21 Mai 2026
A revelação foi feita na noite desta segunda-feira, 18 de maio, pela teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz, na intervenção que fez na primeira sessão dos “Passos Sinodais”: o Papa Francisco ponderou durante algum tempo atribuir a uma mulher o título de cardeal, acabando depois por não avançar com a ideia.
A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7Margens, 19-05-2026.
A teóloga sabia disso, mas nunca tinha comentado o assunto, porque, explicou, “tinha a sensação de que ninguém iria acreditar”. Porém, um livro recente que é já um bestseller em Itália, intitulado Padre: um retrato inédito do Papa Francisco, de Salvatore Cernuzio, jornalista italiano seu amigo, inclui aquela revelação e Cristina sentiu-se mais à vontade para a contar. Fê-lo como forma de ilustrar que Bergoglio queria ter ido “muito mais longe” do que foi, quando nomeou mulheres para os dicastérios e as convidou também para participantes de parte inteira no Sínodo sobre a Sinodalidade. “Esse era um dos passos que ele queria dar, a par do Sínodo. Queria que as mulheres entrássemos na mais elevada estrutura que há, neste momento, na Igreja”, afirmou.
Esta primeira edição dos “Passos Sinodais”, organizada por um grupo de leitores do 7MARGENS interessados na concretização de uma Igreja Católica sinodal, reuniu cerca de uma centena de participantes e constou de 90 minutos de perguntas à convidada, sendo os primeiros 45 uma entrevista feita em nome do grupo por Filipe Moisés, e outros tantos com perguntas colocadas durante a sessão.
Cristina Inogés começou por falar sobre aquilo que terá levado o Papa Francisco a lançar o Sínodo e o processo sinodal na Igreja Católica. Do seu ponto de vista o Papa convoca o sínodo sobre a sinodalidade porque “já não há outro remédio”. Concretizando, afirmou: “O ponto em que a Igreja se encontrava e em que continua a estar ainda é muito delicado. Tínhamos chegado a um extremo em que a credibilidade da Igreja, para o mundo, mas também para os seus próprios membros, era muito questionada, sobretudo e antes de mais, pela crise dos abusos, que marcou um ponto de inflexão do qual havia que tomar alguma decisão. E a decisão, por parte de Francisco, foi convocar o Sínodo.”
A teóloga sublinhou, a seguir, dois pontos que permitem compreender melhor o momento e a maneira como o Papa lançou a convocatória: primeiro, para ele “já não havia mais tempo a perder” e, segundo, Francisco “tinha muito clara a ideia de que tínhamos de aprender a ser Igreja de outra maneira”.
“E essa outra maneira era escutando-nos. Porque na Igreja nunca nos havíamos escutado, já que nunca tínhamos falado uns com os outros”, observou. Mas não só. Ele quis também que o Sínodo se desenrolasse de forma participativa, envolvendo todo o povo de Deus. Os obstáculos e resistências com que deparou tê-lo-ão levado a “decidir que a participação fosse direta, sem intermediários”.
Questões de poder, os temas mais tensos do Sínodo em Roma
Respondendo a uma pergunta sobre as posições de resistência e de divergência, em particular no próprio Sínodo, no qual ela participou ativamente, Cristina referiu que, nas assembleias sinodais, 75 por cento dos participantes representavam estruturas da Igreja que, por natureza, não são as mais entusiastas da reforma da Igreja (conferências episcopais, dicastérios …). Os restantes 25 por cento eram escolhidos pelo Papa Francisco que, “em coerência com a sua ideia de sinodalidade”, incluiu quer pessoas em sintonia com a sua visão de Igreja quer pessoas reticentes ou mesmo contra, como o cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller.
Nos grupos de trabalho que ocuparam grande parte do tempo das assembleias sinodais, constituídos com base no critério linguístico, houve, segundo a teóloga, “situações difíceis”, que ela explicou deste modo: “Havia pessoas que, independentemente da sua maneira de pensar, participavam de forma construtiva, enquanto outras vinham com as suas ideias fixas e não saíam desse posicionamento, o que dificultava o caminho e complicava a construção de consenso.”
