26 Fevereiro 2026
"O debate sobre o que significa, concretamente, acompanhar pessoas homossexuais e trans para compreender 'a vontade de Deus em suas vidas' está longe de terminar. Significa tratar de suas escolhas éticas? Convidá-las a deixar de lado suas histórias como casais? Essas são questões que continuarão sendo debatidas por muito tempo", escreve Luciano Moia, coordenador editorial da revista Avvenire, em artigo publicado por Avvenire,13-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Na Igreja, "todos são convidados a entrar, mas não por serem expressão ou não de uma identidade específica. Convido uma pessoa porque é filho ou filha de Deus. Todos são bem-vindos, e podemos nos conhecer e nos respeitar mutuamente": essas são as palavras com que Leão XIV responde à pergunta de Elise Ann Allen sobre o tema das pessoas LGBT. Palavras presentes na entrevista publicada em espanhol em setembro e recentemente traduzida para o italiano no livro “Papa Leone XIV. La biografia” (Mondadori, 300 páginas, €22).
As afirmações de Prevost, como ele mesmo especifica, referem-se “ao que Francisco afirmou com muita clareza com aquele ‘Todos, todos, todos’”. As pessoas, acrescenta o Pontífice, “querem que a doutrina da Igreja mude e que as atitudes mudem: acredito que primeiro devemos mudar as atitudes, antes mesmo de pensar em modificar o que a Igreja ensina sobre um determinado assunto. Parece-me altamente improvável, pelo menos num futuro próximo, que a doutrina da Igreja mude seus ensinamentos sobre sexualidade e casamento”.
No entanto, Leão XIV observa ainda que “os indivíduos serão recebidos e acolhidos. Qualquer sacerdote ouvirá em confissão as pessoas de todos os tipos, com todas as formas de dificuldades, situações de vida e escolhas feitas”. Além disso, segundo o Papa, é preciso ter atenção para evitar o agravamento da polarização, precisamente porque o contexto ligado às pessoas LGBT é, enfatiza Prevost, “altamente polarizador”.
A partir dessas diretrizes (acolhimento a todos, independentemente da orientação sexual, afirmação da doutrina sobre sexualidade e casamento e cuidando para não alimentar a polarização) emerge o estilo que o Pontífice pede àqueles chamados a acompanhar os fiéis LGBT. Uma missão delicada e complexa, que exige preparação e formação. Nesse sentido, não faltam iniciativas e caminhos dentro da Igreja italiana e nas comunidades locais por toda a península, como demonstra o pequeno "mapa" apresentado nesta página, que faz um balanço da situação e destaca pontos fortes e críticos.
Além disso, até mesmo Leão XIV, na entrevista concedida a Elise Ann Allen, admite que esse desafio está muito presente em seu pensamento. (M.L.)
Cerca de trinta dioceses estão ativamente envolvidas, o mesmo número registra iniciativas pontuais, e 58 associações em nível nacional ou local. Há ainda cursos de formação, encontros e aprofundamentos teológicos impensáveis até poucos anos atrás.
A presença de cristãos LGBT na Igreja italiana forma um mapa distinto e em constante expansão. Isso é especialmente verdadeiro considerando seu recente começo, há apenas dez anos. Era, de fato, 19 de março de 2016 quando o Papa Francisco assinou a Amoris Laetitia, a Exortação Apostólica sobre o amor na família, fruto de dois Sínodos episcopais.
Pela primeira vez, a publicação exortava explicitamente a Igreja a acompanhar as pessoas homossexuais "para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus em suas vidas". Um convite atendido? O que mudou nesses dez anos na atenção e na conscientização das nossas comunidades?
É importante também considerar que, após a Amoris Laetitia, vieram os Instrumentos de Trabalho e o Relatório Final do Sínodo sobre a Juventude (2018), com um novo apelo para promover percursos de acompanhamento para as pessoas homossexuais, mas também para promover "uma elaboração antropológica, teológica e pastoral mais aprofundada" na área da afetividade e da sexualidade. Essas são indicações que a Igreja italiana acolheu e confirmou há poucos meses no documento de síntese do Caminho Sinodal.
Em suma, um desenvolvimento coerente que levou a Igreja a finalmente descobrir, de forma serena, superando os embaraços e as discriminações do passado, a existência de autênticas vivências de fé. “A partir da fase narrativa do Caminho Sinodal”, observa o Padre Pino Piva, jesuíta que exerce seu ministério no Centro de Espiritualidade Inaciana de Bolonha e também oferece acompanhamento espiritual a católicos LGBT e seus pais, “os bispos perceberam a importância das vivências que vinham à luz em todo o país, sem distinções geográficas ou sociais.
