Sinodalidade, pessoas LGBTQIA+ e o sonho de uma Igreja que escuta

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13 Junho 2026

"Porque a esperança não nasce quando tudo está resolvido, mas quando alguém diz: 'Senta-te à mesa, quero escutar-te.' Se hoje, em Portugal, ousarmos dar passos, talvez amanhã possamos dizer que sinodalidade não foi uma palavra linda, mas um novo modo de amar."

O artigo é de Ana Carvalho, publicado por 7Margens, 12-10-2026.

Ana Carvalho participa no grupo de trabalho da Igreja Católica do Fórum Europeu de Grupos LGBTI+, foi promotora e dinamizadora do Centro Arco-íris e fundadora do Movimento Sopro e membro honorário da CaDiv – Caminhar na Diversidade. Dinamizou oficinas de trabalho sobre a experiência de acolhimento e de reflexão dos textos bíblicos a partir da experiência LGBTQI+.

Eis o artigo.

O grupo de trabalho da Igreja Católica Romana do Fórum Europeu de Grupos LGBTI+ Cristãos desenvolveu o Synodal Project, dedicando-se ao acompanhamento dos trabalhos sinodais nos grupos e comunidades LGBTQI+, escutando as pessoas LGBTQI+ crentes, promovendo debates e encontros com membros, madres e padres sinodais durante as várias etapas do Sínodo sobre a Sinodalidade, iniciado pelo Papa Francisco. Todas estas etapas tiveram desafios, que, conjuntamente com a publicação de outros documentos — Fiducia supplicans, em dezembro de 2023; Risposte del Dicastero a S.E. Mons. Negri, em dezembro de 2023; Dignitas infinita, em abril de 2024 —, foram acrescentando novidades e trazendo mais temas a debate.

Quando, em outubro de 2024, tivemos acesso, com a assinatura de Francisco, ao Documento Final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, a expectativa era grande. Muitas vezes o futuro concretiza-se nas pequenas palavras. Numa primeira leitura houve alguma desilusão, mas ali já havia sinais importantes: insistência na sinodalidade como "modo de ser Igreja", atenção à inclusão das periferias e perguntas abertas sobre o acompanhamento das pessoas que vivem realidades afetivas diferentes da doutrina atual. Este documento também veio acompanhado da nota: "determinadas questões que emergiram devem ser aprofundadas em grupos de estudo temáticos". Foi a partir dessa nota que nasceu o Grupo 9, cujo relatório recebemos em 5 de maio de 2026.

Este grupo de trabalho ficou encarregado de algo extremamente delicado: "estudar critérios e metodologias para o discernimento sobre questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes". E assim o fez! Quando li, disse: "isto é sinodalidade!" — desde a alteração da palavra "emergente" (toda a vivência das pessoas LGBTQI+ na Igreja pode ser muita coisa, mas emergente não é), à clareza da explicação do que é a sinodalidade.

Neste documento, estão explanados os limites da doutrina e evidenciado o princípio da pastoralidade. Assim, e no que diz respeito à doutrina, em particular ao processo dinâmico que é a Tradição, lê-se: "contra a tentação de uma ossificação estéril e regressiva de princípios e declarações, de normas e regras, independentemente da experiência dos indivíduos e das comunidades" ou ainda a "denunciar a ilusão de um pensamento que pretende exercer-se a priori, sem reconhecer a sua dívida radical para com as condições reais, os processos culturais e o concreto da experiência." Em termos pastorais afirma-se que "não há proclamação do Evangelho sem assumir a responsabilidade pelo interlocutor, no qual a proclamação já está misteriosamente a atuar".

Em resumo, este documento dá primazia à experiência e à ação prática; fala em "sinodalidade" abordando "questões controversas" com "coragem e parrésia"; escuta, dando voz a experiências na primeira pessoa — especialmente das pessoas marginalizadas; tem presente a "conversa no Espírito"; identifica resistências internas; apresenta práticas já em ação; reúne várias áreas de conhecimento. Foca o princípio da pastoralidade — não resolve nenhum problema mas centra-se na "construção do bem comum" e em "permanecer com a dificuldade".

Este grupo de trabalho entregou o que lhe foi pedido: um método. Um caminho para a Igreja enfrentar temas sensíveis sem perder a fidelidade ao Evangelho, mas também sem bloquear a escuta do Povo de Deus.

Não-violência ativa pode guiar debates internos

Neste relatório também foi dada visibilidade à não-violência ativa, inspirada em movimentos cristãos nos Balcãs. Como é que os testemunhos nele presentes se "casam"? Há uma ponte: como lidar com conflitos profundos sem quebrar a comunhão entre os batizados, mas também não sermos internamente dilacerados? No relatório, percebe-se que a não-violência é um princípio que pode guiar debates internos: não reagir com ataques, mas criar espaços de diálogo paciente, assim como participar em iniciativas comunitárias onde nos podemos fortalecer e enriquecer mutuamente — encontros nacionais, ibéricos, europeus ou mesmo mundiais.

Tendo agora este relatório preliminar nas nossas mãos, não precisamos de ficar à espera do documento conclusivo ou da grande Assembleia Eclesial para avaliar o impacto real e a concretização destas reformas nas dioceses de todo o mundo em 2028. Podemos inspirar-nos nele e iniciar um caminho concreto junto das nossas paróquias e dioceses:

Dinamizando conversas no Espírito sobre a realidade LGBTQI+: momentos paroquiais que escutem testemunhos sem pressão para "resolver" nada, mas com oração e discernimento. Formação básica para agentes pastorais: catequistas, famílias, agentes pastorais, padres e pessoas consagradas precisam de instrumentos para saber acolher (inspirado na Amoris Laetitia e nos textos sinodais). Uma rede nacional de escuta e acompanhamento: hoje, muitas pessoas LGBTQI+ procuram ajuda e encontram portas fechadas; precisamos de espaços eclesiais seguros, com acompanhamento espiritual, sem juízos sumários. Aplicar a pedagogia da não-violência: recusar o discurso agressivo (de qualquer lado) e trabalhar na escuta mútua, mesmo quando doer.

De outubro de 2024 a junho de 2026, percorremos um caminho que muitos julgavam impensável. Não há conclusões definitivas sobre ética sexual no magistério — e talvez não as haja tão cedo. Mas já há uma mudança real: a Igreja não fecha a porta ao diálogo com as suas filhas e filhos. Como católica que acompanha de perto a realidade LGBTQI+, isto enche-me de esperança. Porque a esperança não nasce quando tudo está resolvido, mas quando alguém diz: "Senta-te à mesa, quero escutar-te." Se hoje, em Portugal, ousarmos dar passos, talvez amanhã possamos dizer que sinodalidade não foi uma palavra linda, mas um novo modo de amar.

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