Mães solo e os desafios do cotidiano: dificuldades e vulnerabilidades nos espaços públicos. Entrevista especial com Mariene de Queiroz Ramos

Na semana do Dia das Mães, a pesquisadora explica como o mercado de trabalho penaliza mulheres chefes de família com filhos e sem cônjuge

Fonte: josealbafotos/Pixabay

Por: Luana de Oliveira | 09 Mai 2026

Ser mãe sempre é um desafio, mas ser mãe e pai ao mesmo tempo é um caminho mais árduo. A própria sociedade traz consigo as marcas das desigualdades que atravessam o indivíduo por apenas ser mulher e, quando ela dá à luz um filho tendo que criá-lo sozinha, mesmo com alguns direitos conquistados com o tempo, suas pontes são abaladas estruturalmente.

É o amor fraterno vindo com a maternidade que a mantém de pé, sendo muitas vezes o alicerce que guia suas decisões mais difíceis. Um filho ou uma filha tornam-se o mundo que sustenta as mães solo. Ao se desdobrarem em suas rotinas, elas são abrigo, cura, afeto, mão que guia e um exemplo para seus filhos.

Segundo Mariene de Queiroz Ramos, em entrevista especial concedida por chamada de vídeo ao Instituto Humanitas UnisinosIHU, as mães solo “necessitam de políticas estruturais que precisam atacar frentes tal como a questão do cuidado e da infraestrutura do cuidado, principalmente proteção social porque apenas 28% dessas mães solo contribuem para a previdência”.

Com garra e dedicação, as mães solo equilibram sua rotina de trabalho com cuidar dos filhos, tendo que organizar suas rotinas adequadas ao tempo que precisam para manter sua presença materna. Para entender um pouco sobre as vivências dessas mães, colhemos o relato de duas mulheres com histórias distintas, mas com a mesma vivência de ser mãe solo. Cláudia Inácio de Oliveira, de 46 anos, é mãe do Rafael, de 14 anos, e é colaboradora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Adriana Márcia Ricardo Rodrigues, de 50 anos, é mãe do Jeferson, de 32 anos, João, de 28, Júnior, de 23, e de Mariã, de 5 anos. A criança está sob os cuidados de Adriana desde os oito meses de idade. A mãe biológica de Mariã faleceu quando a menina tinha 1 ano e dois meses. Adriana é funcionária da Onet, prestadora de serviços da Unisinos.

Mariene também é mãe solo e conta que sua mãe era uma rede de apoio para ela, porém, quando precisou se mudar após passar em um concurso, as coisas ficaram mais difíceis.

“Minha mãe cuidava de minha filha aqui na periferia de Novo Gama, em Goiás, mas, a partir do momento em que precisei me mudar para o centro de Brasília, não tive mais essa rede de apoio. Minha filha tinha 13 para 14 anos quando me mudei para cá por conta do mestrado e acabou minha rede de apoio, com isso levava ela para as aulas comigo quando tinha mestrado à noite”, diz.

Mariene de Queiroz Ramos. (Foto: Arquivo pessoal)

Mariene de Queiroz Ramos é mestra em Políticas Públicas e Desenvolvimento pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pesquisadora da Escola Nacional de Administração Pública (Enap).

Confira a entrevista.

IHU – Quais os principais desafios que as mães solo enfrentam e como a sociedade brasileira enxerga essas mães?

Mariene de Queiroz RamosAcredito que, um dos maiores desafios é a conciliação integral. A mãe solo precisa criar um cuidado com seu filho ou filha, e, além disso, trazer o sustento para dentro da sua casa por meio de um trabalho remunerado. Dito isso, estamos falando de duas jornadas integrais ao mesmo tempo, pois essa mãe não tem com quem dividir a parte de trazer a remuneração para dentro de casa e nem a de cuidar das suas crianças. A partir disso, tem essa penalidade integral.

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) mostram que existem mais de 10,9 milhões de mães solo no Brasil. Um número equivalente ou até maior do que a população de Portugal. Então, temos um país de mães solo, onde 61% dessas mulheres são negras, pretas ou pardas. A sociedade ainda banaliza muito a sobrecarga da mãe solo, da mulher em geral, mas falo especificamente das mães solo. Há uma admiração de que “a mulher da conta, ela consegue se virar como mãe”, mas ainda falta a questão da pergunta: como o Estado e o mercado podem contribuir para ajudar essas mulheres? Há a romantização da mãe solo de que a mulher consegue dar conta de fazer tudo ao mesmo tempo.

IHU – Quanto ao mercado de trabalho, em quais condições se enquadram a maioria dessas mães e como a maternidade impacta sua trajetória profissional?

Mariene de Queiroz Ramos – Os dados mostram que a maioria das mães solo estão em uma segregação de trabalho doméstico, quase 22% dessas mães estão em um trabalho doméstico. Ao contrário das mães com cônjuge, em que 11% apenas estão confinadas no trabalho doméstico, as mães solo são maioria na profissão, com quase 22% confinadas em trabalhos domésticos que é tido como um trabalho precário historicamente. Ou seja, vemos uma precarização nesta atividade.

 

Além disso, tem uma forte presença dessas mães solo na educação e na saúde, que também são os trabalhos de cuidado, setores feminizados e com salários baixos. Portanto, essas mães estão confinadas em trabalhos que pagam um pouco menos e que estão voltados ao trabalho de cuidado.