Mais significativo ainda é o fato de que o pedido de reconhecimento e acompanhamento foi expresso não apenas por pessoas ou grupos de cristãos LGBT, mas pelas comunidades cristãs, pelo povo de Deus; isso ficou claramente evidente nas sínteses diocesanas. Por essa razão, as propostas contidas no Documento Final receberam mais de três quartos do consenso da Assembleia Sinodal, até quase a unanimidade.”
Um estudo recente conduzido pela associação La Tenda di Gionata, a mesma que, em colaboração com outras associações, promoveu a peregrinação jubilar com pessoas homossexuais e transgêneros em setembro passado, delineou ainda melhor a presença de cristãos LGBT na Igreja italiana. Foram identificados 58 grupos, compostos por pessoas unidas não apenas por sua condição antropológica, mas também pela busca de uma fé autêntica e profunda. "Do ponto de vista sociológico", afirma o estudo, "o que emerge não é um grupo homogêneo, mas uma constelação de realidades locais, muitas vezes informais, que funcionam como espaços de reconhecimento, de apoio mútuo e de reelaboração do sentido."
Aproximadamente 81% dos grupos são compostos predominantemente por pessoas de tradição católica; 14% reúnem pessoas católicas e evangélicas; 5% originam-se em um contexto exclusivamente evangélico. "Essa distribuição", observam ainda os autores, "sinaliza uma mobilidade das afiliações e uma capacidade de transpor fronteiras confessionais que desafia modelos rígidos de identidade religiosa." Há grupos que acolhem cristãos LGBT juntamente com seus pais e outras pessoas de fé. Mas também há grupos formados exclusivamente por pais, mães e pais que pretendem acompanhar seus filhos na fé, mantendo um canal aberto de diálogo com a instituição eclesiástica, naquelas situações onde o confronto direto ainda é difícil ou repleto de conflitos. Em termos de distribuição geográfica, existem 35 grupos nas dioceses do norte da Itália, 11 nas do centro, 9 no sul e nas ilhas, um na Suíça de língua italiana e três presentes apenas de forma digital.
Como mencionado, o número de serviços pastorais diocesanos que se dedicam explicitamente a pessoas LGBT também está crescendo. Quantos são? “Esse número, graças aos agentes pastorais e bispos sensíveis às vozes dessas pessoas, deveria ser constantemente atualizado, mas”, continua o Padre Piva, “há um fato objetivo: em 2025, aproximadamente 30 dioceses italianas realizaram com algum caráter oficial vigílias de oração pelas vítimas de homofobia e transfobia. Esse provavelmente não é um critério suficiente para indicar uma verdadeira “atenção pastoral” às pessoas LGBT, mas certamente é significativo. Encontramos uma pastoral oficialmente reconhecida, ou uma atenção pastoral em processo de estruturação em nível diocesano, em muitas dioceses italianas, certamente naquelas que realizam as “vigílias”, mas também naquelas que, por ora, preferem aguardar uma maior conscientização na comunidade cristã antes de propor oficialmente essas celebrações.”
Porque, para além dos números, os problemas persistem. O debate sobre o que significa, concretamente, acompanhar pessoas homossexuais e trans para compreender “a vontade de Deus em suas vidas” está longe de terminar. Significa tratar de suas escolhas éticas? Convidá-las a deixar de lado suas histórias como casais? Essas são questões que continuarão sendo debatidas por muito tempo. “Acompanhar as pessoas homoafetivas e transgênero para que compreendam a ‘vontade de Deus em suas vidas’”, observa o especialista jesuíta, “significa, em primeiro lugar, reconhecer sua dignidade cristã como filhas e filhos de Deus, como todas as pessoas batizadas, levando em consideração também sua identidade sexual. Somente depois, a pastoral trata de suas ‘escolhas éticas’, segundo critérios úteis a todos os cristãos, garantindo que essas escolhas sejam realizadas de acordo com o correto juízo da própria consciência, como nos ensina o Catecismo (1776-1782)”.
Por fim, cabe considerar que esse âmbito está se tornando um interessante laboratório eclesial de corresponsabilidade pastoral e dinâmica sinodal. Um exemplo: em 13 de janeiro último, a Conferência Episcopal Siciliana se reuniu com os representantes dos cristãos LGBT da Sicília e seus pais.
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