Razões para não se desesperar em relação à Doutrina 'Donroe'. Artigo de Andy Robinson

Foto: White House/FotosPúblicas

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07 Janeiro 2026

"O ataque a Caracas e a coexistência com o chavismo são sinais de fraqueza, e não de força", escreve Andy Robinson, jornalista, em artigo publicado por Ctxt, 06-01-2026. 

Eis o artigo.

Em momentos como este, vale a pena ouvir "Razões para se alegrar", de Ian Dury. Porque, apesar da demonstração aterradora do poderio militar dos EUA no sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro, vejo alguns motivos para não sentir completo desespero diante do contra-ataque do império.

A primeira é a sensação espontânea de júbilo que eu, pelo menos, senti quando Trump anunciou que María Corina Machado não seria presidente da Venezuela, "jogando-a aos leões", como se diz nos Estados Unidos.

“Será muito difícil para ela [Corina Machado] ser uma líder; ela não tem nem o apoio nem o respeito dentro do país”, anunciou o presidente dos EUA, para espanto de jornalistas e veículos de comunicação que elogiaram a nova ganhadora do Prêmio Nobel, apesar de seu apoio ao bombardeio de seu próprio país.

Obviamente, Trump não rejeita Corina Machado por ela ser uma criação da mídia, embora seja verdade que a líder da oposição tenha perdido muito apoio, segundo as pesquisas.

O verdadeiro motivo pelo qual Trump virou as costas para a política que mais o admira é que ele não quer perder tempo com eleições. O presidente dos EUA, ou melhor, o secretário de Estado Marco Rubio, acredita que a vice-presidente e agora presidente chavista Delcy Rodríguez será um instrumento mais fácil de controlar para a entrada da Exxon, da ConocoPhillips e de outras petrolíferas americanas, ainda mais do que um governo fantoche liderado por Corina Machado ou seu alter ego Edmundo González.

Rubio, o neoconservador cubano-americano que está no comando da elaboração da doutrina Donroe (Donald mais Monroe), parte da premissa de que eles podem abusar impunemente de um governo cuja legitimidade democrática é questionada, especialmente em Miami.

Deixe que o inimigo derrotado faça o trabalho sujo. Essa é a ideia audaciosa de uma mente fria e cruel como a de Rubio. Mas que instrumento de poder pode fazer do chavismo o arquiteto de sua própria destruição?

Rubio acredita que a diplomacia das canhoneiras — um eufemismo nascido nas guerras coloniais — e a presença da Marinha dos EUA no Caribe são intimidadoras o suficiente para transformar o chavismo em uma dócil besta de carga para o transporte de petróleo bruto pesado do Orinoco para Houston. "Essa é a vantagem que temos", vangloriou-se o Secretário de Estado no programa 60 Minutes, no domingo, 4 de janeiro.

Trump é mais direto. Ele fez duras ameaças contra Delcy Rodríguez caso ela não faça o que ele quer: "Se ela não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse ele a Michael Scherer, da revista The Atlantic.

Mas tendo a pensar que escolher Delcy Rodríguez em vez de María Corina Machado para gerir a pilhagem da Venezuela pode ser um grave erro de cálculo por parte dos intrépidos gestores do agora senil império americano.

Corina Machado é uma aliada de classe de Trump e Rubio, "o protótipo da garota rica de Caurimare", como brincou um amigo venezuelano, referindo-se à canção pop venezuelana dos anos setenta que zomba da elite branca de Caracas.

Delcy Rodríguez, por outro lado, se fortaleceu nas lutas contra ditaduras apoiadas pela CIA — seu pai foi torturado e assassinado. Ela é pragmática e até maquiavélica; quem sabe, talvez tenha decidido que não havia como trabalhar com Nicolás Maduro. Mas ela não é uma aliada de classe de Donald Trump.

Além disso, Rodríguez conta, pelo menos por enquanto, com o apoio das forças armadas. “O chavismo permanece no poder; eles continuarão a exercer controle militar”, explicou Francisco Rodríguez, ex-conselheiro de Henri Falcón, da oposição moderada, atualmente radicado nos EUA. A decisão de se voltar contra Machado se deve ao fato de que “Trump decidiu que a estrutura estatal sob o chavismo é mais governável”, acrescentou.