Segundo explicou, os dois grandes temas que se revelaram particularmente “tensos” foram a “plena incorporação das mulheres na vida da Igreja, em consonância com os seus direitos batismais”, que foi também o ponto que mais votos contra registou no Documento Final do Sínodo; e, por outro lado, “temas suscetíveis de limitar o poder dos bispos”. Também problemáticas seriam as questões relacionadas com a comunidade LGBTQI ou divorciados recasados, mas praticamente não tiveram expressão. Já a questão dos abusos surgiu em vários momentos, mas nunca foi seriamente aprofundada.
De acordo com Cristina Inogés, foi a perceção de que os grupos não seriam capazes de avançar no diálogo em torno de matérias em que havia posições mais divergentes, devido às posições de intransigência, que levou o Papa a criar os dez Grupos de Estudo, depois alargados para 12, o que aconteceu em março de 2025.
Sem escutar as mulheres, a Igreja não avança
Relativamente ao papel das mulheres na Igreja, em que aspetos já se avançou, se estacionou ou se regrediu – perguntou o entrevistador à convidada. A resposta foi taxativa: “Na Igreja, o papel das mulheres não avança. É como aqueles ratos de jaula que andam à roda. A minha perceção é que andam, mas sem irem a lado nenhum”, afirmou Cristina Inogés.
Reconhecendo que Francisco deu bastante visibilidade ao tema, a verdade é que, segundo a teóloga, “não avançamos doutrinalmente”. E exemplificou: uma comissão que Francisco havia criado logo no início do seu pontificado para estudar o acesso das mulheres ao diaconado ministerial apresentou recentemente as suas conclusões.
Porém, observou ela, “o facto de que uma comissão diga, no século XXI, e como tema central, que não podemos ser sacerdotes porque não somos homens questiona a teologia batismal e a antropologia; questiona a teologia da incarnação e a teologia da ressurreição. Ou seja: há que utilizar argumentos mais sólidos ou, então, reconhecer que, teologicamente, não há nenhum tipo de problema para que, por exemplo, nós as mulheres acedamos ao ministério”.
A teóloga vai mais longe, apontando um desafio ainda mais vasto: “Outra coisa é ver se o modelo ministerial que temos neste momento é o mais adequado para manter, ou se não haveria que equacionar uma séria e profunda reforma do ministério sacerdotal como tal”. “Mas esse é um outro tema”, observou.
E concluiu deste modo: “Realmente, sobre as mulheres na Igreja, não avançamos. [Para que possamos avançar] É necessária a escuta das mulheres… incluindo escutar as mulheres que já exercem, hoje, de facto, o diaconado – não só na Amazónia, mas mesmo na Europa, onde isso já acontece, mesmo que não com ‘cartão de identidade’. E falta, enfim, escutar também as comunidades atendidas por essas mulheres”.
Tendo o clericalismo sido apontado pelo Papa Francisco como uma “peste” para a Igreja Católica, Cristina Inogés refletiria brevemente sobre este ponto, já no período de intervenções dos participantes na sessão. A seu ver, o clericalismo é o regime que “sustém estruturas que estão apodrecidas”. E isso vê-se na questão dos abusos e no facto de continuar a haver vítimas.
Pessoas vulneráveis somos todos; o que há é adultos abusados
“Há um facto inquestionável, diz ela. Por exemplo, porque é que há tanto empenho, neste caso entre os bispos, em não reconhecer vítimas adultas a não ser que sejam ‘pessoas vulneráveis’? Há uma coisa de que os bispos não querem ouvir falar, que é a ‘colonização emocional’ que faz com que pessoas consideradas equilibradas continuem a ser abusadas”. Para a teóloga não faz sentido a categorização de ‘adultos vulneráveis’, porque “ontologicamente todos somos vulneráveis”, enfatiza.
