Pensador francês, que morreu em maio aos 104 anos, questionou paradigmas científicos em sua passagem pela Unicamp em 1988.
Edgar Morin, o físico brasileiro Rogério Cerqueira Leite e o então reitor da Unicamp, Paulo Renato Souza, compõem mesa do evento “Brasil Século XXI”, na Unicamp, em 1988. Foto: Jornal da Unicamp
A reportagem é publicada pelo Jornal da Unicamp, Edição 745, 22 de junho a 05 de julho de 2026.
Se uma palavra for capaz de resumir o mundo no fim da década de 1980, sobretudo no Brasil, “crise” seria uma escolha acertada. No cenário externo, o bloco soviético entrava em colapso, o que culminaria na queda do Muro de Berlim, em 1989, e na reconfiguração da geopolítica global. No Brasil, projetos nacionais tomavam forma durante a Assembleia Nacional Constituinte. Os brasileiros ansiavam pela consolidação da democracia, enquanto a hiperinflação dificultava os planos para o futuro.
Foi nesse contexto que um dos maiores pensadores do século 20 esteve presente na Unicamp, nos dias 5 e 6 de julho de 1988, para discutir as perspectivas sociais, políticas e científicas para o século 21 que batia à porta. Formulador do chamado “pensamento complexo”, Edgar Morin defendeu, à época, que a reorganização das forças sociais no advento da Nova Ordem Mundial deveria ir além do protagonismo humano, integrando as relações com o meio ambiente em uma dinâmica ainda mais complexa.
Sobre os paradigmas da ciência, Morin foi categórico: “O conhecimento científico não é, como acreditaram singelamente os cientistas durante muito tempo, um reflexo da realidade ou o reflexo das leis escondidas da realidade aparente. O conhecimento científico é uma reconstrução, pelo espírito humano, das estruturas, das leis, ou dos princípios que governam a realidade”, afirmou o pensador, criticando a compartimentação dos conhecimentos e defendendo que o simbólico, o lúdico, o humano e até mesmo o improvável fossem reconhecidos e valorizados como partes do fazer científico.
Morin morreu em 29 de maio de 2026 em Paris, aos 104 anos. Em memória à sua vida e ao seu legado intelectual, o Jornal da Unicamp recupera a história de sua passagem pela Universidade, durante o ciclo de seminários “Brasil Século XXI”, que foi promovido entre julho de 1988 e abril de 1989. Também conversa com especialistas na obra do intelectual francês que tiveram contato próximo com ele, para refletir sobre os impactos e a atualidade de suas ideias.
O ciclo de seminários “Brasil Século XXI” foi uma iniciativa da Unicamp para debater as tendências e os rumos da realidade brasileira na virada do século. O evento foi idealizado pelo reitor da época, Paulo Renato Souza, que depois viria a ocupar o cargo de ministro da Educação entre 1995 e 2002, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Divididos em cinco módulos, os seminários reuniram grandes nomes da intelectualidade, tais como Antonio Candido, Celso Furtado, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Barbara Stallings, Alain Touraine e Alexander Zinoviev, o que rendeu ao projeto o prêmio de melhor evento de 1988 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
“Esse ciclo de conferências inscreveu a Unicamp em um cenário de reflexão, de pensamento e de avaliação de propostas relativas a um futuro que ainda não tinha nascido, como dizia o próprio Edgar Morin, mas que fazia parte de um mundo prestes a morrer”, lembra o linguista Carlos Vogt, reitor da Unicamp entre 1990 e 1994 e coordenador-geral da Universidade durante a gestão de Paulo Renato Souza.
“Foi uma iniciativa visionária do professor Paulo Renato. Participamos entusiasmados de sua organização e dos seminários e acompanhamos as repercussões que eles tiveram na vida intelectual, social, política e econômica do país”, recorda-se Vogt, explicando que a atuação da Unicamp naquele período da história não se limitou à produção de análises no âmbito acadêmico, mas também envolveu a participação na formulação de políticas públicas, como a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), e na promulgação do decreto que conferiu autonomia administrativa e financeira às universidades estaduais de São Paulo.
