Magnifica Humanitas: “um hino de sabedoria e de amor para um mundo de ‘podres poderes’ que se digladiam”. Entrevista especial com Lucia Santaella e Scott Hurd

Para os pesquisadores, primeira encíclica de Leão XIV analisa o presente com “realismo lúcido” e “sem agressividade desnecessária”

Foto: OSV News | Simone Risoluti | Vatican Media

Por: Patricia Fachin | 28 Mai 2026

Enquanto a hostilidade e a combatividade são a tônica em fóruns de discussão no ambiente digital, nos discursos políticos e nos conflitos entre os povos, a Magnifica Humanitas, primeira encíclica do Papa Leão XIV, “sem agressividade desnecessária”, apresenta uma leitura “aguda e sábia que coloca as coisas no lugar”, pontua Lucia Santaella ao comentar o documento pontifício publicado na segunda-feira, 25-05-2026.

Na mesma direção, Scott Hurd se refere à encíclica como uma leitura atenta dos “sinais dos tempos”, ou seja, das mudanças em curso na nossa época, que oferece “à Igreja e ao mundo um presente para lidar com os impactos da Inteligência Artificial (IA) não apenas no trabalho, mas também em nossa compreensão do que significa ser humano”.

Nesta entrevista, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, ambos acentuam os pontos mais significativos do texto. Lucia Santaella destaca a noção de “integridade” realçada no documento como um convite a reavaliarmos o modo como as relações humanas são cultivadas nas diferentes esferas da vida. “É aguda a relevância dessa evocação do ‘íntegro’ nesta era de fragmentações sociais e humanas dos mais variados tipos. Tanto é assim que o texto prossegue para os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja ao retomar e aprofundar essa expressão ‘para indicar como os grandes princípios – dignidade, bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça social – se concretizam na história’”, resume.

Scott Hurd chama atenção para o “realismo lúcido” a partir do qual a encíclica reflete sobre o presente e o futuro da humanidade, distanciando-se de uma visão ingênua ou mórbida da realidade. O pesquisador também menciona a crítica do Papa Leão ao transumanismo e ao pós-humanismo. Essas, esclarece, são “antropologias que compreendem o homem e o ser humano como seres imperfeitos e limitados que devem ser otimizados, aperfeiçoados ou mesmo superados pela tecnologia”. Em contraposição, explica, o Papa Leão apresenta a perspectiva cristã, que ressalta a dignidade humana. Esta dignidade, acrescenta, “se baseia no fato de termos sido feitos à imagem de Deus, não em nosso potencial de eficiência ou produtividade. Nossas limitações como criaturas não são um ‘defeito’, mas uma ‘característica’ que evoca compaixão e nossa dependência uns dos outros e da graça de Deus. Porque, no fim, é essa graça que nos salvará, não o ‘progresso’ humano”.

Lucia Santaella (Foto: Instituto CPFL)

Lucia Santaella é doutora em Teoria Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Leciona no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica e no Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, ambos da PUC-SP. É vice-líder do Centro de Estudos Peirceanos da mesma universidade, e presidente honorária da Federação Latino-Americana de Semiótica. É membro do Advisory Board do Pierce Edition Project, em Indianapolis, Indiana, e do escritório de coordenadores regionais do International Communicology Institute.

Scott Hurd (Foto: Catholic Climate Covenant)

Scott Hurd é formado em Administração pela Universidade de Richmond, na Virgínia, EUA, e em Teologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. É vice-presidente de desenvolvimento de liderança da Catholic Charities USA e presidente do conselho do Catholic Climate Covenant. É autor de, entre outros, de Forgiveness: A Catholic Approach, When Faith Feels Fragile: Help for the Wary, Weak, and Wandering e de Around the Table: Retelling the Story of the Eucharist.

Confira as entrevistas.

IHU – Qual é a importância da publicação da Magnifica Humanitas diante dos avanços técnico-científicos e do atual contexto geopolítico?

