“A atenção é a batalha do nosso tempo”. Entrevista com D. Graham Burnett

Fonte: Unsplash

Mais Lidos

  • ‘Magnifica Humanitas’. A inteligência artificial exige mais filosofia, não menos tecnologia. Entrevista especial com Celso Cândido de Azambuja, Denis Coitinho e Gabriel Ferreira

    LER MAIS
  • Bubista, o treinador de Cabo Verde, a voz dos pobres no futebol

    LER MAIS
  • O projeto de inviabilização do voto à esquerda no Brasil. Artigo de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

04 Julho 2026

D. Graham Burnett, líder do Movimento de Libertação da Atenção, defende que a atenção é nossa principal ferramenta para a emancipação individual e coletiva. Nascido na França e criado entre os Estados Unidos profundo e a cidade grande, é titular da Cátedra Henry Charles Lea de História e História da Ciência, na Universidade de Princeton, e se dedica ao Ativismo da Atenção com o coletivo Friends of Attention e Strother School of Radical Attention (SoRA), em Nova York. Seu livro mais recente é a obra coletiva: Attensity!. Conversamos com ele no Museu da Universidade de Navarra (Pamplona), durante o congresso ‘Atenção e florescimento’, coorganizado com o Boston College.

A entrevista é de Esther Paniagua, publicada por Ethic, 03-07-2026.

Eis a entrevista.

Você passou de secretário dos Jovens Republicanos da Pensilvânia e atirador de elite a esquerdista convicto, intelectual e ativista da atenção. Como percorreu este caminho?

Honestamente, a literatura mudou minha vida! Morei na França durante um verão – com cerca de 16 anos - e li Sartre, Camus e outros pensadores. Essa leitura, juntamente com a influência de jovens intelectuais carismáticos que eu admirava, despertou-me do meu “sono dogmático” em Indiana e na Carolina do Norte. Ela me ofereceu uma via de escape, muito necessária, da preocupação adolescente com armas, militarismo e uma espécie de machismo imbecil.

Ainda assim, à medida que fui me inclinando para a esquerda, sempre tentei me apegar à ideia de que aqueles que discordam de mim politicamente são patriotas, comprometidos com a dignidade da república estadunidense. Por isso, sigo perplexo e profundamente ressentido com a eleição e a reeleição de Trump. Tenho dificuldade em conciliar isso com o que eu pensava saber sobre o mundo republicano, nos anos 1980.

Considera que isso tem a ver com os problemas sociais não resolvidos e com a tentativa de remedia-los por meio de novas tecnologias?

Minha intuição me diz que permitimos que ideias preciosas sobre o valor inerente da pessoa se atrofiassem. Penso que corroemos as ferramentas que permitem aos seres humanos se sentirem conectados e cuidar uns dos outros. Na minha avaliação, as forças impulsionadoras dessa mudança são o capitalismo sem regulação e uma racionalidade tecnocientífica essencialmente indiferente aos seres humanos. E essas mesmas forças desencadearam níveis sem precedentes de competição econômica, riqueza e desigualdade.

O que é o fracking humano?

Usamos esse termo para expressar a violência do modelo econômico que rege nossas vidas por meio das telas. O fraturamento hidráulico do petróleo injeta uma mistura química em alta pressão no solo para romper a arquitetura profunda do planeta e forçar o petróleo a vir à superfície. O “fracking humano” é o mesmo processo, mas aplicado à nossa atenção. Ou seja, esses dispositivos bombeiam conteúdo corrosivo na nossa cara, em alta pressão e em grandes volumes. Conteúdo incessante, projetado para romper nossa capacidade de atenção permanente. Tudo isso para rachar e transformar as estruturas centrais da nossa consciência e forçar que uma parte desse olhar agora fragmentado venha à superfície.

Não são os dados o novo petróleo, mas é a nossa atenção e essência que estão sendo minadas.

Exatamente. Não estão mercantilizando apenas nossos olhos. Estão mercantilizando a nossa curiosidade, nosso interesse, nosso cuidado e nossa necessidade mútua, e lucrando com a nossa sede de relações. É assim que funciona a indústria do fracking humano.

A ideia de que para resolver esse problema precisamos apenas de “plataformas melhores” é reducionista?

