Colômbia. Iván Cepeda consolida sua posição como a principal força da esquerda após a queda de Roy Barreras

Foto: Wikimedia Commons

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09 Março 2026

O candidato do Pacto Histórico de Petro, fora das primárias da Frente pela Vida, supera o desafio lançado pelo ex-congressista.

A reportagem é de Santiago Torrado, publicada por El País, 09-03-2026.

O Pacto Histórico terá a maior bancada no próximo Senado, e seu candidato à presidência, Iván Cepeda, consolida sua posição como a figura incontestável da esquerda na Colômbia. O senador foi um dos grandes vencedores das eleições de domingo, apesar de não constar na cédula. Roy Barreras, o outro candidato alinhado ao governo de Gustavo Petro, que tentava desafiá-lo por uma vaga dentro do movimento progressista, sofreu uma derrota esmagadora, obtendo menos de 300 mil votos nas primárias da Frente pela Vida, onde superou Daniel Quintero.

“Vamos reafirmar nas urnas que somos a principal força política do país”, proclamou Cepeda, o favorito nas pesquisas para o primeiro turno em 31 de maio, ao votar em uma escola no bairro Kennedy, na zona sul de Bogotá. O Pacto, agora um partido unificado, confirmou as previsões e manteve sua posição como a principal força no Senado — e uma das principais forças na Câmara dos Deputados. Essa votação já supera em muito os 2,9 milhões de votos obtidos em 2022, quando surgiu no Congresso com o apoio de Petro e Francia Márquez nas primárias para seu candidato à presidência. “A verdadeira eleição hoje é no Congresso, e ela se mede em cadeiras”, afirmou o próprio presidente à emissora X, seu veículo de comunicação preferido.

A contagem preliminar do Registro Nacional mostra o Pacto como a força dominante na esquerda. Com 93% das urnas apuradas, o partido obteve 22% dos votos para o Senado, 4,1 milhões, enquanto as listas dissidentes ficaram abaixo de 3%, o limite necessário para conquistar cadeiras no legislativo. Barreras e sua lista de coalizão, a Frente Unitária Ampla, mal chegaram a 1,9%. A outra esquerda alternativa, liderada pelo ex-prefeito de Santa Marta e candidato à presidência Carlos Caicedo, também não conseguiu atingir o tão desejado limite. A aliança entre a Força Cidadã e o Comunes, partido que surgiu do acordo de paz com as extintas guerrilhas das FARC, manteve-se em 0,6%. Além desses partidos, outras figuras da esquerda críticas a Petro, concorrendo em coligações de centro, também não alcançaram seus objetivos.

Nem o ex-prefeito de Bogotá, Lucho Garzón, líder da lista Aliança Verde, nem o ex-senador Jorge Enrique Robledo, do partido Dignidade e Compromisso, alcançaram seu objetivo de chegar ao Senado. A deputada Jennifer Pedraza, também do Dignidade e Compromisso, foi uma exceção, pois ainda estava em disputa pela sua vaga.

Na corrida presidencial, o senador Cepeda (Bogotá, 63 anos) há muito tempo é o favorito. Ele é o candidato da esquerda mais tradicional e lidera as pesquisas para o primeiro turno desde sua vitória decisiva em outubro em outra consulta popular, o Pacto Histórico, com 1,5 milhão de votos (2,7 milhões no total). Isso representa mais de um milhão de votos a mais do que Barreras (253 mil) ou Quintero (225 mil) receberam no último domingo. Sua promessa de continuidade, de aprofundar as reformas de Petro em um segundo governo progressista, tem sido inabalável. No entanto, observadores frequentemente alertam que, para se manter no poder, a esquerda também precisa de mais eleitores centristas e liberais. Essa foi a carta que Barreras jogou.

Com Cepeda como favorito, o vento parece soprar a favor da esquerda em várias frentes. A popularidade de Petro aumentou e o Pacto Histórico garantiu o maior bloco no Senado durante as eleições legislativas. No entanto, o caminho originalmente traçado pelo bloco progressista — que envolvia a construção de pontes com outros setores — tem sido repleto de obstáculos. O mais evidente ocorreu quando o Conselho Nacional Eleitoral decidiu, em 5 de fevereiro, impedir Cepeda de participar da Frente pela Vida, inviabilizando a convergência de toda a centro-esquerda naquela segunda primária — inicialmente promovida como uma Frente Ampla, nos moldes da do Uruguai.

Com seu próprio partido e listas de candidatos, Barreras argumentou repetidamente que não era sensato deixar o campo aberto para as primárias da direita, nas quais a senadora Paloma Valencia, candidata do Centro Democrático, venceu com mais de três milhões de votos. Sua insistência em manter a Frente pela Vida ativa, contra todas as expectativas, mesmo sem Cepeda na cédula, não foi bem recebida pela esquerda mais radical. O ex-senador era visto como um concorrente inconveniente, capaz de mobilizar máquinas políticas e ameaçar a liderança de Cepeda. Neste domingo, após tomar conhecimento dos resultados, Barreras reafirmou sua opinião de que o abandono do processo de primárias internas por Petro foi "um erro estratégico". "Isso significou deixar o campo aberto para a direita, que o aproveitou", lamentou, acusando o presidente de "sabotar" a Frente pela Vida. No entanto, ele não recuou. "A campanha começa amanhã, isso foi apenas um aquecimento", disse, posicionando-se mais uma vez como um antídoto ao extremismo.

Em sua disputa de poder com Cepeda, Roy angariou aliados importantes, como a vice-presidente Francia Márquez, alguns sindicatos e o controverso assessor catalão Xavier Vendrell, aliado próximo de Petro desde sua época como prefeito de Bogotá, entre 2012 e 2015. Ele também se distanciou da proposta de convocação de uma Assembleia Constituinte, ao contrário de Cepeda. Além disso, criticou a abordagem de "paz total", que visava negociar simultaneamente com todos os grupos armados e produziu poucos resultados. Essa é uma das fragilidades de Cepeda, considerado o arquiteto da desgastada política de paz deste governo.

“Camaradas, não se enganem. A união é a vitória”, respondeu Roy à enxurrada de críticas da esquerda, que se uniu em apoio ao seu concorrente. O ex-embaixador afirmou repetidamente ser um dos fundadores do Pacto, quando este ainda era uma coalizão diversa e não um partido unificado. Ele também insinuou ter o apoio de Petro, embora o presidente não tenha votado nas primárias. “Não semeiem feridas que serão difíceis de cicatrizar depois”, alertou em suas mensagens. Nada disso foi suficiente para alcançar seu objetivo declarado de ultrapassar os 1,5 milhão de votos de Cepeda.

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