Do mundo líquido ao gasoso - A cultura snack. Artigo de Frei Betto

Zygmunt Bauman. (Foto: UOC Universitat Oberta de Catalunya/Flickr)

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12 Mai 2026

"Na modernidade líquida, ser 'flexível' tornou-se sinônimo de estar sempre pronto a mudar de opinião, ambiente ou objetivo. A metáfora tinha pertinência para pensar uma modernidade ainda marcada por uma lógica de fluxo, deslocamento e progresso", escreve Frei Betto, escritor e autor do romance sobre massacre de indígenas na Amazônia, Tom vermelho do verde (Rocco), entre outros livros.

Eis o artigo.

A metáfora líquida, que tanto repercutiu a partir da publicação de Modernidade Líquida (Sygmunt Bauman, 1999), já não é adequada para descrever a atual conjuntura social e cultural. Não há mais coisas “fixas”: valores, ideologias, projetos etc. Muitas pessoas mudam de opinião, religião ou igreja como quem troca de roupa. Conhece algum adolescente que se culpe por ter cometido pecado?

Enquanto a minha geração 68 – que tinha 20 anos na década de 1960 – sonhava em mudar o mundo, muitos jovens de hoje naufragam ao navegar nas redes digitais e consideram a política “um nojo”. Esta perda de solidez da modernidade já estava presente na reflexão pós-moderna, como na obra Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, de Marshall Berman (1982).

Hoje a “liquidez” aparece em todos os aspectos da vida: nos objetos que utilizamos, contaminados pelo vírus da obsolescência; nas relações com o próximo, muitas vezes fluidas e ocasionais; e na própria relação que temos com nós mesmos, como o medo de estar só e/ou abrigar-se no silêncio. Tudo muda de um momento ao outro. Somos cada vez mais mutáveis, como a água que sempre se molda ao recipiente que a contém. Nada mais parece fixo para sempre.

Outrora as pessoas estavam cercadas de poucas mídias. O ritmo de vida e, portanto, de consumo, era diferente, em câmera lenta. Havia tempo para ler jornal, ouvir rádio, visitar amigos. A TV era o grande veículo hegemônico, agregador, em torno da qual a família se reunia. Ao cunhar a expressão “aldeia global”, Marshall McLuhan se referia exatamente a isso.

As novas mídias digitais introduzem agora a Cultura Snack (Carlos Scolari, La Marca, 2020). A veloz competição para captar a atenção do público fez despontar uma infinidade de peças textuais breves: clipes, tuítes, memes, trailers, webisódios, teasers, cápsulas informativas, TikTok, spoiler... que se reproduzem de maneira viral pelas redes. Eis a arte do breve a ser consumida em “mordidas” aleatórias.

Por isso a metáfora da “modernidade líquida”, popularizada por Bauman, já não serve para descrever o momento atual. A ideia do filósofo polonês partia da transição de uma sociedade sólida - marcada por estruturas estáveis e instituições duradouras - para a fluida, caracterizada pela constante mudança e aversão a qualquer forma de fixidez. Nesse cenário, não se buscam soluções permanentes; prefere-se a adaptação contínua. Daí a recorrência da palavra “inovação”.

Na modernidade líquida, ser “flexível” tornou-se sinônimo de estar sempre pronto a mudar de opinião, ambiente ou objetivo. A metáfora tinha pertinência para pensar uma modernidade ainda marcada por uma lógica de fluxo, deslocamento e progresso.

Essa imagem ainda pressupõe um percurso linear: o líquido segue um caminho, mesmo que irregular, com direção e destino. No século XXI, porém, com a introdução das ferramentas digitais, a dinâmica social parece menos um rio e mais uma nuvem de partículas que se chocam em múltiplas direções - caóticas, fragmentadas e imprevisíveis.

A Web não é apenas um novo meio, mas um metameio que abriga formatos, linguagens e práticas inéditas: de blogs a webisódios, de memes a narrativas transmídias. Essa nova ecologia midiática é tanto berço de microtextos instantâneos quanto de mega-histórias capazes de se espalhar por múltiplas plataformas. É a cultura snack, marcada por brevidade, fragmentação, remixabilidade, excesso de informação, mobilidade e velocidade. O culto da concisão é levado ao extremo.

Se a liquidez simbolizava o movimento constante, o estado gasoso captura melhor a dispersão radical de conteúdos e interações. Aqui, os “textos” são como moléculas agitadas: múltiplos, independentes e em constante colisão.

Nesse ecossistema, pequenas mudanças, como o surgimento de um novo aplicativo ou formato, podem desencadear transformações em escala global. O próprio coronavírus, como um “meme biológico”, demonstrou o poder de algo diminuto gerar impactos massivos.

Ouvi de um amigo que só acreditará na eficiência da Inteligência Artificial (IA) no dia em que substituí-lo na academia e ele, em casa, perder peso... Se tal exemplo beira o absurdo, é fato que a IA tende a atrofiar o raciocínio, a cultura e a criatividade de muitos usuários. Estamos transmitindo para as máquinas habilidades humanas que levaram milênios para serem aprimoradas. Talvez o surto mundial de obesidade tenha a ver com a preguiça de mover o corpo, já que veículos podem nos transportar de um ponto a outro do espaço e equipamentos, como robôs, são capazes de nos dispensar dos trabalhos manuais.

O risco mais iminente talvez consista em ignorar que um bloco de granito, tão consistente ao nosso tato, é resultado de uma dança de moléculas. Nele, os átomos estão em constantes movimentos que vibram continuamente em torno de posições de equilíbrio por causa da energia térmica. Se observado no microscópio, o bloco é uma dança contínua de vibrações. Em nível macroscópico, a dança é tão organizada que aparece para nós como sólida.

É o que vemos na conjuntura atual, cujo maior exemplo é a política de Trump, que ignora o direito internacional, leis e tratados, inclusive parceiros históricos da Casa Branca como a Otan. Age segundo seus caprichos intervencionistas sem nenhuma instância para detê-lo. Diante disso, pessoas físicas e jurídicas sentem-se estimuladas a fazer o mesmo, o que equivocadamente é denominado “lei da selva”, expressão paradoxal, pois se há lei existem regras.

Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau já nos alertaram que a natureza não é puro caos, violência e ausência de regras. Os ecossistemas funcionam com padrões, equilíbrios e restrições bastante estruturados. Na selva, há relações relativamente estáveis entre predadores e presas, competição por recursos, cooperação, simbiose e nichos ecológicos. A selva não é falta de ordem; é outro tipo de ordem. E os selvagens, os indígenas, quase sempre são mais civilizados que aqueles que não habitam a selva.

O conceito darwiniano de “seleção natural” como mera sobrevivência do mais forte é bastante criticado. Em geral sobrevivem os mais adaptáveis, cooperativos ou integrados ao ambiente. Daí a importância de evitarmos que esse estado gasoso desemboque em plasma, o quarto estado da matéria, que resultaria no apocalipse civilizatório. O antídoto a isso é a globalização da solidariedade em prol da paz como fruto da justiça.

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