21 Julho 2026
A moratória anunciada pelas autoridades do Estado de Nova York interrompeu a construção de novos data centers por um período de um ano. Um marco histórico, e certamente longe de ser o último.
A reportagem é de Eva Samaddar, publicada por Reporterre, 17-07-2026. A tradução é do Cepat.
Nenhum novo data center com mais de 50 megawatts durante um ano. A governadora do Estado de Nova York, Kathy Hochul, emitiu uma ordem executiva impondo uma moratória aos data centers, cujo tamanho médio, que está em constante crescimento, é de 40 megawatts. Essa decisão, um sinal de esperança para aqueles que resistem aos “data centers poluentes”, pode servir como catalisador no país que abriga o maior número de data centers do mundo.
Esses gigantescos armazéns – que chegam a ter 93 mil metros quadrados – armazenam todos os dados digitais produzidos em escala global em servidores, cujo volume aumentou 10 vezes em 10 anos. A disponibilização ao grande público de chatbots e geradores de vídeo e imagem, conhecidos coletivamente como inteligência artificial generativa, impulsionou as grandes potências a uma corrida para construir novos armazéns desse tipo, cada vez mais vorazes em termos de terra, água e energia.
Oposição popular
Mas seus custos ambientais e sociais, documentados por pesquisadores e organizações internacionais, alimentaram uma ampla oposição popular em diversos países do Norte. Essa onda levou à suspensão da construção de todos os novos data centers até 2030 na região metropolitana de Amsterdã, na Holanda. Os Estados Unidos, sob Donald Trump, não estão imunes, e a decisão do Estado de Nova York aumenta as esperanças de uma série de outras suspensões em outras partes do país.
Em pelo menos 13 Estados, foram apresentados projetos de lei para estabelecer uma moratória sobre os data centers. As suspensões propostas por esses projetos são, na maioria dos casos, de um a três anos, nesses Estados predominantemente democratas (Virgínia, Pensilvânia), mas que também incluem áreas que votaram no Partido Republicano durante décadas (Carolina do Sul, Geórgia).
Alguns vão ainda mais longe. Na Carolina do Sul, a legislação proposta proibiria completamente todas as autorizações locais para data centers até que o legislativo estadual adote um quadro abrangente de revisão e processo de aprovação.
Os Estados trumpistas querem mais data centers
Em Ohio, um Estado governado pelo Partido Republicano desde 2011, a organização cidadã Conserve Ohio chegou a propor uma emenda constitucional proibindo todos os novos data centers. O número de assinaturas necessárias para que a petição se transformasse em um referendo não foi atingido em 2026 (70 mil em vez das 413 mil necessárias), mas a iniciativa está sendo retomada para 2027.
Por outro lado, vários Estados do oeste, muitas vezes com maioria pró-Trump, ainda não têm regulamentações vigentes. Favoráveis ao desenvolvimento generalizado de novos data centers, suas “qualidades” geográficas, econômicas, políticas e, às vezes, até climáticas, são divulgadas por ferramentas de monitoramento legislativo altamente precisas, desenvolvidas por empresas de tecnologia estadunidenses... às vezes usando IA.
De acordo com dados de uma dessas ferramentas, o US Data Center Moratorium Tracker, desenvolvido pela Interconnected Capital, a Reporterre conseguiu verificar que uma moratória estava em vigor no nível do condado – o nível territorial entre estado e cidade – em 42 dos aproximadamente 3 mil condados do país.
Em âmbito nacional, uma pesquisa Gallup publicada em maio mostra que 7 em cada 10 estadunidenses se opõem à construção de data centers em suas comunidades. As principais críticas apontam para os custos com saúde, a destinação de enormes extensões de terra para sua construção, as disparidades raciais que frequentemente os acompanham – os data centers são muitas vezes localizados perto de bairros predominantemente negros – e, por fim, seu impacto ambiental.
Os cidadãos na linha de frente
Em um estudo publicado em abril, três pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade de Michigan demonstram as repercussões políticas dessa oposição popular suprapartidária. Segundo eles, a descentralização do governo estadunidense significa que muitos dos atores mais influentes no desenvolvimento de data centers “são, e continuarão sendo, autoridades locais eleitas e moradores”.
Eles observam que o número de reuniões locais dedicadas a data centers aumentou 10 vezes entre 2023 e 2026. Em discursos em assembleias locais, eles constatam que a oposição aos data centers vem mais dos cidadãos do que das autoridades locais eleitas, que acabam se aliando a eles. Diante desse dessa reação adversa ultratecnológica, cidades e condados estadunidenses estão, portanto, formando os primeiros bastiões de resistência.
Na França também, organizações locais e autoridades eleitas de esquerda pediram uma moratória nacional em abril, no contexto da lei de simplificação da vida econômica. A emenda propunha condições muito rigorosas, limitando as instalações a 2 mil m² ou 1,5 megawatts, mas foi rejeitada em comissão. Um relatório parlamentar, publicado em 15 de julho, denunciou o apoio “desenfreado” do governo a esses projetos.
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