo Adicional da AIEA, instrumento que permite que inspetores internacionais monitorem as atividades nucleares.

Para complicar ainda mais a situação, o anúncio foi feito em meio à guerra contra o Irã: em fevereiro, quando os EUA e Israel lançaram os primeiros ataques contra Teerã, o risco de o país desenvolver uma arma nuclear foi apontado como a principal causa do conflito, apesar de o governo iraniano afirmar que o programa tinha fins exclusivamente civis.
Nada disso preocupa Mohammed bin Salman. O príncipe é atualmente um dos principais perdedores no conflito em curso no Golfo: porque seu país foi atacado diversas vezes. Porque seu pedido inicial a Washington por uma guerra que subjugasse Teerã de uma vez por todas caiu em ouvidos moucos. Porque, como ele temia, o regime xiita se fortaleceu simplesmente por resistir. Daí a raiva, daí a reaproximação — inclusive em questões nucleares — com a Rússia e a China, daí o prêmio de consolação, que não é lá grande consolação.

Com o acordo com Washington, MBS alcançou duas vitórias cruciais em âmbito interno: a possibilidade — central em seu projeto de reformas Visão 2030 — de desenvolver fontes de energia alternativas ao petróleo, do qual o reino é o maior produtor mundial, mas cuja instabilidade de mercado nos últimos anos prejudicou seriamente a economia, levando o governo a engavetar alguns dos grandes programas anunciados anteriormente. E a possibilidade de se aproximar do Irã na corrida nuclear, seja civil ou militar. Mas o acordo também representou uma mudança fundamental na política externa, privando Washington de uma de suas principais ferramentas para a normalização das relações com Israel, que, após a guerra em Gaza que deixou mais de 70 mil mortos, está fora de questão em Riad.

Para o resto do mundo, não está claro se tudo isso é uma boa notícia: a reação das duas potências nucleares da região — Irã e Israel (não declarado) — é totalmente incerta. E o rumo que o acordo tomará também é incerto: "Embora o governo Trump esteja certo em fortalecer as relações com Riad, a exportação de capacidades de enriquecimento entra em conflito com a política de não proliferação imposta a amigos e inimigos", escreveu Matthew Kroenig ontem em uma análise para o Atlantic Council.

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