Margaret Atwood: “Nunca na era moderna tantos livros foram proibidos como agora nos Estados Unidos”

Margaret Atwood (Fonte: Flickr)

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26 Junho 2026

A escritora canadense Margaret Atwood chamou a atenção, nesta segunda-feira, para o aumento da censura em países como os Estados Unidos, considerado “um farol da liberdade” durante a Guerra Fria, e afirmou que nunca na era moderna tantos livros foram proibidos como agora, em bibliotecas e escolas.

A reportagem é de M. Cantó, publicada por El Cultural, 22-06-2026.

Foi o que expressou a autora de romances como O conto da aia, em seu discurso após receber o título de doutora honoris causa pela Universidade de Granada (UGR), em uma cerimônia na qual criticou o fato de alguns partidos políticos reivindicarem a liberdade de expressão quando estão na oposição, mas, uma vez no poder, promoverem restrições e exercerem pressão sobre os meios de comunicação.

Atwood afirmou que os professores de humanidades estão “sitiados” nas universidades norte-americanas, onde suas disciplinas vêm sendo rotuladas como “não essenciais”, em uma época caracterizada pela rápida mudança tecnológica e pela inovação científica.

A escritora, que defendeu o papel das humanidades, ressaltou que é justamente essa área do conhecimento que ensina as pessoas a pensar, a criar e a compreender os outros, especialmente “aqueles que são diferentes de si mesmos”.

Segundo argumentou, é fundamental que os indivíduos preservem a capacidade de questionar suas próprias certezas: “Uma sociedade que não pode mais pensar com clareza e nem questionar suas próprias suposições caminha para o precipício”, afirmou em seu discurso no Hospital Real de Granada.

A também autora de Os testamentos recordou que o regime retratado por George Orwell, em seu romance 1984, busca consolidar seu poder eliminando da linguagem qualquer palavra que permita às pessoas pensar e ter uma opinião crítica.

Nesse sentido, questionou se a inteligência artificial desempenhará um papel semelhante ao dessa “polícia do pensamento” de Orwell: “Será a IA capaz de fazer isto? Saberemos”, declarou.

Atwood analisou essa situação das humanidades e do pensamento em um contexto internacional que definiu como uma “tempestade perfeita” de crises simultâneas, como a econômica, as guerras na Ucrânia, em Gaza e no Irã, e a degradação do meio ambiente.

Nesse sentido, compartilhou sua preocupação com a extinção de espécies, a deterioração dos ecossistemas e a destruição de habitats animais, vegetais e humanos: “Precisamos do oxigênio para respirar e, se destruirmos a vida nos oceanos, ele acabará”, ressaltou.

A esses desafios, acrescentou as dificuldades econômicas, como o aumento dos preços e a perda de empregos, além do endividamento público e o risco da fome, fatores que, como recordou, historicamente precederam episódios de grande instabilidade, como a Revolução Francesa.

Apesar desse cenário, Atwood considerou que a Espanha está em uma posição “relativamente favorável” e destacou que o país possui uma rica história e uma notável diversidade cultural, razão pela qual não considerou provável que se torne uma ditadura totalitária, em um futuro próximo.

Além disso, chegou a levantar a possibilidade de que, caso o contexto internacional se torne “mais sombrio”, a Espanha possa vir a se transformar em um “santuário para a preservação da alfabetização e do saber”: “Não é algo descabido”, expressou.

Por sua vez, o reitor da UGR, Pedro Mercado, destacou os valores de Margaret Atwood e sua defesa dos direitos humanos.

Desse modo, apontou que sua nomeação como doutora honoris causa representa a convergência entre uma trajetória “excepcional” e uma instituição que, desde 1531, se compromete com o conhecimento, a liberdade e sua responsabilidade com a sociedade.

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