Se nossas avós tivessem inventado nossos telefones, nós os usaríamos para ligar para casa. Se Marina Abramović e dois monges budistas tivessem criado as redes sociais, seriam muito diferentes. O problema não são os dispositivos, nem as tecnologias, mas o contexto político e econômico em que operam, com uma regulação muito limitada e sob uma lógica exploratória, o que levou as pessoas a desaprenderem a dar e receber atenção humana verdadeira.

Quais são as falsas crenças sobre a atenção?

Nosso movimento, Ativismo da Atenção, é uma crítica à monocultura contemporânea da atenção. A maioria das pessoas a associa à capacidade de ser eficiente e disciplinado no uso de dispositivos digitais. A lógica da produtividade e da otimização permeia nossa existência, mas a verdadeira atenção humana é muito mais do que isso.

Não acreditamos que algo tão simples quanto permanecer alguns minutos na cama olhando para o teto ou pela janela seja uma forma de atenção, mas é. A verdadeira atenção humana consiste em prestar atenção ao que nos rodeia de forma imediata (o quarto, a janela, o ar, a passagem do tempo) e aos nossos próprios pensamentos ou lembranças. A atenção humana é social. Nossa capacidade de prestar atenção aos outros é recíproca e está ligada às situações que nos cercam.

A atenção não deveria ser concebida como um feixe autônomo que sai dos nossos olhos. Não consiste em praticar pontaria com a mente. A maneira como damos e compartilhamos atenção é o que configura o mundo que habitamos e as vidas que levamos. Se os frackers a canalizam para programas baseados em telas projetados para maximizar lucros, o ambiente que criamos é uma espécie de matriz tecnológica na qual estamos cada vez menos conectados conosco mesmos, com os outros e com o mundo.

Algo que um aplicativo para controlar o tempo de tela não vai resolver...

A única coisa que ele fará será acrescentar mais tempo de tela para que você verifique quanto tempo está passando diante da tela. É uma forma de pensar na atenção que está sempre voltada para os dispositivos, para a auto-otimização, para esse mundo fluido e sem atritos das simulações.

Ao impor com sucesso esse marco, os frackers já venceram. As grandes empresas de tecnologia construíram e monopolizaram uma parte significativa da nossa mente, do nosso tempo e da nossa experiência sensorial em suas plataformas extremamente poderosas, a ponto de, em certa medida, termos nos permitido esquecer grande parte da riqueza, da complexidade e da diversidade da experiência humana.

O impacto das narrativas tecnológicas e o fascínio das telas são enormes. Como combatê-los?

É uma excelente pergunta. Nós falamos em recuperar nossa atenção, em torná-la novamente selvagem. Nosso trabalho se apoia em três pilares. O primeiro é o estudo, não como uma obrigação escolar, mas como uma prática da atenção fundamental para constituir-se como um “ser não desumano”.

O segundo é a organização: os frackers humanos querem nos manter separados uns dos outros, isolados e vulneráveis para facilitar o consumo. Precisamos dos nossos amigos e de outras pessoas para combater a hipertrofia do individualismo radical e a solidão, promovendo a solidariedade e as experiências de transindividuação.

O terceiro pilar são os refúgios ou santuários: espaços e tempos protegidos da extração comercial. São as bibliotecas, os museus, os parques, os cafés e bares e outros lugares onde as pessoas podem se reunir, cuidar umas das outras e experimentar diferentes formas de atenção.

Como vocês cultivam esses pilares na SoRA?

Temos desde seminários gratuitos e pagos sobre ativismo da atenção e outros temas até oficinas gratuitas, com exercícios muito simples, inspirados na arte contemporânea e em práticas estéticas e contemplativas. No coração da escola estão os chamados “estudos de rua”. São uma forma de pedagogia conduzida por jovens que escolhem um texto e se reúnem em um bar para debatê-lo. Depois, realizam um exercício de ativação enquanto caminham até outro bar para conversarem sobre os resultados.

E atraem as pessoas?

Abrimos há apenas dois anos e meio. Praticamente não seguimos ninguém e já temos cerca de 23.000 seguidores no Instagram (você sabe o que dizem: “desmonte a casa do senhor com as ferramentas do senhor”). Cerca de 2.500 pessoas, entre 10 e 80 anos, já passaram pela escola. Estamos com muitas pessoas que querem fazer parte do que estamos construindo. Temos núcleos em todo os Estados Unidos e também fora, com uma rede internacional de ativistas que organiza atividades na Alemanha, Austrália, Brasil...