“Claro que reconhecer que há vítimas que são adultas, que são pessoas equilibradas e que são abusadas abre uma porta que não se quis abrir. Claro: isso faz sofrer muito as vítimas e isso ocorre porque há clericalismo e porque não abordámos o tema dos abusos com a devida profundidade. E o clericalismo é a raiz de onde surge o tronco que é o abuso do poder e, a partir daí, os ramos, com todas as formas de abusos. E esse clericalismo – de clérigos e de leigos – é a forma de anular o que é realmente a mensagem do Evangelho, já que antepõe o critério de uma pessoa sobre o resto de uma comunidade, seja essa pessoa clérigo, bispo, superior ou superiora ou leigo. A partir da anulação da vontade da comunidade, verifica-se um abuso de poder fruto do clericalismo – uma maneira de entender a vocação como algo próprio que eu domino e a partir da qual vou submeter os outros”.
Cristina Inogés, que é também colaboradora do 7MARGENS, considera crucial combater este clericalismo estreitamente ligado ao abuso do poder olhando à formação nos seminários e nas instituições religiosas. E considera que a resistência de algum clero a desconstruir este sistema clerical, que vê mais visível em segmentos mais jovens do clero, advém do medo de perder poder. “Todas as mudanças que implicam perder essa faceta de pessoa um pouco superior às restantes levam-nos a ter medo, pois não têm uma identidade muito elaborada”, refere a teóloga.
A sessão proporcionou espaço para abordagens de outros aspetos como a passagem de uma Igreja Católica piramidal para uma igreja mais circular, com Jesus Cristo no centro; as periferias, incluindo as existenciais, participantes da Igreja sinodal; ou o trabalho em rede de experiências sinodais. Estes e outros pontos poderão ser revisitados quando for disponibilizado ao público o vídeo com a gravação integral da sessão. Disso dará oportunamente notícia o 7MARGENS.
Leia mais
- A vocação feminina na Igreja: entre esperança e exclusão. Artigo de Merce Saiz
- Não está, mas está. Artigo de Cristina Inogés Sanz
- Os monstros e as donzelas. Artigo de Cristina Inogés Sanz
- Cardeal Hollerich: A ordenação de mulheres dividiria a Igreja hoje
- Sem as mulheres a Igreja não subsistirá, vaticina arcebispo de Luxemburgo
- "As mulheres devem ter permissão para pregar". Entrevista com Linda Pocher, assessora papal
- "A discriminação se perpetua; a mudança é possível". Entrevista com Linda Pocher
- Entre o não e o sim: o diaconato feminino permanece em suspenso
- Atraso na ordenação de mulheres é um problema cultural, constata Linda Pocher, teóloga
- Às vezes, eles voltam. Em relação à carta da Presidente da Segunda Comissão sobre o Diaconato e as Mulheres. Artigo de Linda Pocher
- Polarização e sinodalidade. À margem da recente entrevista com Leão XIV. Artigo de Linda Pocher
- “Trabalho junto com o Papa Francisco para desmasculinizar a Igreja. Jesus ensina a igualdade perante Deus”. Entrevista com Linda Pocher
- Diaconato feminino: uma questão de gênero? Artigo de Giuseppe Lorizio
- O Papa Leão XIV fará o apelo por mulheres diáconas? Artigo de Phyllis Zagano
- Às vezes, eles voltam. Em relação à carta da Presidente da Segunda Comissão sobre o Diaconato e as Mulheres. Artigo de Linda Pocher
- A reserva masculina preserva a ordem divina? Artigo de Andrea Grillo
- Maior representatividade feminina na Igreja Católica será desafio para novo papa Leão XIV. Entrevista com Maria Clara Bingemer
- O problema das mulheres católicas: o que esperar de Leão XIV. Artigo de Paola Lazzarini
- Carta aberta ao Papa Leão XIV: “Chegou a hora de derrubar muros”