04 Julho 2026
"A essência do pecado não é a infração normativa de um mandamento, mas o fechamento da abertura ontológica que constitui a criatura. A redenção realizada por Cristo não adiciona uma nova realidade à criação; mas reabre a criatura à sua verdade original, ou seja, à participação na Relação absoluta que constitui o fundamento do ser", escreve Paolo Gamberini, jesuíta italiano, capelão da Universidade La Sapienza de Roma, em artigo publicado por ApertaMente, 28-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Durante séculos, a doutrina do pecado original ergueu-se como um dos pilares do edifício teológico ocidental. A partir principalmente da reflexão de Agostinho, a história da salvação foi interpretada de acordo com uma estrutura linear: criação, queda e redenção. Nesse esquema, a encarnação do Verbo aparece principalmente como uma resposta divina ao pecado da humanidade. Sem o pecado de Adão, o Verbo não teria tido motivo para se fazer carne.
Nas últimas décadas, contudo, uma crescente reflexão bíblica, patrística e sistemática trouxe novamente ao foco uma perspectiva diferente, já presente em autores como Irineu, Máximo, o Confessor, e Duns Escoto: Cristo não teria sido predestinado em vista do pecado, mas sim a própria criação teria sido quista em vista de Cristo. Assim, a encarnação não seria o remédio para um fracasso da criação, mas o seu propósito original.
Tal inversão de perspectiva não altera apenas a cristologia; transforma toda a compreensão do pecado original. Se Cristo é a intenção original por trás da criação, então o pecado não pode mais servir como princípio interpretativo fundamental para compreender o homem, nem como motivo da encarnação. Em vez disso, deve ser repensado como um evento histórico que ocorre dentro de um projeto de comunhão que o precede infinitamente.
1. Do amartiocentrismo ao cristocentrismo
A tradição ocidental muitas vezes construiu sua arquitetura teológica segundo uma lógica que poderia ser definida como amartiocêntrica. O pecado original torna-se o pressuposto para a redenção e, consequentemente, para a própria encarnação. A sequência lógica parece evidente: criação → pecado → encarnação → redenção.
Toda a economia da salvação parece girar em torno do pecado. Cristo aparece como aquele que vem porque o homem fracassou. Uma perspectiva cristocêntrica, ao contrário, propõe uma estrutura diferente: Logos → criação → liberdade → pecado → redenção → cumprimento (Cristo).
A encarnação não nasce como resposta a uma crise no projeto divino. Constitui o próprio projeto de Deus desde a eternidade. O pecado não gera a encarnação; em vez disso, modifica a modalidade histórica pela qual a encarnação realiza o seu propósito.
Nessa perspectiva, a redenção não é a razão da vinda de Cristo, mas uma forma assumida por sua missão original devido à história concreta da liberdade humana.
2. Cristo como razão (logos) e fim (telos) da criação
O Novo Testamento oferece numerosos textos que parecem orientar-se nessa direção.
O hino na Carta aos Colossenses afirma que todas as coisas foram criadas "por meio dele e para ele". Da mesma forma, a Carta aos Efésios apresenta Cristo como o mistério oculto desde a eternidade e destinado a recapitular todas as coisas. O objetivo da criação, portanto, não seria simplesmente a existência do mundo, mas a sua progressiva conformação ao Filho. A criação possui desde a sua própria origem uma estrutura cristológica. Disso decorre que o pecado não pode ser considerado a razão da história da salvação. A história da salvação precede logicamente o próprio pecado.
3. A graça precede o pecado
Uma das consequências mais significativas diz respeito à relação entre graça e pecado. No paradigma tradicional, a graça aparece como resposta ao pecado. No paradigma cristocêntrico, ocorre exatamente o contrário. A graça constitui a decisão eterna de Deus de comunicar a Si mesmo. A bênção (graça) é originária em relação à culpa. O pecado representa apenas um evento no âmbito da liberdade criada: o "não" possível ao "sim" incondicional de Deus. Em outras palavras, Deus não ama o mundo porque precisa salvá-lo; Ele salva o mundo porque o ama desde sempre. Ele o salva do fechamento ao infinito amor de Deus. O amor precede infinitamente a culpa. Essa perspectiva liberta a teologia de uma compreensão implicitamente reativa da ação divina. Deus não é determinado pelo pecado do homem. Ele permanece fiel à sua intenção original de comunhão.
4. O pecado original como fracasso da relação
Tal abordagem também altera profundamente a própria natureza do pecado original. Se o fundamento do ser é a relação, então o pecado não consiste principalmente na transgressão de uma lei positiva, mas sim na distorção da relação constitutiva que fundamenta a existência da criatura. A criatura existe por ser participação do amor criador. O pecado consiste na pretensão da autossuficiência.
