A Colômbia junta-se ao avanço da extrema-direita na América Latina

Foto: GI/Canva

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23 Junho 2026

Em 12 países, a direita, em suas diversas formas, já está no poder, e políticas de segurança linha-dura, a restrição dos direitos das mulheres e das minorias e as alianças que surgiram na esteira de Trump estão se consolidando.

A reportagem é de Silvia Blanco, publicada por El País, 23-06-2026.

Ele se autodenomina El Tigre (O Tigre), confia apenas em “Deus” e “no Povo” e afirma estar colocando “toda a verdade sobre a mesa”. Ao vencer o primeiro turno, para surpresa de muitos analistas e especialistas, declarou que sua vitória representava “a derrota total dos mesmos políticos de sempre, dos mesmos partidos de sempre”. Apesar de sua retórica radical, o direitista Abelardo de la Espriella, com sua apertada vitória nas eleições presidenciais, acaba de inserir a Colômbia na tendência que dominou 12 eleições na América Latina nos últimos três anos: o avanço da direita e da extrema-direita em suas diversas formas.

De la Espriella pertence à ala mais radical, personalista e heterodoxa do espectro político, como a personificada desde 2023 por Javier Milei na Argentina, que se identifica como um leão, e anteriormente por Nayib Bukele em El Salvador, reeleito em 2024 por meio de uma manobra legal. Os três são admiradores e aliados fervorosos de Donald Trump em uma região que os Estados Unidos agora consideram agressivamente sua esfera de influência hegemônica e que, com exceção dos gigantes México e Brasil, bem como da Guatemala de Bernardo Arévalo e do Uruguai de Yamandú Orsi, consolida sua guinada à direita.

“É uma tendência, sem dúvida, e é uma nova direita”, afirma Steven Levitsky, professor de governança na Universidade de Harvard, especialista em América Latina e autor do ensaio Como as Democracias Morrem (2018). “É muito diferente da direita do início dos anos 2000, com Sebastián Piñera [Chile], Vicente Fox [México], Pedro Pablo Kuczynski [Peru]... que era mais liberal, com ênfase na economia e no livre mercado, respeitava a democracia e não se importava com questões como feminismo, aborto ou direitos LGBTQ+”, declara. “Agora é uma direita em que a segurança e as guerras culturais são mais importantes, com exceção de Milei, que é muito pró-mercado e prioriza a economia. É uma direita menos liberal, ataca os direitos das minorias e, em geral, tem uma relação mais precária com a democracia.”

Duas semanas antes da Colômbia, o Peru foi às urnas para eleger seu nono presidente em uma década. Em meio à instabilidade política dos últimos anos e à extrema polarização, a candidata de direita Keiko Fujimori está prestes a vencer, com uma pequena vantagem de cerca de 40 mil votos. Ela é a vencedora projetada, com foco na ordem e em uma abordagem linha-dura em relação à insegurança, uma das principais preocupações dos cidadãos de Lima e de toda a América Latina. E quando isso acontece, a direita tende a capitalizar esse medo nas eleições, um medo que impacta diretamente o cotidiano de uma região assolada pela violência alimentada pelo narcotráfico e por economias criminosas emergentes.

O uso de termos anacrônicos como “comunista” para descrever o opositor, atitudes sexistas — De la Espriella frequentemente se vangloria do tamanho de seus genitais, como fez com uma jornalista que se sentiu assediada —, ataques a direitos como o aborto, homofobia e o uso abusivo das redes sociais fazem parte do repertório de uma direita bem conectada e mais assertiva na região. “Antes, ninguém se dizia de direita; todos falavam de centro. Mas hoje dizem isso sem hesitar, até mesmo entre os jovens, que, embora muito polarizados, já não se identificam necessariamente como de esquerda”, observa Pablo Stefanoni, doutor em História pela Universidade de Buenos Aires, ensaísta e jornalista.

Embora a retórica política violenta de De la Espriella, as supostas ligações de seu rival com paramilitares, suas atitudes sexistas e seu escárnio contra pessoas LGBTQ+ não o tenham impedido de vencer, a adesão de Keiko Fujimori ao legado de corrupção e violação dos direitos humanos de seu pai, o autocrata Alberto Fujimori, não lhe roubou a vitória, ainda que em sua quarta tentativa e por uma margem muito estreita. O apoio de José Antonio Kast à ditadura de Augusto Pinochet não o impediu de se tornar presidente do Chile, nem a promessa de campanha de Milei de cortes drásticos no Estado, a infame "motosserra". O direitista Flávio Bolsonaro está dando continuidade ao legado de seu pai, preso por conspiração golpista, e atualmente disputa a presidência do Brasil em outubro, desafiando o esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva.