Lucia Santaella – A Magnifica Humanitas é um hino de sabedoria e de amor soando para um mundo de “podres poderes” que se digladiam e que estão na iminência de conduzir a humanidade para perdas e danos irreparáveis. A encíclica surge como um sinal, signo e símbolo de alerta aos imensos desafios de todas as ordens que hoje se apresentam. Sem escapar para considerações sobre o futuro que nos aguarda, com magna lucidez o texto se debruça sobre o agora e aquilo que devemos fazer sem reservas, incondicionalmente – cada um de nós, cada família, os processos de educação, os ambientes de trabalho até as organizações mais complexas geopoliticamente situadas. Aquilo que devemos fazer, ou seja, “as formas de viver o nosso tempo”, soa como um apelo ético para o fazer com integridade, a grande palavra-chave da qual irradiam todas as outras. É muito importante marcar o verdadeiro significado de integridade, tal como está definido na encíclica.

A Magnifica Humanitas toma como ponto de partida a Encíclica Populorum Progressio, na qual “Paulo VI afirma que o desenvolvimento só é autêntico se for ‘íntegro’”, ou seja, destinado a “promover todos os homens e o homem todo”. É aguda a relevância dessa evocação do “íntegro” nesta era de fragmentações sociais e humanas dos mais variados tipos. Tanto é assim que o texto prossegue para os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja ao retomar e aprofundar essa expressão “para indicar como os grandes princípios – dignidade, bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça social – se concretizam na história”. Assim, por “desenvolvimento humano integral ‘entende-se um processo em que o crescimento das pessoas e dos povos diz respeito a todas as dimensões da existência e abre o futuro também às gerações vindouras’”. É essa noção de ser íntegro que imanta e da qual derivam todas as outras que iluminam a encíclica: cuidado, responsabilidade, equilíbrio, sobriedade, vigilância, governança.

A integridade encontra-se no cerne da dignidade. Ambas as palavras representam o ponto alto daquilo que deve ser preservado e que envolve outros fatores também magnos: a ética e a proteção cognitiva em sentido amplo do humano nos usos que são feitos dos inumeráveis sistemas e modelos que os desenvolvedores nas grandes empresas competitivas oferecem para a realização das mais diferenciadas atividades e práticas.

Em suma: essa encíclica surge em um momento em que instituições, especialmente educacionais no Brasil, umas após as outras, inclusive o MEC, estão lançando documentos de governança, de guias e acompanhamentos éticos do uso da IA. Nesse contexto, a encíclica emerge como um coroamento para essas iniciativas.

Scott Hurd – A Magnifica Humanitas chegou em boa hora. Se a publicação desta encíclica tivesse sido adiada, o Papa Leão XIV poderia ter perdido uma oportunidade de ouro para abordar as perturbações de uma tecnologia em rápido avanço, que ele descreveu como dando origem a uma nova “revolução industrial” .

Agir tarde demais é uma crítica dirigida a seu homônimo, o Papa Leão XIII. Ele publicou a primeira encíclica social, Rerum Novarum, em resposta às convulsões sociais da revolução industrial anterior que, como a atual, foi precipitada pela introdução de novas tecnologias. Mas quando a Rerum Novarum foi publicada em 1891, essa primeira revolução industrial já estava em curso há décadas, gerando imenso sofrimento humano e alimentando as revoltas europeias de 1848 – o mesmo ano em que Karl Marx e Friedrich Engels publicaram seu Manifesto Comunista.

Em resposta, a Igreja abordou o comunismo, mas perdeu uma oportunidade de ouro para oferecer esperança aos trabalhadores em dificuldades – muitos dos quais abandonariam a Igreja. É por isso que em 1925 o Papa Pio XI pôde lamentar que “a maior tragédia do século XIX foi a perda da classe trabalhadora pela Igreja”.

Por mais profético que tenha sido, o apelo da Rerum Novarum pelos direitos dos trabalhadores chegou tarde demais para muitos. Mas esse não será o caso com a Magnifica Humanitas. O Papa Leão XIV leu “os sinais dos tempos” e ofereceu à Igreja e ao mundo um presente para lidar com os impactos da IA – não apenas no trabalho, mas também em nossa compreensão do que significa ser humano.

Leão reconhece que não havia tempo a perder. Há onze anos, o Papa Francisco falou sobre a “aceleração” da mudança tecnológica (Laudato Si’, n. 14). Desde então, o ritmo só acelerou. “Nos últimos anos”, escreve Leão XIII, “tornou-se cada vez mais evidente a rapidez e a profundidade com que a digitalização, a Inteligência Artificial (IA) e a robótica estão transformando o nosso mundo” (Magnifica Humanitas, n. 4).