É uma iniciativa voluntária?

Somos uma organização sem fins lucrativos, mas o único que não recebe nada sou eu. Meu cofundador, Peter Schmidt, que foi meu aluno em Princeton, trabalha em tempo integral como diretor de Programas. Além disso, contamos com 34 jovens que trabalham conosco, a maioria em tempo parcial. E temos cerca de 300 professores comprometidos com a ideia de que precisamos cultivar nossas práticas de atenção.

Como você leva isso para a universidade?

Há quase 20 anos venho desenvolvendo essas práticas em Princeton porque percebi que cada vez menos pessoas estavam dispostas a se dedicar à leitura tradicional e prolongada. Já não se lê como antes, devido às interrupções constantes dos dispositivos. As formas de competência textual em larga escala que caracterizaram a ascensão das democracias liberais estão desaparecendo. Precisamos de uma higiene da atenção porque as forças do fracking humano estão nos transformando. A educação precisa mudar. A SoRA é pioneira nesse campo, embora nos baseemos nas práticas de muitas pessoas que nos precederam!

Qual é o impacto da IA nisso?

As empresas de IA estão eliminando o papel intermediário das universidades; por isso, estamos construindo um modelo educacional que reforce as experiências de estudo presenciais e em tempo real, algo que ela não consegue replicar. Para isso, utilizamos práticas de atenção: em vez de pedir aos estudantes que leiam um livro e recorram à IA para resumi-lo, pedimos que escolham um parágrafo que seja parte importante e depois o compartilhem em voz alta, ou em duplas. Dessa forma, enfatizam-se a atenção, a interioridade e a “apropriação” do material, além de se fortalecerem as dinâmicas de grupo. De certo modo, isso se aproxima do ritual, da liturgia ou do teatro de improvisação. “Construímos” os textos juntos. Realizamos juntos o trabalho da compreensão.

O que podemos fazer no dia a dia para resistir ao fracking humano?

Faça um inventário. Pergunte a si mesmo: quais são as coisas que me fazem sentir bem, mais conectado comigo mesmo, com o mundo e com os outros? Esses são momentos em que você utiliza sua atenção de modo a contribuir para o seu bem-estar. Identifique essas atividades e espaços de plenitude (jardinagem, prática esportiva, uma tarde entre amigos sem celulares) e defenda esse tempo com seus familiares e amigos.

Um quarto da economia mundial tenta o tempo todo desviar sua atenção: olhe para cá por um segundo, depois para lá e, em seguida, para outro lugar. Assim, as chances de que você consiga continuar encontrando uma ou duas horas para fazer algo que realmente o satisfaça são pequenas se não começar a defender esse tempo.

Você menciona a espiritualidade e a Igreja como atores privilegiados na defesa da atenção. Por quê?

As novas tecnologias possibilitam novas formas de exploração, e estamos em um momento de transformação social e econômica sem precedentes. O fracking humano equivale a um biohackeamento em escala civilizacional. Precisamos tomar consciência disso e nos unir em solidariedade para resistir e construir novos mundos a partir de experiências da atenção compartilhada, algo para o qual as comunidades religiosas e espirituais são de enorme importância.

Outras tradições, como a dança, também fazem isso: dos espaços orquestrais até as raves de Berlim, onde há uma sincronização temporal e somática que cria uma experiência de identidade pessoal. Até mesmo a ciência está cheia de disciplinas de observação que se baseiam na atenção coletiva.

A regulamentação deve proteger a atenção?

A regulamentação desempenha um papel importante, mas nosso movimento está centrado na cultura. Como se costuma dizer, “a cultura devora a política no café da manhã”. Se a cultura não muda, a política é inútil. Queremos que as pessoas compreendam sua atenção como um poder criador de mundos, e não como uma mera ferramenta de gestão de tarefas.

Qual é o seu maior desejo?

Nosso sonho é transformar a atenção humana em uma preocupação central em escala global, assim como acontece com o meio ambiente. Esta é a batalha do nosso tempo. Uma nova confluência entre poder tecnológico e financeiro criou um modelo de negócio de fracking humano profundamente prejudicial ao bem-estar das pessoas. Se mantivermos como eixo central o uso humano da atenção para a liberdade em comunidade, as decisões corretas sobre regulamentação e tecnologia virão por si só.

Leia mais