Representa a tentativa da relação derivada de se transformar em relação absoluta.
A alienação fundamental não consiste tanto na culpa jurídica, quanto na autorreferencialidade.
Desse ponto de vista, o pecado original descreve a estrutura universal de toda liberdade que se fecha sobre si mesma, interrompendo assim o dinamismo participativo dirigido a Deus, aos outros e a toda a criação.
5. Distinguir finitude e pecado
Adotar a perspectiva evolutiva torna essa reinterpretação ainda mais evidente. A morte biológica, o sofrimento, a limitação e a competição pertencem ao processo evolutivo da vida muito antes do surgimento do ser humano. Portanto, não podem ser interpretados como consequências históricas do pecado de Adão. Uma distinção rigorosa deve ser feita entre finitude e culpa. A finitude pertence à estrutura da criação. O pecado surge somente quando a liberdade assume a finitude como ocasião para a autorreferencialidade, em vez de abertura para a comunhão. Essa distinção evita atribuir uma criação defeituosa a Deus e permite compreender o pecado como um evento propriamente espiritual, não biológico.
6. Redenção como cumprimento da criação
A consequência antropológica talvez seja a mais radical. A tradição ocidental geralmente definiu o homem como pecador. A antropologia cristocêntrica, por outro lado, sugere que a identidade primordial do ser humano seria a sua filiação. O homem não nasce para ser redimido; nasce para ser conformado ao Filho. Sua vocação fundamental não consiste em ser perdoado, mas em participar da comunhão trinitária. O pecado interrompe essa vocação, mas não a fundamenta.
A identidade sempre precede ao fracasso. O chamado sempre precede à queda. A soteriologia, dessa forma, assume um aspecto diferente. Cristo não vem simplesmente para restaurar um estado originário perdido; Ele conduz a criação rumo a um cumprimento que ela ainda não havia alcançado. O Éden não constitui o objetivo final da história. É a Nova Jerusalém que representa seu autêntico horizonte escatológico. A redenção não coincide com um retorno ao princípio. Ela leva à concretização o que o início apenas anunciava em forma germinal. Assim, a inteira história cósmica aparece como um movimento de progressiva cristificação da realidade.
7. Uma releitura à luz do monismo relativo
A perspectiva do monismo relativo permite formular essa reinterpretação com particular coerência metafísica. Se Deus é Relação absoluta, então a criação consiste na participação finita a essa Relação. A criatura não possui um ser autônomo contraposto a Deus, mas recebe continuamente o seu próprio ser como relação participada. O pecado original, então, consiste na pretensão impossível da relação relativa de se absolutizar.
A essência do pecado não é a infração normativa de um mandamento, mas o fechamento da abertura ontológica que constitui a criatura. A redenção realizada por Cristo não adiciona uma nova realidade à criação; mas reabre a criatura à sua verdade original, ou seja, à participação na Relação absoluta que constitui o fundamento do ser.
Nessa perspectiva, Cristo aparece como o lugar originário onde a Relação absoluta se manifesta perfeitamente na história.
A encarnação não representa, portanto, uma exceção dentro do projeto criador, mas sua forma plenamente revelada. Toda a criação já está orientada para a plena divinização que é Cristo, e a redenção consiste em permitir que a história redescubra sua orientação original.
Conclusão
Postular a predestinação de Cristo como intenção primordial da criação comporta uma profunda reformulação da doutrina do pecado original. O ponto central da teologia não é mais a queda, mas o plano eterno de comunhão de Deus. O pecado continua sendo uma realidade dramática e universal, mas perde a função de princípio arquitetônico de toda a economia da salvação.
O resultado é uma teologia decididamente mais cristocêntrica, na qual a graça sempre precede o pecado, a filiação precede a culpa, a comunhão precede a separação e a encarnação precede a redenção. A história da salvação não é mais interpretada como a tentativa divina de reparar um projeto fracassado, mas como o cumprimento de uma intenção eterna: que toda a criação participe da vida do Filho e, no Filho, da comunhão trinitária.
Nessa perspectiva, o pecado original não é abolido, mas sim recolocado em sua devida ordem teológica: não é o fundamento do cristianismo, mas sim a negação histórica daquela vocação cristológica que precede o próprio mundo. A teologia, assim reorientada, redescobre o seu centro não no Adão que cai, mas no Cristo "primogênito de toda a criação", no qual o mundo é concebido, criado e destinado a encontrar seu definitivo cumprimento.
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