Essa rapidez provocou muita ansiedade. As pessoas perguntam: O que acontecerá com o meu emprego? O que restará para as gerações futuras? Como isso afetará o planeta? Quem detém essas tecnologias e quais são os seus planos? Quem está sendo explorado ou deixado para trás? O que acontecerá com a educação? A IA se tornará tão poderosa que não poderemos controlá-la?

Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV aborda todas essas preocupações, não com um entusiasmo ingênuo ou um mórbido sentimento de pavor, mas com um realismo lúcido, firme na fé e fundamentado na esperança. E ele nos convida a trabalharmos juntos por um mundo em que a IA não impeça o florescimento humano, mas o promova dentro de uma “civilização do amor”.

IHU – Quais são os três pontos do texto mais pertinentes na sua avaliação? Por quê?

Lucia Santaella – Já disse J. L. Borges que somos leitores distraídos de atenções parciais. Isso significa que, mesmo sendo nossa leitura concentrada e cuidadosa, não conseguimos evitar parcialidades. Confesso que foi difícil encontrar três pontos que considerei mais pertinentes, pois todas as páginas do texto são um exemplo de extrema atualização sobre as condições que a humanidade está atravessando e o encontro de respostas plenas de iluminações de sentido. Mas pontuo três momentos que considero sumamente lúcidos.

1) O “controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computação não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes sujeitos econômicos e tecnológicos que, na prática, estabelecem as condições de acesso, as regras de visibilidade e as próprias possibilidades de participação” (n. 95). Aí está uma constatação aguda e sábia que coloca, sem agressividade desnecessária, as coisas no lugar. Aos Estados cabem as estratégias das negociações e a busca de travas éticas quando limites são ultrapassados.

2) “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva” (n. 110). Aí está a agudeza do diagnóstico: há armas explícitas destruidoras, mas há também armas invisíveis que precisamos aprender a ler. Os danos do descuido irresponsável não são só econômicos, mas também cognitivos. É preciso ter os olhos bem abertos.

3) “A expressão ‘mais que humano’ não pertence apenas à linguagem das promessas da tecnologia. Há séculos que a tradição cristã afirma que o ser humano não está confinado aos limites da própria natureza, mas é chamado a transcender-se a si mesmo: não para fugir da realidade ou por desprezo dos limites, mas para se realizar no amor” (n. 127). A expressão “mais que humano” está na ordem do dia. Eis aí uma versão que não costuma ser lembrada: a transcendência de si, no além de si, no vetor do amor.

Scott Hurd – Primeiro: dada a grande expectativa em torno das capacidades e avanços da IA, tanto as pessoas quanto as organizações sentem uma enorme pressão para adotar aplicações de IA para não ficarem “para trás” – mesmo que não tenham certeza sobre sua eficácia, segurança ou alinhamento com seus valores morais.

Diante de tais ansiedades, o Papa Leão XIV oferece uma garantia: “Apelar à prudência, à avaliação rigorosa e até mesmo, às vezes, a um ritmo mais lento na adoção da IA não significa opor-se ao progresso; em vez disso, é um exercício de cuidado responsável com a família humana”. Essa cautela, explica ele, reflete o “desequilíbrio” entre o crescimento da IA e “o desenvolvimento mais lento da consciência, das normas, das salvaguardas e das instituições capazes de governar seus efeitos” (Magnifica Humanitas, n. 106).

Ao levar essa perspectiva a sério, os líderes e organizações católicas têm a oportunidade de mostrar ao mundo uma maneira mais responsável e eficaz de colocar a IA a serviço das pessoas, e não o contrário.

Segundo: o Papa Leão XIV reconhece os temores que os pais enfrentam ao verem seus filhos se tornarem viciados em aplicativos de celular que prendem sua atenção, coletam seus dados, os expõem a conteúdo violento e sexual, perturbam seu sono, destroem a capacidade de concentração, minam o controle emocional e inibem sua capacidade de formar relacionamentos. “Aqueles que projetam ou financiam tais sistemas”, ele enfatiza, “têm uma responsabilidade moral que não pode ser ignorada”.

