20 Mai 2026
A jornalista e escritora Francesca Mannocchi, recém-chegada do Líbano, fez uma panorâmica do Oriente Médio na Feira do Livro de Turim na noite passada, no espaço La Stampa, em conversa com a colega Francesca Schianchi após apresentar seu novo livro, Crescere, la guerra (Crescer, a guerra, Einaudi): uma reportagem em forma poética das trincheiras da Síria, Afeganistão, Ucrânia e Palestina, onde as palavras já não parecem mais ser suficientes.
A entrevista é de Francesco Rigatelli, publicada por La Stampa, 18-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
A trégua no Oriente Médio é real ou não?
Nos últimos dias, foi declarado um cessar-fogo por mais 45 dias, que só tem validade no papel. O cessar-fogo anterior, de três semanas, nunca foi tal, nem no sul do Líbano, na fronteira com Israel, nem no sul de Beirute, onde foi interrompido há uma semana naquele que simplistamente é chamado de "o reduto do Hezbollah". Um esclarecimento lexical e numérico sobre isso seria necessário.
Por favor.
O Líbano é um dos menores países do mundo, com 5 milhões de habitantes, mais de um quinto dos quais foram deslocados nos últimos dois meses. É verdade que o sul de Beirute inclui o quartel-general do Hezbollah, mas meio milhão de libaneses também vivem lá. Pela lógica dos números, é evidente que nem todos podem ser milicianos. É também uma área aeroportuária com campos de refugiados palestinos, refugiados sírios e deslocados internos de várias origens. O cessar-fogo nunca foi tal, e a estratégia israelense é a mesma empregada em Gaza: evacuação forçada, destruição sistemática dos vilarejos e das infraestruturas. Uma ocupação militar, resumindo.
Além do aspecto militar, que tipo de situação social encontrou no Líbano?
Beirute e o Líbano em geral são difíceis para mim de descrever porque morei lá e engravidei do meu filho lá. Vi o país afundar ao longo dos anos, fracassarem suas tentativas de superar as divisões religiosas, como em 2019, e seu declínio econômico após a explosão no porto em 2020. Apesar disso, o Líbano não se rende e, embora diversamente do Irã, deveria nos fazer questionar a natureza de certos movimentos.
Está se referindo ao Hezbollah?
Sim, com a premissa de que os lançamentos de mísseis contra Israel são injustificáveis. Os libaneses do sul têm razão, quando veem suas aldeias destruídas, em acreditar que
Israel quer impedi-los de retornar. O sul do Líbano é alvo militar israelense desde antes da existência do Hezbollah. Israel está fazendo no Líbano o que a Rússia fez na Ucrânia, mas não chamamos o Donbass de zona tampão de segurança. É exatamente a mesma coisa, só que de um lado é percebido como um crime de guerra e do outro como uma operação legítima.
Por que essa assimetria, na sua opinião?
Estamos vivendo anos de erosão na percepção do direito internacional, em que existem adversários fáceis como a Rússia, que ninguém chamaria de democracia. E adversários menos imediatos como Israel, de quem ainda nos sentimos aliados apesar de tudo.
Crescere, La Guerra, de Francesca Mannocchi. (Einaudi,2026)
Qual é o papel de Trump no Oriente Médio?
No ataque ao Irã, ficou claro que ele e Netanyahu tinham objetivos diferentes. Para Israel, o Irã é um fetiche, um símbolo, um inimigo absoluto por causa da arma nuclear, que gera acordo entre maioria e oposição e traz consenso até mesmo entre aqueles que se opõem.
Netanyahu queria desmantelar o regime e apoiar a revolta iraniana, enquanto Trump não tinha ideia do que estava enfrentando e agora que o entendeu, está fazendo de tudo para retirar-se. Os EUA se iludiram ao pensar que poderiam eliminar o regime de uma só vez, ignorando que o Irã se baseia na capacidade de substituir os indivíduos e no controle recíproco dos poderes.
Então, o Irã permanece de pé?
É uma cambalhota da história, como no Líbano. Quando esta última guerra começou, uma parte daqueles que apoiavam o Hezbollah não a perceberam como sua. Mas aí veio a invasão israelense ou o bombardeio da Quarta-Feira Negra no Líbano, que uniram o país em torno do único grupo paramilitar que oferece resistência. Se o Estado libanês se mostrar fraco, os libaneses não terão outra escolha senão apoiar o Hezbollah.
No Irã, estão diante de uma pergunta semelhante: melhor o novo invasor ou o antigo regime? Os aiatolás massacraram e prenderam os opositores políticos, mas agora as cidades estão sendo bombardeadas e as infraestruturas destruídas. O risco, no fim das contas, é que o regime saia paradoxalmente fortalecido.
Em suas viagens, notou alguma luz no fim do túnel?
Infelizmente, não consigo pensar em nenhuma boa notícia no momento.
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