“Amoris laetitia” dez anos depois. Artigo de Antonio Autiero

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • “Permitir a instalação de um empreendimento com essa magnitude de demanda sem uma avaliação climática rigorosa significa aprofundar a vulnerabilidade territorial já existente”, afirma a advogada popular

    Data centers no RS e as consequências de sua implementação. Entrevista especial com Marina Dermmam

    LER MAIS
  • Inteligência Artificial e o empobrecimento da Igreja como centro de dados. Artigo de Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • Companhias aéreas europeias começam a cortar voos devido à guerra no Irã: Lufthansa anuncia 20 mil cancelamentos

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Abril 2026

Dez anos após a publicação da Exortação Apostólica sobre o amor na família Amoris Laetitia, o professor Antonio Autiero nos guia numa releitura do percurso que a Igreja tem feito desde então até hoje, revisitando — a partir das realidades que o mundo nos apresenta em termos de afeto, relações familiares e identidade — alguns desafios para o horizonte ainda por atravessar.

O artigo é de Antonio Autiero, professor emérito de Teologia Moral da Universidade de Münster, na Alemanha, publicado por Settiamana News, 21-04-2026. 

Eis o artigo. 

O significado dos aniversários geralmente abrange muitos níveis. Está intrinsecamente ligado à lembrança e à memória, tornando presente o significado de um texto, um evento ou uma pessoa no contexto em que surgiu. Mas também levanta questões sobre o presente, reiterando a pergunta sobre o que ele ainda pode significar para nós. Por último, um aniversário projeta-nos para o futuro, para compreendermos, numa perspectiva prospectiva, a validade de uma lição, de um aviso, de uma urgência. Tudo isso exige pensamento crítico e uma mente aberta, para abordar a história como alguém que não fecha os olhos às questões que tocam a vida e nossa capacidade de compreendê-la. Para a Amoris Laetitia (doravante AL), essa complexa teia de camadas é totalmente evidente. Celebrar seu décimo aniversário significa não se esquivar do desafio desse entrelaçamento.

A história e a vida questionam a todos

Há dez anos, em 19 de março, o documento do Papa Francisco apresentou aos católicos uma visão do matrimônio e da família, desenvolvida por meio de um longo processo de reflexão, discussão e discernimento. Isso ocorreu durante as duas sessões do Sínodo sobre a Família, realizadas em 2014 e 2015, com a participação de membros eleitos e representantes. Incluiu também a ampla participação do povo cristão, chamado pela primeira vez a expressar suas opiniões em caráter consultivo sobre as condições de vida da família e as experiências reais da vida matrimonial.

Talvez tenha sido precisamente nesse contexto sinodal complexo que a natureza participativa de todo o povo de Deus emergiu claramente, na forma de um sujeito responsável, envolvido tanto na análise das condições de vida em família quanto nas perspectivas de mudança que se tornaram necessárias.

O desafio da experiência e a perspectiva sobre ela foram acolhidos como um momento crucial no desenvolvimento de um quadro que abrange doutrina e prática de vida, ensino e atitude pastoral. A sensibilidade necessária para dar sentido e substância a este processo sinodal se materializou numa sensibilidade particular, na advertência reunida na AL, quando se afirma: "Devem-se evitar os juízos que não levam em conta a complexidade das diferentes situações, e é preciso estar atento ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição" (n. 79).

Os dez anos que nos separam da publicação da Exortação Apostólica do Papa Francisco devem ter trazido maior consciência a esta característica participativa de todo o Povo de Deus. É precisamente o Povo de Deus, na sua totalidade e com base na graça batismal, que é investido do dom e da tarefa de apreender os sinais dos tempos, de os ler no horizonte da visão da fé e em referência à experiência de vida, de compreender os desafios do presente e de abrir a experiência das relações matrimoniais e da vida familiar ao crescimento na autenticidade e na verdade.

A AL inaugura uma nova abordagem para a relação entre doutrina e prática pastoral, que contrapõe uma visão tradicional, estática e dedutiva da prática a partir da doutrina, como se esta não fosse constantemente influenciada pela consciência e pelas necessidades urgentes que emergem da experiência. Essa compreensão dinâmica da doutrina compromete todo o povo de Deus a adquirir a capacidade de reconhecer situações em evolução e a refinar suas perspectivas de discernimento por meio da escuta sincera daquela "verdade de vida" que o próprio dom da Encarnação torna acessível e transforma em questionamento e energia transformadora.

Olhando para trás, para os últimos dez anos

Em sua mensagem por ocasião do décimo aniversário da AL, o Papa Leão XIV reconhece "o impulso dado ao estudo e à conversão pastoral da Igreja" e nos encoraja a "continuar a caminhada, acolhendo sempre o Evangelho de novo, na alegria de poder proclamá-lo a todos". Essas palavras nos colocam diante de uma dupla tarefa.

Trata-se, antes de mais nada, de compreender, analisar e avaliar o progresso alcançado após e à luz da Exortação Apostólica de 2016, tanto em termos de cultura teológica quanto de consciência pastoral, e também pelas suas consequências para a inovação institucional dentro das comunidades cristãs, das organizações diocesanas e das estruturas eclesiais centrais.

Não faltam análises quantitativas e qualitativas sobre este tema que nos ajudam a compreender o caráter inovador da AL. Mas essas análises também revelam retrocessos e tentativas de reduzir a AL a um simples e genérico apelo a uma maior sensibilidade pastoral e acolhida para com as pessoas afetadas pela fragilidade das situações familiares disfuncionais. Sem apreender o poder profético da AL, sem perceber esse ponto de não retorno no que diz respeito à visão encarnada do matrimônio e da família, sem valorizar o registro de responsabilidade e a aproximação à consciência dos indivíduos e dos casais, corremos o risco de confinar a AL a uma aura de importância superficial para a vida das pessoas e para a experiência de Igreja que ela, na verdade, visa nutrir e amadurecer.