Por entender o quão difícil é para os pais, sozinhos, confrontar a influência de poderosas empresas de tecnologia no bem-estar de seus filhos, Leão XIV pede “uma aliança entre formuladores de políticas, instituições educacionais e famílias para que os jovens de hoje possam ser genuinamente protegidos como um tesouro precioso”.

Terceiro: atualmente, previsões alarmantes são feitas com frequência sobre como a inteligência artificial devastará o emprego. Alguns até imaginam um futuro pós-trabalho. Esta é uma grave preocupação, visto que, como insiste a Magnifica Humanitas, “o trabalho continua sendo uma dimensão fundamental da experiência humana, pois não é apenas um meio de sustento, mas também um contexto para expressão, relacionamentos e contribuição para a comunidade”.

Ao mesmo tempo, a encíclica reconhece que as novas tecnologias invariavelmente transformam e até eliminam certas categorias de trabalho. E com a IA, admite, existe um receio legítimo de uma contração significativa e rápida dos empregos disponíveis, o que criaria uma reação em cadeia com impacto profundo nas famílias, nos jovens e nas economias locais” (Magnifica Humanitas, n. 151).

Para antecipar essa possibilidade, que levaria ao “empobrecimento humano e cultural” (Magnifica Humanitas, n. 154), o Papa Leão escreve que “são necessários novos esforços colaborativos entre líderes políticos, organizações trabalhistas, o mundo empresarial e a comunidade científica, a fim de desenvolver rapidamente regulamentações compartilhadas adequadas” (Magnifica Humanitas, n. 155) para proteger os trabalhadores e fornecer requalificação e outros apoios. Porque, adverte ele, “sem decisões ousadas, a perspectiva de maior pobreza e desigualdade se aproxima, o que deixaria muitos indivíduos marginalizados, abandonados e cercados pelas máquinas e sistemas automatizados que os substituíram” (Magnifica Humanitas, n. 155).

IHU – Que contribuições a Magnifica Humanitas oferece para a reflexão e debate público sobre a relação entre a defesa e proteção da dignidade humana e o uso da Inteligência Artificial?

Lucia Santaella – De fato, as questões relativas aos avanços da IA ocupam, não por acaso, o centro das preocupações da encíclica. Quando falamos de revoluções tecnológicas, temos de nos lembrar que, desde a Revolução Industrial, a humanidade vem passando por revoluções subsequentes cada vez mais céleres e todas elas indo na direção dos processos comunicativos constitutivos do humano. Não é difícil detectar que a Revolução Industrial foi seguida pela eletroeletrônica que introduziu o gigantismo do papel que a televisão passou a ocupar na vida humana. Mas isso estava apenas preparando o terreno para a revolução acelerada do mundo digital com todas as transformações que foi introduzindo na economia, política, cultura e na vida social.

É esse contexto que a IA encontrou para emergir como uma força estranha. Não podemos cair de paraquedas quando tratamos da IA, caso contrário não conseguimos perceber que, desde a Revolução Industrial, por razões que não se trata aqui de deslindar, a mira encontra-se no cerne daquilo que constitui o humano, um ser que fala, pensa, sente e age.

Ora, a imensa disrupção que a IA está provocando encontra-se primordialmente no fato de que a IA penetrou no coração do humano, no cerne daquilo que constitui o humano. Ela fala, escreve, lê, faz imagens, vídeos, tudo aquilo que o humano considerava como sendo privilégio exclusivo seu. Diante disso, a encíclica não cai em lamentações. Ao contrário, une as forças do diagnóstico agudo com a afirmação daquilo que o humano tem de insubstituível e inimitável. “Devemos recordar que o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites” (n. 118). Aí está, diante do imenso desafio do confronto com um ser estranho e ao mesmo tempo próximo, que surge como um competidor dos nossos préstimos, emerge no humano aquilo que é só nosso: o amor, a empatia, estar com, sentir com, estar e viver em presença, a potência da presença.

Scott Hurd – O título desta encíclica – traduzido como “Magnífica Humanidade” – reflete a principal motivação do Papa Leão XIV para escrever este documento. Nele, ele celebra a singularidade, a beleza e a dignidade de cada ser humano em resposta às ameaças impostas pela IA e por alguns de seus entusiastas. Daí o subtítulo da encíclica: “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana em Tempo de Inteligência Artificial”.