O fato de a maioria dos 12 países latino-americanos — dos 16 analisados ​​que realizam eleições — serem governados por partidos de direita não implica, contudo, que “a vasta maioria da região tenha se voltado para a direita, onde talvez apenas Bukele tenha apoio massivo”, como enfatiza Levitsky. Por trás dos números e das diferenças entre os partidos de direita em cada país, como se observa na Colômbia e no Peru, reside outra forte tendência que explica, em parte, por que eles vencem as eleições: “o enorme nível de descontentamento com o status quo e com o partido no poder”, afirma ele.

Isso está acontecendo em um continente onde a pandemia deixou feridas profundas, inclusive econômicas, e em um momento em que o discurso público é dominado pelas redes sociais, que amplificam e privilegiam as mensagens mais extremistas. “Em um momento de raiva e frustração entre os cidadãos, quando há a sensação de que tudo já foi tentado e quando houve uma mudança da esquerda para a direita, a retórica anti-establishment é valorizada”, explica Stefanoni. “É aqui que os outsiders e os radicais prosperam, projetando uma imagem de suposta autenticidade contra a política tradicional”, afirma.

Dois exemplos de reações contrárias são os casos da Colômbia, que passou da esquerda de Gustavo Petro para a extrema-direita de De la Espriella, e do Chile, que passou da esquerda reformista de Gabriel Boric para a extrema-direita de José Antonio Kast. Em três meses como presidente, Kast está implementando sua agenda de cortes nos gastos sociais, reduções de impostos e iniciativas como a eliminação da linguagem inclusiva nos serviços públicos e a criação de um cadastro de incivilidades para punir — privando os infratores de auxílio-moradia ou da carteira de habilitação — comportamentos como beber álcool na rua ou despejar entulho de construção sem autorização municipal.

“Essa direita está aprendendo; está percebendo que a gestão econômica por si só não é suficiente para deter o progressismo. Então, agora, eles estão revivendo a retórica da Guerra Fria, o anticomunismo, a ideia de que o progressismo deve ser punido, que é o inimigo… é daí que surge a guerra cultural da direita”, analisa Ariel Goldstein, sociólogo e pesquisador de movimentos de direita na América Latina. “Isso inclui muitos jovens, e o empreendedorismo e o esforço pessoal são exaltados. A mensagem é: ‘Suas finanças pessoais não melhoraram, na verdade pioraram, mas os culpados, as baratas [como Milei se refere aos apoiadores de Kirchner], serão punidos, vamos prender Cristina Kirchner’”, acrescenta.

Muitas dessas características são compartilhadas por De la Espriella na Colômbia e contrastam fortemente com a imagem austera e sensata projetada pelo esquerdista Iván Cepeda. Enquanto o primeiro viaja em jato particular, cobra por suas camisetas de campanha estampadas com o tigre e possui uma presença massiva e especializada nas redes sociais, o segundo faz campanha em praças públicas, viajando em voos comerciais. “Os próprios eleitores estão fascinados pelo espetáculo eleitoral que De la Espriella introduziu, e isso não é algo que centristas ou moderados ofereçam”, afirma Sandra Borda, especialista em relações internacionais da Universidade de Los Andes.

O desgaste da esquerda

Tudo isso é agravado pela própria postura da esquerda, que demonstra sinais de esgotamento, embora no caso da Colômbia tenha perdido por uma margem muito estreita, assim como no Peru. "Ela oferece um discurso mais focado no passado do que no futuro; quando governou, implementou reformas sociais limitadas e dialoga menos com os jovens", aponta Stefanoni. Para Levitsky, "atualmente, a única força política com um projeto e que gera paixão é a extrema-direita. Ela não tem maioria, mas acredita em algo, ao contrário do que acontece com o centro-direita, a social-democracia ou a esquerda tradicional."