Se o décimo aniversário nos ajudar a analisar de forma responsável esses balanços positivos, negativos ou neutros, já terá tido um efeito construtivo e encorajador.

O que o futuro nos reserva?

Uma retrospectiva permite-nos ler a AL em profundidade, revelando os seus pontos fortes e apreciando o seu valor. Mas também nutre a nossa consciência crítica, confrontando-nos com fatores e desafios que talvez mereçam maior destaque. Gostaríamos de nos referir, de forma quase exemplar e emblemática, a duas áreas que tocam as histórias de vida das pessoas e as suas relações conjugais.

Em primeiro lugar, é chocante que a cultura da masculinidade esteja cada vez mais impregnada por esse véu de toxicidade e degradação que frequentemente resulta em violência, destruição e morte. Com inegável coragem, a AL observa que "costumes inaceitáveis ainda não foram completamente erradicados. Em primeiro lugar, a violência vergonhosa que às vezes é infligida às mulheres, o abuso doméstico e várias formas de escravidão que não são uma demonstração de força masculina, mas sim uma degradação covarde…", reconhecendo que "a história segue os passos dos excessos das culturas patriarcais" e denunciando que "há quem afirme que muitos dos problemas atuais surgiram desde a emancipação das mulheres. Mas esse argumento é inválido, é falso, é inverídico. É uma forma de machismo" (n. 54).

A clareza dessas expressões torna não apenas possível e legítimo, mas também necessário e urgente, levantar a questão da masculinidade, questionando as imagens e os modelos que mais permeiam e moldam nossa cultura contemporânea. A AL, e ainda mais explicitamente o ensinamento subsequente do Papa Francisco, apresentaram a figura de São José como exemplo de masculinidade não violenta, não intrusiva, mas carinhosa e solidária. A data de promulgação da AL, 19 de março, e a subsequente Carta Apostólica Patris Corde, de 8 de dezembro de 2020, são sinais claros nessa direção.

No entanto, é necessário prosseguir neste caminho, aprofundando o conhecimento teórico e cultural, desenvolvendo os marcos legais e legislativos, estabilizando as abordagens socioinstitucionais e as práticas pastorais e eclesiais.

Superar a cultura patriarcal e as formas tóxicas de masculinidade destrutiva exige uma valorização consciente das abordagens de gênero, claramente contrária às atitudes de desprezo e depreciação daquilo que é trivializado de forma precipitada e irresponsável como "ideologia de gênero". A referência de AL a esse tema no nº 56 sofre dessa mesma perspectiva restritiva e resistente, exigindo uma elaboração mais madura e bem calibrada. Repensar a masculinidade não apenas liberta os homens dos grilhões opressivos da arrogância, mas também infunde nas dinâmicas conjugais e familiares recursos geradores para o sucesso.

Uma segunda área aborda o registro central da AL, expresso na tríade que dá título ao capítulo VIII: Acompanhar, discernir, integrar fragilidades.

O tema do acompanhamento (o termo aparece 21 vezes em AL!) entrou no vocabulário da ação eclesial e da prática pastoral com ainda mais força. Não se trata de um acréscimo a métodos burocráticos, mas sim de uma investigação profunda das relações interpessoais, acolhendo a sua fragilidade e possibilitando o desenvolvimento de estratégias para evitar sucumbir ao peso das feridas e das derrotas.

A AL inaugura um estilo de envolvimento pastoral com alta densidade antropológica e oferece orientação adequada para evitar cair em mecanismos paternalistas e dirigistas. Por essa razão, reconhece também a inevitabilidade, em circunstâncias particulares, do fim de relações conjugais e dinâmicas familiares irreparáveis.

Os parágrafos dedicados ao "Acompanhamento Após Separações e Divórcios" (AL n. 241-246) revelam um raro senso de realismo existencial e moral. Precisamente nesse sentido, caminhos devem ser explorados e aprofundados. O compromisso com o aprimoramento dos procedimentos para os processos de nulidade matrimonial canônica já é bastante importante, como indica a AL ao n. 244 e como diversas estruturas de tribunais eclesiásticos tendem a praticar de forma louvável.

No entanto, é necessário desenvolver a disposição para expressar empatia e proximidade, sensibilidade pastoral e apoio existencial à medida que os cônjuges tomam consciência de suas crises e começam a processá-las. Ser capaz de superar uma crise, restaurando a estabilidade da unidade familiar, é sem dúvida uma perspectiva desejável, mas a capacidade de terminar um relacionamento conjugal sem comprometer radicalmente o equilíbrio pessoal também é um valor a ser buscado.

Poder acompanhar as pessoas no caminho para fora de um casamento fracassado significa apontar para espaços ainda existentes de autoestima e para a possibilidade de reconstruir sua vida, mesmo antes e depois de iniciar novos relacionamentos afetivos.

O foco excessivo, por um lado, na questão da anulação matrimonial e, por outro, na possibilidade específica de acesso aos sacramentos para divorciados recasados, levou a uma redução do escopo das questões relacionadas a relacionamentos conjugais fracassados, provavelmente negligenciando a necessidade urgente de reconhecer e reconstruir os valores pessoais de cada cônjuge.

Na realidade, porém, mesmo nesta área, uma comunidade que realmente e sinceramente deseja acompanhar deve ser capaz de expressar sensibilidade pastoral e competência antropológica, respondendo assim à tarefa que a AL lhe atribui e sabendo que, ao fazê-lo, contribui, como nos lembrou o Papa Leão XIV, para "continuar o caminho, acolhendo sempre de novo o Evangelho, na alegria de poder anunciá-lo a todos".

Leia mais