Controlar um país rebelde sem expulsar os rebeldes é uma estranha inovação política, mesmo para o trumpismo. “O presidente afirmou que agora estamos governando a Venezuela. Mas isso apresenta um pequeno problema, já que não temos soldados ou diplomatas no terreno. Podemos ter decapitado o governo venezuelano, mas o Estado venezuelano permanece intacto”, argumenta Noel Maurer, da Universidade George Washington, em um artigo no Substack.

Nesse sentido, as ameaças ao estilo Don Corleone que emanam de Mar-a-Lago e Washington para Caracas podem ser mais um sinal de fraqueza do que de força. Elas são necessárias porque, diferentemente de outras eras imperiais, Trump não pode e não quer invadir. Apesar de suas bravatas, Trump não tem apoio, nem dentro nem fora do movimento MAGA, para estabelecer uma presença militar na Venezuela. Esta não é a invasão do PanamáNoriega se rendeu em 3 de janeiro de 1990 —, quando a ocupação do país envolveu o envio de 20 mil soldados.

A relutância em invadir é compreensível. Embora muitos venezuelanos expatriados, mais ou menos da classe alta e residentes no distrito de Salamanca, aplaudissem a chegada dos fuzileiros navais à costa venezuelana, esse não é o caso dos moradores de Caracas com quem conversei há três semanas.

“Já estou armado e preparado; vivi mais do que me resta viver e não tenho medo”, disse-me Noel Márquez, deputado chavista afro-venezuelano de San Agustín. A Operação Resolução Absoluta terminou sem resposta venezuelana em 3 de janeiro, mas uma ocupação militar “acabaria sendo um banho de sangue”, afirmou-me Eduardo Gamarra, da Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

As ameaças de Trump e a passagem do porta-aviões Iwo Jima pelo Caribe podem ser suficientes para intimidar Delcy Rodríguez e o chavismo. Mas a diplomacia das canhoneiras só funcionou porque os EUA ocasionalmente realizavam invasões de fato, com fuzileiros navais desembarcando para colocar as botas nas praias de Veracruz a Puerto Cortés. Segundo Greg Grandin, entre 1889 e 1897 houve 5.800 incidentes em que navios de guerra chegaram a portos latino-americanos, mas também houve mais de 300 invasões com "tropas em terra".

Naquela época, os Estados Unidos eram verdadeiramente grandes e dispostos a ocupar seu próprio quintal. Agora, Trump pode bombardear à distância e sequestrar presidentes para subjugar a Venezuela. Mas, se ele não estiver disposto a invadir e ocupar, a resistência de Delcy Rodríguez pode terminar no caos que se seguiria caso decidissem lançar um segundo ataque militar para matá-la e aos líderes chavistas. E o caos é justamente o que empresas petrolíferas como a Chevron, que já produz na Venezuela, querem evitar. Rodríguez provavelmente já está calculando até onde o blefe de Trump e Rubio irá levá-la.

Há outro motivo para não se desesperar diante da ditadura de Donroe (dada a natureza improvisada de Trump, proponho chamá-la de doutrina "Não sei" [don't know]). O presidente aprecia demonstrações pomposas de poder e narcisismo militar. Mas, até o momento, a maior parte da nova doutrina não passa de retórica. Mesmo no Panamá, a promessa de Trump, feita em abril passado, de retomar o controle americano do Canal não foi cumprida.

Nem a retórica nem as ameaças podem subjugar a América Latina. Mas podem mobilizar muitas pessoas indignadas que tendem a apoiar políticos nacionalistas da esquerda latino-americana. Gustavo Petro está subindo nas pesquisas de popularidade, e seu candidato para as eleições presidenciais de 2026, Iván Cepeda, é o favorito.

“Delcy vai unir o povo em torno da indignação com a grosseria de Trump”, disse-me o cientista político venezuelano Andrés Pierantoni há três semanas, quando jantamos no restaurante El Limón, ao lado do Parque Central de Caracas. Como costuma acontecer, a conversa durou cinco horas e foi pontuada por alusões perspicazes à história de rebeliões e revoluções contra o colonialismo e o imperialismo europeu e estadunidense ao longo da história do país de Simón Bolívar.

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