A direita também é capaz de reunir outras forças, “como os evangélicos, por exemplo, ou o apoio dos tecnoligarcas”, aponta Goldstein, e elas se organizam “em redes como a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) ou em fóruns entre países, como o Escudo das Américas de Trump”. Em contrapartida, argumenta ele, “a esquerda mal conseguiu angariar novo apoio”. De fato, para Rafael Rojas, historiador do Colegio de México, essa derrota da esquerda na Colômbia, embora apertada, “confirma que o bloco bolivariano está fragmentado, e a esquerda colombiana agora terá que se reinventar, distanciando-se dele, algo que Cepeda já havia começado a fazer, ao contrário de Petro”, explica.

Lei e ordem, mão firme, tolerância zero ao crime. Essas são fórmulas que evocam a firmeza esperada por grande parte do eleitorado em uma região extremamente violenta — com uma alta taxa média de 17,6 homicídios por 100 mil habitantes, segundo o Insight Crime — onde a extorsão é mais desenfreada do que nunca.

O modelo de Bukele em El Salvador é o mais extremo. Ele impôs estado de emergência, mobilizou o exército para as ruas e criou uma megaprisão onde membros de gangues cumprem longas penas em condições de superlotação, acorrentados, vestindo seus uniformes brancos e com a cabeça raspada. Diversas organizações documentaram violações de direitos humanos, tortura, desaparecimentos e assassinatos no país desde 2022, apesar de uma drástica redução da criminalidade.

Essa abordagem teve um impacto significativo em países como o Equador, que testemunhou um aumento descontrolado da violência em um curto período. Daniel Noboa venceu em 2023 como a antítese das políticas da era Correa de seu rival e, em 2025, conquistou uma vitória expressiva nas eleições com promessas de uma postura linha-dura contra as máfias e os narcotraficantes que fizeram do Equador o país mais violento da região. Apesar da militarização das prisões e da frequente declaração de estado de emergência, ele não conseguiu conter a espiral de violência.

A candidata de direita Laura Fernández também venceu na Costa Rica em fevereiro deste ano, com promessas de uma postura rigorosa contra o crime, em um país que sofreu um declínio acentuado na segurança nos últimos anos. Enquanto uma megaprisão semelhante à de Bukele estava sendo construída no país durante a campanha — com o presidente salvadorenho inclusive visitando o canteiro de obras —, agora que assumiu o cargo, ela lançou uma série de medidas que incluem o fim da "vadiagem nas prisões". Ela propõe que os presos não tenham direito ao lazer e trabalhem para seu próprio sustento, uma ideia semelhante à promovida por Fujimori durante sua campanha, de que os detentos trabalhem para sua própria comida.

Em relação à segurança, “os partidos de direita não são necessariamente mais eficazes, mas a solução mais simples e a comercialização da crueldade compensam a dificuldade de resolver um problema complexo; a promessa de uma abordagem linha-dura soa mais radical”, explica Stefanoni. Mas o fato é que conter o crime cada vez mais violento, sofisticado e diversificado não é exatamente fácil. “Há uma assimetria temporal nas promessas da esquerda e da direita. A promessa progressista é de que você poderá viver melhor, com educação e saúde. Isso leva anos, se é que pode ser alcançado. Mas a promessa da direita é de punição e medidas imediatas, como, por exemplo, fechar o Ministério da Mulher [como Milei fez em 2024]”, afirma Goldstein.

No caso da Colômbia, De la Espriella vende conceitos como o da “pátria milagrosa” em vez de promessas. Um exemplo é sua proposta de acabar com o conflito armado de décadas em 90 dias. Embora tenha suavizado sua posição e recuado à medida que a votação se aproximava, o modelo punitivo — bombardear grupos armados com assistência dos EUA e construir megaprisões como as do regime de Bukele — permanece em vigor. Tudo isso contrasta com seu rival, Cepeda, que falou em “segurança humana” e em uma abordagem abrangente que implemente os acordos de paz firmados com as FARC em 2016.

De la Espriella governará cercado por aliados ideológicos em outros países; todos o parabenizaram pela vitória — incluindo extremistas de outras partes do mundo, como Benjamin Netanyahu e Santiago Abascal, na Espanha —, mas o mais complicado será transformar milagres em medidas concretas e fazê-lo sem recorrer aos aliados "de sempre", muito menos com uma vitória tão apertada.

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