No dia 5 de julho de 1988, o intelectual francês fez sua primeira participação no evento da Unicamp, como debatedor no seminário “Capitalismo e Socialismo Hoje”, que teve como conferencistas o matemático russo Alexander Zinoviev e o cientista político polonês Adam Przeworski. “Foi uma mesa muito interessante por ter havido um forte debate entre Morin, [o sociólogo italiano Alessandro] Pizzorno e [o sociólogo francês Alain] Touraine, sobretudo entre Morin e Touraine. Ambos acabaram convergindo para a ideia de que, enfim, o século 20 estava se encerrando, o que caracterizava o fim de grandes narrativas como referências para a organização do mundo”, analisa o ex-reitor.
Os aspectos centrais do pensamento de Morin apareceram na conferência realizada no dia 6 de julho daquele ano, durante o seminário “Novos Paradigmas da Ciência”, ocasião na qual o intelectual argumentou na direção de desconstruir os paradigmas científicos clássicos e a hiperespecialização dos saberes. Nesse percurso, ele sustentou duas críticas. A primeira foi sobre a crença em uma neutralidade científica, que termina por hierarquizar as ciências e colocar aquelas que seriam menos permeadas por questões humanísticas no topo da escala, subordinando a elas as humanas e sociais.
“Todas as ciências, até as mais físicas, são sempre sociais, pois são produzidas na história pela sociedade”, afirmou Morin na ocasião, refutando a ideia de que os riscos envolvidos na produção de conhecimento existem apenas quando apropriados para uso político, ao que afirmou: “A ciência pensa, mas pensa pouco em si mesma”.
A segunda crítica, que derivou desse primeiro pensamento, foi sobre a redução dos objetos de estudo a fenômenos físicos, o que permite a compartimentação e a hiperespecialização. “Não estudamos a vida em nossos laboratórios. Estudamos genes e moléculas”, apontou. Morin criticou a ilusão de que essas operações bastam para que se tenha a compreensão dos fenômenos humanos, quando é preciso encarar a desordem e a aleatoriedade como etapas importantes da produção do conhecimento. “Encontros aleatórios deram origem aos primeiros núcleos dos átomos, o que por sua vez possibilitou a formação das primeiras moléculas que deram origem à vida”, exemplificou.
Assim, o filósofo defendeu não apenas o fim de uma “ilusão da onisciência”, mas também que fosse possível interpretar o conhecimento a respeito dos limites do fazer científico como um processo envolvido na própria construção do saber – o que deve contemplar esferas simbólicas e emocionais do ser humano.
“Morin propôs uma revolução epistemológica”, avalia Vogt, ao recordar a conferência que arrancou aplausos efusivos da plateia. “Tudo isso leva a um elogio à cultura humanista, um dos pontos importantes de seus trabalhos publicados ao longo da vida.” Assista abaixo os seminários com participação do pensador francês na Universidade.
Edgar Nahoum nasceu em 1921, em Paris. Filho de judeus sefarditas, ele estudou direito, história e geografia. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a ocupação da França pelos nazistas, aderiu ao Partido Comunista Francês e integrou as forças da Resistência francesa, período em que adotou o codinome Morin, que o acompanharia por toda a vida. O pós-guerra na Europa descortinou uma realidade multifacetada para o filósofo, algo que seria decisivo para suas formulações teóricas. No campo ideológico, afastou-se do Partido Comunista ao divergir do stalinismo soviético. Na política interna, posicionou-se a favor da luta anticolonial na guerra de independência da Argélia.
Tudo isso servia de base para suas reflexões iniciais a respeito da complexidade dos fenômenos sociais e históricos, feitas no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), do qual seria um dos diretores e, posteriormente, pesquisador emérito. Já na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), uma das mais prestigiadas da França, fundou o Centro de Estudos em Comunicação de Massa, ao lado de Georges Friedmann e Roland Barthes. Além de suas passagens pelas instituições francesas, Morin atuou no Instituto Salk de pesquisas biológicas, nos Estados Unidos, onde teve contato com pesquisas e com a epistemologia de outras vertentes de estudos, sobretudo os que dariam origem à teoria da informação e à cibernética.