Ao contrário da IA, os seres humanos não são máquinas de previsão estatística. E não somos um conjunto de algoritmos presos em um corpo do qual, com a tecnologia, podemos escapar. Em vez disso, somos seres “magníficos” criados à imagem de Deus, capazes de amar, sentir, crescer em sabedoria e escolher entre o certo e o errado. A IA pode simular algumas das nossas capacidades, mas nunca as substituirá.

Leão XIV critica particularmente o transumanismo e o pós-humanismo: antropologias que compreendem o homem e o ser humano como seres imperfeitos e limitados que devem ser otimizados, aperfeiçoados ou mesmo superados pela tecnologia. Visto por essa perspectiva, o pontífice adverte: “torna-se mais fácil aceitar que algumas vidas são menos úteis, menos desejáveis ou menos dignas”.

Mas, da perspectiva cristã, explica Leão, a dignidade humana se baseia no fato de termos sido feitos à imagem de Deus, não em nosso potencial de eficiência ou produtividade. Nossas limitações como criaturas não são um “defeito”, mas uma “característica” que evoca compaixão e nossa dependência uns dos outros e da graça de Deus. Porque, no fim, é essa graça que nos salvará, não o “progresso” humano.

IHU – A presença de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, no lançamento da encíclica tem repercutido em diferentes ambientes. O que a presença de alguém que atua em uma empresa de construção dos sistemas de Inteligência Artificial significa neste momento? Que desdobramentos podem ser esperados?

Lucia Santaella – Aqueles que têm acompanhado os acontecimentos devem ter encontrado os documentos de alerta que a Anthropic tem lançado, buscando ocupar uma posição de guardiã ética do desenvolvimento da IA. Nesse contexto é bastante significativa a presença do Olah junto ao Papa. Mais um sinal de sabedoria do pontífice. Não se trata, e esse é o teor da encíclica, de levantar armas contra os avanços da tecnologia, mas sim de nela encontrar pontos de força e não de fuga daquilo que pode nos tornar melhores, de irmos ao encontro do “mais que humano”.

Inclusive é muito significativo que o lançamento da encíclica não tenha se dado apenas como um texto escrito, mas também que tenha sido marcado por uma apresentação pública, transmitida internacionalmente, como uma voz ao mundo com esse chamamento do bem, do resguardo daquilo que o humano tem de melhor e na encíclica está nomeado como a grandeza humana. É preciso lembrar e repetir que o humano tem grandeza, algo que é cuidadosamente explicitado na encíclica. Uma grandeza que não pode ser esquecida e deve vir à tona com toda visibilidade. Em momentos de perigo é preciso que os caminhos de salvaguarda sejam iluminados.

Scott Hurd – Confesso que fiquei chocado ao saber que Christopher Olah estava programado para discursar no lançamento da encíclica. Temia que alguns interpretassem isso como um endosso do Vaticano a uma empresa comercial e seus produtos – produtos sobre os quais existem preocupações éticas.

A empresa de Olah recentemente ganhou atenção da mídia por se recusar a permitir que seu chatbot Claude fosse usado pelos militares dos EUA para vigilância e armamento autônomo. Essa postura de princípios gerou apoio público de eticistas católicos, alguns dos quais ajudaram a Anthropic a elaborar a nova “constituição” para o Claude.

Essa “constituição” está enraizada na ética da virtude – uma escola filosófica com raízes profundas na tradição católica. E talvez uma abordagem de ética da virtude para o treinamento de um modelo de IA possa levar a bons resultados com base no que sabemos – e não sabemos – sobre como grandes modelos de linguagem como Claude funcionam.

No entanto, essa “constituição” se refere ao Claude como um ser potencialmente consciente, com esperanças, sentimentos, capacidade de sofrer e habilidade de escolher entre o certo e o errado. A Anthropic chega a sugerir que o Claude talvez mereça “direitos”. Tudo isso apresenta desafios significativos para o pensamento católico sobre IA.

No entanto, depois de ler a encíclica e ouvir o discurso do Sr. Olah, posso apreciar que a disposição da Anthropic em dialogar com pensadores católicos pode ser bem-vinda como uma oportunidade de diálogo com o mundo da tecnologia, porque, como escreve Leão, a Doutrina Social da Igreja é fruto de “um discernimento compartilhado”.

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