"8 de março fora das cercas". Artigo de Simona Segoloni

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06 Março 2026

"Nos sistemas patriarcais, de fato, o masculino coincide com o humano e nunca é considerado parcial ou específico, enquanto essa é a consideração das mulheres (sempre parcial em relação ao humano ou específica em relação às tarefas)", escreve Simona Segoloni, presidente da Coordenação de Teólogas Italianas, em artigo publicado por Il Regno delle donne, 04-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Toda data comemorativa — e o 8 de março não é exceção — traz consigo uma certa ambivalência, entre memórias transformadoras (como o 80º aniversário do sufrágio universal na Itália) e eventos melosos que reiteram o que se gostaria de evitar.

A Coordenação das Teólogas Italianas (CTI) e o Instituto superior para as ciências religiosas (ISSR) de Rimini “Alberto Marvelli” encontraram juntos uma maneira brilhante de refletir, partindo de si mesmos, mas para todos e para todas. Um espaço para repensar poder e poderes, em um mundo coberto de sangue.

O Dia Internacional da Mulher é frequentemente interpretado como um espaço para dar visibilidade às mulheres, discutir problemas e homenagear pessoas ou eventos relacionados à trajetória de emancipação das mulheres, ou como um momento para presentear uma flor em reconhecimento grato e gentil da presença das mulheres em casa ou no trabalho. Resumindo, é feita uma reinterpretação patriarcal, ou seja, é a festa dos sujeitos particulares, para que sejam notados por serem úteis, complementares ou mais valorizados.

Por essa razão, muitas mulheres rejeitam por instinto celebrar o Dia da Mulher, porque não querem ser uma categoria protegida ou ter apenas um dia por ano. Algo semelhante acontece com as teólogas quando são convidadas a participar de contextos considerados generalistas, ou seja, não enviesados por uma perspectiva de gênero como seria o caso das teólogas.

O humano não coincide com o masculino

As teólogas (pelo menos as feministas ou aquelas que têm uma compreensão de sua condição como mulheres) partem de sua posição existencial e a transformam em uma chave epistêmica, enquanto os teólogos geralmente não fazem o mesmo, porque não estão acostumados a pensar seu ponto de acesso ao conhecimento como parcial por ser masculino. Nos sistemas patriarcais, de fato, o masculino coincide com o humano e nunca é considerado parcial ou específico, enquanto essa é a consideração das mulheres (sempre parcial em relação ao humano ou específica em relação às tarefas).

Nesse contexto, a teologia feminista ou das mulheres é vista como um corolário, um acessório, uma voz diferente, um adorno para aquela que é considerada a teologia que não precisa de adjetivos ou especificações, porque seria teologia neutra e imparcial, ao contrário da teologia tendenciosa e parcial das mulheres: algo como a relação entre todos os dias do calendário e um único dia de festa.

Poder e poderes

A conferência realizada no ISSR "Alberto Marvelli" de Rimini, na sexta-feira, 27 de fevereiro, e no sábado, 28 de fevereiro, rompeu precisamente esse esquema. Não só foi preparada em conjunto por docentes do ISSR e teólogas da Coordenação, como também contou com a participação ativa de estudantes, resultando em um percurso onde não existiria um pensamento geral e o espaço para as teólogas, mas um problema abordado a partir de diferentes perspectivas, considerando também outras categorias e, simultaneamente, relançando-as a partir do próprio ponto de vista.

O tema do poder favoreceu a discussão porque, por história e condições pessoais, as mulheres têm uma relação muito diferente com o poder daquela dos homens, e estão cientes disso. Além disso, quando esse tema é abordado em referência à Igreja, essa diversidade de posição entre homens e mulheres torna-se gritante, chegando mesmo a ser justificada atribuindo-a à vontade de Deus e à natureza tal como Ele a teria criado. Em Rimini, a discussão centrou-se na democracia e na crise que enfrenta hoje, na necessidade de uma nova antropologia que nos permita finalmente ver e viver o poder como uma possibilitar para fazer florescer os outros, nas questões críticas das estruturas eclesiais que agora se tornam inadiáveis e na importância da informação e da comunicação para a vida social.

Uma conversão sinodal

Perante todos esses problemas, mulheres e homens questionaram juntos o Evangelho, interpretando-o para oferecer o que ele ensina sobre o poder e, portanto, o que pode oferecer à Igreja para abandonar aqueles que noutras épocas podiam ter sido confundidos com valores, mas que hoje já não é mais possível reconciliar com a fé cristã (como as desigualdades e as hierarquias).

Essa conversão eclesial poderia dar origem a uma sinodalidade (tanto para a Igreja Católica, que acaba de se encaminhar por essa trajetória, quanto para outras Igrejas cristãs) que seja um lugar de interseccionalidade, onde as diversas precariedades que afetam as vivências se entrelacem e tomem palavra, onde deixem de existir guetos onde fechar aqueles que não queremos ver, nem túmulos onde deixar morrer aqueles que consideramos sacrificáveis, mas passem a ser centros vitais, compostos por relações em que todos possam viver da melhor maneira.

Reelaborar uma teologia diferente, mulheres e homens juntos

Os temas abordados foram de altíssimo nível, e as perspectivas oferecidas poderiam ter relevância tanto eclesial quanto civil. Creio que isso não acaso aconteceu quando a teologia das mulheres deixou de ser considerada um nicho, específica ou de aprofundamento em relação a uma teologia supostamente geral. Em vez disso, entrou no jogo do pensamento e do debate como uma perspectiva entre outras, num entrelaçamento de palavras a serem testadas pela realidade e pela inteligência, sem pensar que, por serem palavras femininas, só sejam válidas dentro do âmbito delineado a priori.

Só assim a teologia (como todas as outras ciências e aspectos da experiência humana) poderá aspirar a não ser truncada, ou seja, desprovida da experiência e da inteligência de metade do gênero humano.

Nenhum de nós, de fato, permaneceu simplesmente como era; ao contrário, ao entrar no jogo da escuta e da reelaboração, repensou o que foi ouvido a partir de si mesmo e teve uma nova compreensão de si mesmo/a a partir do que foi ouvido.

Não uma teologia masculina com um toque cor de rosa, mas uma teologia diferente em que as cores se misturam a ponto de se tornarem indistinguíveis. Não apenas um dia no calendário, mas um momento para aprender que as mulheres não são apenas algo a ser notado, mas uma boa parte da humanidade e que talvez dar-lhes a palavra poderia mudar os nossos discursos e talvez (por que não?) oferecer visões que nem sequer ousamos.

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