“Eu o conheci em 1973, época em que eu era professor na Universidade de Grenoble, onde organizava conferências públicas com intelectuais cuja obra eu apreciava, como Jean Baudrillard e o próprio Morin”, lembra o sociólogo francês Michel Maffesoli, que compartilhou com o Jornal da Unicamp suas memórias envolvendo Morin. Ele recorda que a França, após os protestos de maio de 1968, viveu um período de grande efervescência intelectual, quando fenômenos cotidianos alimentavam reflexões feitas por nomes que se tornariam grandes referências. “Além de Baudrillard, com quem mantínhamos uma relação muito próxima, havia Michel Foucault, que eu encontrava com frequência, Claude Lévi-Strauss, Gilles Deleuze e muitos outros.”
Foi no contato com múltiplas realidades que Morin formulou sua ideia de complexidade, uma chave de leitura que admite a realidade como um conjunto de fenômenos interligados e multidimensionais, contrapondo-se ao paradigma clássico que busca compreendê-los em partes isoladas. “O pensamento complexo é um modo muito atual de interpretar a realidade, porque ainda que os fenômenos sejam separados para estudo, permite que eles voltem ao seu contexto maior para que façam sentido”, explica Izabel Petraglia, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Centro de Estudos e Pesquisas Edgar Morin, uma instituição independente que oferece formação para professores e interessados no tema.
As reflexões em torno do pensamento complexo foram sistematizadas em O método, uma coleção de seis volumes publicados entre 1977 e 2004, em que Morin integra diferentes matrizes do conhecimento, das bases fisiológicas dos seres vivos à cultura humana. Neles, o intelectual defende que o pensamento segue um princípio dialógico e recursivo, ou seja, cada parte compõe um grande fenômeno; por sua vez, esse fenômeno dá origem a novas partes, que podem ser descritas. Esta relação é o motor que gera o conhecimento. “Vejo Morin como um otimista, porque ele valoriza a desordem como um princípio de reconstrução do conhecimento, em um processo contínuo”, diz Petraglia.
No Brasil, o pensamento de Morin ganhou repercussão expressiva no campo da educação após a publicação, em 1999, de Os sete saberes necessários à educação do futuro, obra elaborada a pedido da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para delinear princípios que podem contribuir com a educação global. Eles passam por admitir os limites existentes no conhecimento científico, pelo ensino de forma contextualizada e integrada aos demais saberes, pela noção de que todos compartilham o mesmo planeta e a mesma condição humana, pela compreensão e pela ética. “A educação é uma matriz fundamental para pensarmos o mundo. Ela tem a responsabilidade de ensinar se o veremos de forma fragmentada ou integrada”, reflete Luis Carrizo, professor da Universidade Centro Latino-Americano de Economia Humana, no Uruguai, e coordenador da Cátedra Unesco Transformações Sociais e Condição Humana, dedicada a estudos interdisciplinares a partir da perspectiva da complexidade.
Entretanto, seguindo os preceitos do próprio autor, os reflexos de seu pensamento não se restringem à educação. “Trata-se de uma obra estratégica para a civilização, porque o mundo depende de como podemos formar nossas crianças, jovens e adultos não só na sala de aula”, aponta Carrizo. Na Unicamp, os reflexos dessa perspectiva estão presentes no incentivo à inter e à transdisciplinaridade. Vogt menciona o exemplo do sistema de centros e núcleos de pesquisa da Universidade. “As questões da multidisciplinaridade são elementos fundamentais na visão de Morin sobre o conhecimento e a ciência”, afirma o ex-reitor.
Questionados a respeito dos aspectos que consideram memoráveis do legado de Morin, os entrevistados foram unânimes: sua sensibilidade e seu cuidado com os aspectos humanos presentes na construção do conhecimento. Frente a uma realidade cada vez mais incerta, Morin lembra o papel da esperança. “Ele menciona que sempre existe uma possibilidade de reversão, mesmo para os ganhos e as conquistas históricas. Portanto, há a necessidade de sermos vigilantes”, destaca Petraglia. Para alguém que viveu dos horrores da guerra às luzes do conhecimento, valorizar o que nos torna humanos foi um imperativo. “Ao contrário da estreiteza de espírito dos sociólogos acadêmicos, confinados a uma disciplina limitada, ele era um espírito livre”, recorda Maffesoli. “No sentido mais forte do termo, foi um verdadeiro humanista.”