18 Junho 2026
A informação é de Maria Martín, publicada por El País, 18-06-2026.
A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais colombianas, em qualquer reunião que se prezasse, amigos, colegas de trabalho e familiares faziam suas previsões. Com Iván Cepeda à frente nas pesquisas, a grande maioria acreditava que a esquerda acabaria vencendo no segundo turno, ou até mesmo no primeiro, embora não fosse o que desejavam. Quase ninguém previu o que estava por vir: Abelardo de la Espriella obteve mais de 10 milhões de votos, superando até mesmo as expectativas. Hoje, a eleição está acirrada, embora a média das pesquisas dê ao candidato de extrema-direita 80% de chances de vitória.
A conversa acontecia em círculos sociais de classe média ou elite de Bogotá, onde apenas alguns meses antes as pessoas falavam de De la Espriella com perplexidade e desdém, e agora iriam votar nele com convicção. "Como pode aquele homem que aparece na televisão sem meias ser presidente?", ouviam-se alguns brincando.
As ondas de choque varreram o país, que continua a analisar o fenômeno de "El Tigre", como este advogado criminal se autodenomina. Muitos colombianos de esquerda e de centro jamais imaginaram que sua retórica radical ressoaria tão profundamente em seus círculos, provocando desavenças familiares e, por fim, levando a disputas sobre o simbolismo da camisa da seleção nacional. A fórmula já havia funcionado no Brasil, na Argentina, em El Salvador, nos Estados Unidos... Mas a Colômbia não viu isso acontecer.
Oito anos atrás, os brasileiros também brigavam pela camisa da seleção brasileira de futebol. Jair Bolsonaro, então candidato à presidência, havia se apropriado de um símbolo que tomava as ruas em todas as manifestações antiesquerdistas. Enquanto isso, algumas pessoas observavam incrédulas seus vizinhos, pais ou colegas de trabalho torcendo por um oficial militar aposentado, homofóbico e nostálgico da ditadura, para que ele pudesse se tornar presidente. Algo semelhante aconteceu com a retórica estridente de Milei. E, claro, com Donald Trump.
"O futuro eleitoral da Colômbia está nas mãos dos países da região", afirma a cientista política Laura Wills, da Universidade dos Andes, que há tempos estuda a ascensão da extrema direita na América Latina. O que aconteceu com Bolsonaro no Brasil, Milei na Argentina e Bukele em El Salvador foi um ensaio geral para o qual a Colômbia acaba de entrar.
Oliver Stuenkel, cientista político da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, identifica semelhanças impressionantes entre os fenômenos Bolsonaro e De la Espriella, separados por quase uma década: o outsider provocador, aquele que fala diretamente com seus seguidores ignorando a mídia tradicional, aquele que se apropria de símbolos nacionais para sugerir implicitamente que outros não estão comprometidos com o país, o candidato que promete ordem. Soma-se a tudo isso uma campanha de marketing multimilionária que, além de persuadir, também gerou lucro. Enquanto a equipe de Cepeda distribui bonés aos montes em seus comícios, De la Espriella os vende. Ele construiu um negócio em torno de seus produtos.
Mas o fenômeno colombiano tem suas próprias características únicas, e os eleitores de El Tigre têm motivações muito diferentes: variam do fanático genuíno, emocionalmente ligado ao candidato sem precisar conhecer sua plataforma, ao voto contra Gustavo Petro, contra seu governo, contra o que ele representa. Esse ódio deriva do que Petro simboliza para uma parcela da Colômbia — o ex-guerrilheiro que chegou ao poder, a personificação da ferida aberta deixada pelo conflito armado. A esse ódio subjacente soma-se a animosidade diária contra um presidente que governa pelo Twitter, que instiga crises diplomáticas, que constantemente provoca. Soma-se também a animosidade decorrente do aumento da ajuda aos mais pobres e de suas ameaças de retirar os privilégios da elite.
De la Espriella também seguiu o roteiro de Trump, Milei e Bukele, posicionando-se fora do sistema. Ele se apresenta como um outsider, alguém que não se alinha à política tradicional. Embora isso não seja totalmente verdade, funciona. "Bolsonaro foi um político com uma longa carreira no Congresso, mas se vendeu como um outsider. Era uma construção, não uma realidade", aponta Stuenkel. "El Tigre" nunca ocupou um cargo público e evita aparecer com qualquer representante da política tradicional. Nem mesmo com o ex-presidente Álvaro Uribe, que o apoiou publicamente logo após sua vitória no primeiro turno. O advogado não se desvia do roteiro porque sabe a quem está apelando. Segundo a última pesquisa do Invamer, os partidos políticos são a instituição mais desacreditada do país: apenas 26% dos colombianos têm uma opinião favorável sobre eles.
O produto de De la Espriella também inclui altas doses de conservadorismo: discursos militares, oposição ao aborto, comentários homofóbicos e fervor religioso que mobiliza as massas, apesar de, há alguns anos, ele ter se declarado irremediavelmente ateu.
Uma parte fundamental dessa fórmula vencedora em uma região assolada pela violência é a abordagem de mão de ferro no combate à insegurança. "Gosto da firmeza dele; ele é alguém que sabe o que quer e é diferente dos políticos de sempre", disse Daniel Carballo, um entusiasmado estudante de medicina de 21 anos, em Bogotá. O jovem acabara de cumprimentar El Tigre após um comício e brincou sobre não ter lavado as mãos por uma semana. Filho de médicos, Carballo não hesitou em defender o que considerava a melhor promessa de seu candidato: a construção de dez megaprisões. "Se funcionou para Bukele, vai funcionar aqui também", afirmou, mesmo que a natureza do crime, sua complexidade transnacional e a dimensão da Colômbia sejam muito diferentes das de El Salvador.
O fenômeno também pode ser interpretado sob uma perspectiva regional. De la Espriella é da costa caribenha, uma origem estigmatizada no interior andino mais rico da Colômbia. Para o "cachaco" — como os moradores da costa chamam os do interior —, De la Espriella é barulhento, ostentoso, até mesmo "corroncho", um eufemismo para brega. Nessa tensão histórica entre a costa e a região central, o "cachaco" é o esnobe, aquele que leva as aparências muito a sério, aquele que despreza quem não compartilha de seus valores. Ele representa o poder centralista, um preconceito que a campanha tem usado como capital político. "Voto da costa para a costa" é um de seus slogans.
E em uma eleição marcada por espetáculo e emoção, De la Espriella oferece algo que Cepeda está longe de representar: aspiração. O advogado criminal é um milionário ostentoso e sem remorso: casas na Itália e em Miami, jatos particulares, roupas de grife, uma jovem esposa perfeita, uma mansão onde cria seus quatro filhos e passaportes americano e italiano. "Ele personifica boa parte das aspirações dos colombianos; ele é bem-sucedido nos negócios, embora muitas pessoas provavelmente não perguntem de onde vem esse dinheiro", diz Wills. É a mesma mensagem que levou Trump a convencer a classe trabalhadora a votar em um bilionário de Manhattan.
No próximo domingo, a Colômbia elegerá um presidente. E tudo indica que será aquele homem que eles desprezavam por não usar meias. O mesmo homem que a elite de Bogotá e a esquerda rejeitaram há poucos meses (embora por razões diferentes), e que agora lota estádios e faz fortuna com seus próprios produtos. Talvez seja um fenômeno novo na Colômbia, mas o exemplo mais recente de uma fórmula já conhecida que se consolidou em quase toda a região.
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