14 Julho 2026
"Byung-Chul Han questiona constantemente os pensamentos e as intuições religiosas ou metafísicas da filósofa à luz de um presente definido pelo triunfo do consumismo e do neoliberalismo, e pela onipresença das telas. Sua reflexão é guiada por uma pergunta: o que há no mundo contemporâneo que nos torna incapazes de nos abrirmos para Deus?", escreve Cyprien Mycinski, escritor e jornalista francês, em artigo publicado por Le Monde, 07-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Em Parler de Dieu. Un dialogue avec Simone Weil (Falar de Deus: Um diálogo com Simone Weil), o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han oferece uma poderosa reflexão sobre o desaparecimento de Deus nas sociedades contemporâneas. Ele nutre uma profunda "amizade de almaf" por Simone Weil (1909–1943).
Nascido na Coreia do Sul em 1959 — onde estudou metalurgia antes de se estabelecer na Alemanha para estudar filosofia, literatura e teologia —, Byung-Chul Han é um pensador de trajetória singular. Considerado hoje uma das grandes figuras da filosofia contemporânea, é autor de uma obra considerável, traduzida para cerca de trinta idiomas.
Em seu livro mais recente, Parler de Dieu, inicia um diálogo com a filósofa francesa, convertida ao catolicismo, que entrou em sua vida justamente quando ele experimentava uma "força vinda do alto". Valendo-se de muitas citações dos escritos de Simone Weil — particularmente dos Cahiers, publicados postumamente, nos quais ela registrou seus pensamentos entre 1933 e 1943 —, Byung-Chul Han questiona constantemente os pensamentos e as intuições religiosas ou metafísicas da filósofa à luz de um presente definido pelo triunfo do consumismo e do neoliberalismo, e pela onipresença das telas. Sua reflexão é guiada por uma pergunta: o que há no mundo contemporâneo que nos torna incapazes de nos abrirmos para Deus?
Conversas sobre Deus: um diálogo com Simone Weil, de Byung-Chul Han. (Relógio D'Água, 2025)
Para ele, a "crise da religião" é uma "crise da atenção". Saturados de "tralhas sonoras e visuais" e de todo o "lixo que vem da informação e da comunicação", "nos transformamos em animais que consomem", escreve ele de forma cortante. Constantemente bombardeada por novos estímulos, nossa atenção é continuamente desviada, a ponto de vermos "desaparecerem atitudes mentais como a espera e a paciência, que poderiam oferecer acesso ao indisponível". E cita Simone Weil: "A plenitude da atenção não é outra coisa senão a oração".
Apropriar-se do invisível
O autor também identifica outras razões para a ausência de Deus em nossa época: o domínio do cálculo eficiente, o "fortalecimento massivo do eu", a perda do silêncio e o colapso da beleza.
A civilização moderna é "uma conspiração universal contra toda forma de vida interior", escrevia Bernanos em La France contre les robots (1947). Byung-Chul Han concorda plenamente com ele.
No entanto, se pudéssemos voltar a nos apropriar do invisível, restauraríamos a profundidade perdida da nossa existência. É essencialmente isso que Byung-Chul Han nos transmite numa centena de páginas escritas em um estilo muitas vezes exigente, porém sempre claro.
Com Simone Weil, a filósofa que também foi mística, ele busca nos mostrar que "para além da imanência da produção e do consumo, para além da imanência da informação e da comunicação, existe uma outra realidade, mais elevada — ou melhor, uma transcendência capaz de nos conduzir para fora de uma vida totalmente desprovida de sentido, para fora da simples sobrevivência, para fora da dolorosa ausência de ser". Um livro pequeno, mas de profunda densidade espiritual.
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