13 Mai 2026
"O fundamentalismo bíblico judaico e cristão tem grande responsabilidade pela atual desordem global e pelo crescente questionamento, mesmo nas democracias ocidentais, dos direitos das mulheres e das minorias LGBTQ+ que pareciam dado adquirido", escreve Marinella Perroni, biblista e professora emérita do Pontifício Ateneu Sant'Anselmo de Roma, em artigo publicado por Il Regno delle donne, 06-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
No jargão jornalístico, chamam-se "clickbait", pois têm o objetivo de chamar a atenção e levar o leitor a ler o artigo completo. Foi esse o efeito que me causou o título de um artigo publicado há alguns dias no Il Post: "Uma família, um voto: o do marido" [1]. Para nós, na Itália, que este ano celebramos o 80º aniversário da introdução do sufrágio universal, um título como esse não passa despercebido. No país, as mulheres votaram pela primeira vez nas eleições locais de março de 1946 e, pouco depois, no referendo institucional e para a Assembleia Constituinte de 2 de junho. Mesmo sabendo muito bem que nossa história sempre foi meio subterrânea, é difícil imaginar que, na Itália, possamos retroceder àquele ponto sem retorno que é o exercício do sufrágio universal.
O desafio da Igreja Reformada King's Way
E, de fato, o artigo em questão se refere a uma pequena igreja reformada de Prescott, Arizona — a Igreja Reformada King's Way, fundada apenas poucos anos atrás por um pastor de quarenta anos — que reúne pouco mais de uma centena de pessoas. Pode-se concluir, portanto, que não passa de uma excentricidade estadunidense de pouco interesse para quem, já há 80 anos, vê as mulheres exercerem o direito ao voto e serem eleitas, e estarem plenamente inseridas no tecido da vida política do país.
No entanto, duas coisas não devem ser de forma alguma subestimadas. A primeira é destacada pelo próprio artigo: "Novas famílias se juntam constantemente à Igreja de Prescott todos os anos, e seu pastor, Dale Partridge, tem muitos seguidores nas redes sociais, frequentemente se manifesta contra feministas ou pessoas LGBTQ+, fala da imigração como 'suicídio nacional', diz que o Islã e o Hinduísmo são 'demoníacos' e, acima de tudo, prega um retorno ao 'patriarcado bíblico', ou seja, a um patriarcado justificado pela vontade de Deus, que, como parte da ordem que ele criou, teria estabelecido papéis de gênero distintos e hierárquicos para o homem e a mulher."
Trata-se de uma proposta promovida por ativistas de extrema direita na "machosfera", mas relançada, entre outros, até mesmo pelo Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.
Sabemos bem que a brecha que permitiu à revolução feminista penetrar também nas Igrejas foi precisamente uma nova interpretação do texto bíblico: no final do século XIX, em meio à luta pelo reconhecimento do direito ao voto para as mulheres, Elizabeth Cady Stanton (1815-1902) e seu grupo de sufragistas entenderam que somente uma revisão séria da interpretação bíblica poderia favorecer a inversão social associada ao sufrágio universal, sem que isso, contudo, implicasse um questionamento das raízes cristãs da sociedade estadunidense. O arranjo patriarcal das nossas sociedades ocidentais, de fato, deve muito ao patriarcado bíblico sobre o qual foi fundado e do qual recebeu legitimidade. Sabemos bem, além disso, que, se lido acriticamente, o texto bíblico permite a justificação de qualquer atrocidade em nome de Deus, até o genocídio de povos inteiros.
O fundamentalismo bíblico judaico e cristão tem grande responsabilidade pela atual desordem global e pelo crescente questionamento, mesmo nas democracias ocidentais, dos direitos das mulheres e das minorias LGBTQ+ que pareciam dado adquirido.
Uma tarefa para os católicos: a relação entre sexo e poder
O segundo ponto a não ser subestimado é que a Igreja Católica, especialmente na Itália, ainda está bastante atrasada em abordar de forma séria e abrangente as questões e os problemas relacionados à sexualidade humana, tanto o exercício da sexualidade quanto dos papéis de gênero.
Dado que o controle da sexualidade está intimamente ligado ao exercício do poder, nós, crentes, só podemos agradecer a George Orwell por ter nos mostrado, com seu romance 1984, que o "Grande Irmão", que controla toda a vida de homens e mulheres que pertencem a uma coletividade, mesmo aquela que se desenrola na intimidade de um quarto, não são apenas regimes religiosos de todos os tipos, mas também poderes políticos com pretensão totalitária. Por essa razão, as mulheres deveriam prestar cada vez mais atenção ao valor político da relação entre sexo e poder. Sabendo muito bem que o termo "sexo" remete a uma combinação de dimensões e de possibilidades que determinam a qualidade da vida humana de um indivíduo ou de uma coletividade. Uma combinação na qual a dimensão política dos corpos, assim como a dos relacionamentos, muitas vezes recebe pouca atenção e é, ao contrário, extremamente decisiva.
Em contextos democráticos, a relação entre diferenças sexuais e acesso a direitos é critério e parâmetro para avaliar a qualidade dos valores da vida no plano ideológico-político e sóciorreligioso, bem como moral e espiritual de uma sociedade e de uma Igreja.
A proposta da Igreja Reformada King’s Way, portanto, deve suscitar séria reflexão: deve ser considerada, mais do que uma extravagância, um apelo à vigilância.
Nota
[1] Acesse o artigo clicando aqui.
Leia mais
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