Sobre a questão da maternidade e como isso impacta, falando não só da mãe solo, mas em geral, há pesquisas já consolidadas de que, quando a mulher tem filho, existe uma curva que chamam de “a curva de boca de jacaré”, onde essa mulher está ascendendo nos estudos e na profissão, mas quando tem filhos acaba descendo e dificilmente consegue chegar novamente àquele patamar em que estava.

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Para as mães solo, isso impacta muito mais. Muitas param de estudar porque precisam cuidar da criança, não conseguem continuar com os estudos. Já vemos isso nos dados, porque 55% das mães solo não têm nem o Ensino Médio completo. Temos essa previsão antes mesmo de entrar no mercado de trabalho.

Já há um perfil de vulnerabilidade dessas mulheres. Ao contrário das mães com cônjuge, 39% têm até o Ensino Médio. A diferença de 55% para 39% é grande. Outro dado é que apenas 13% dessas mães solo possuem nível superior completo. Portanto, já percebemos essa vulnerabilidade, criar um filho sozinha é difícil.

Às vezes, a questão não é a falta de vontade de estudar, mas sim que essas mulheres precisam trazer sustento para casa e priorizar a questão do trabalho. Na maioria das vezes, não tem com quem deixar os filhos para estudar à noite. Com isso, não têm como estudar. Falo por experiência própria. Quando tive filho, era casada e depois que me divorciei continuei estudando, mas tive uma rede de apoio que era minha mãe, outra mulher. É uma responsabilidade que sempre acaba caindo sobre outra mulher.

 

Minha mãe cuidava de minha filha aqui na periferia de Novo Gama, em Goiás, mas, a partir do momento em que precisei me mudar para o centro de Brasília, não tive mais essa rede de apoio. Minha filha tinha 13 para 14 anos quando me mudei para cá por conta do mestrado e acabou minha rede de apoio, com isso levava ela para as aulas comigo quando tinha mestrado à noite. É algo que as mães precisam escolher se conseguem ou não conciliar. Portanto, na maioria das vezes não é falta de interesse em estudar, mas sim uma questão de prioridades. Estou falando por experiência própria, mas sou servidora pública e isso diferencia um pouco.

IHU – Por que as políticas de conciliação entre trabalho e cuidado ainda são insuficientes no Brasil? Observa-se uma resistência dos diversos setores econômicos em criar políticas que permitam conciliar trabalho e cuidado, especificamente para mulheres que têm filhos?

Mariene de Queiroz Ramos – Há uma simetria estrutural muito grande no Brasil. Já verificamos em outras pesquisas que o cuidado está sendo muito falado por conta da Política Nacional de Cuidado, mas o cuidado é tratado predominantemente como uma responsabilidade familiar e que geralmente, nesse âmbito familiar, cai na responsabilidade das mulheres. Isso faz com que a organização dessas milhões de mulheres, falando de mães solo, sejam afetadas nessa divisão.

Quando falamos de cuidado, há um dado também que minha pesquisa traz que é interessante, onde 33,5% das mães solo convivem com algum idoso. Isso é mais que o dobro das mães com cônjuge, onde muitas vezes esta mulher está conciliando ou até acumulando o cuidado com os filhos e o cuidado com a pessoa idosa da família, seja pais, seja avós.

Acho que essa é a dificuldade das políticas: precisamos de políticas públicas que ataquem a questão da estrutura, pois ela é estrutural.

O cuidado é tratado como uma responsabilidade familiar e que nesse âmbito familiar cai na responsabilidade das mulheres – Mariene de Queiroz Ramos

Quanto aos setores econômicos, de modo geral essas instituições enxergam a questão do cuidado como um custo adicional para o país. A questão das creches, da licença, da flexibilização de horário, esse setor observa isto como um gasto, vê isso tudo como um custo econômico e não como um investimento na produtividade e na retenção de talentos dessas mulheres.

Quando ignoramos essas questões de direitos, estamos trazendo um custo que é mensurável para a questão econômica e que reflete em milhões de produtividades perdidas que são essas mulheres. Se essas mulheres conseguissem contribuir de uma forma mais integral para a economia, não teríamos décadas de aposentadorias insuficientes que vemos também nos dados, sendo um resultado de uma geração criada na vulnerabilidade. Quando falamos de mães solo, não estamos falando apenas delas, mas da criança também que provavelmente, se sua mãe não conseguir quebrar o ciclo, há o risco de ela crescer em meio à vulnerabilidade.

IHU – Quais estratégias que as mães solo utilizam para conciliar trabalho e cuidado?

Mariene de Queiroz Ramos – Percebo que, hoje, as estratégias majoritárias que as mães solo usam são individuais e improvisadas. São as mães que conseguem improvisar de alguma forma, com a ajuda de redes de apoio informais, como mães, avós, vizinhos e outros.

Minha mãe foi uma dessas redes de apoio, pois cuidava de crianças de vizinhas por um valor simbólico, em que algumas eram mães solo. Então, existem mães solo que usam essa estratégia. Além disso, a questão da flexibilidade do trabalho é outra estratégia, onde as mulheres buscam trabalhos mais flexíveis que auxiliem nessas condições, mas ao mesmo tempo isso faz com que ambas estejam inseridas em mercados informais, com um salário remunerado abaixo da média. Essas questões afetam a saúde mental dessas mulheres com relação à falta de lazer, ao sono e outras questões, algo que não entro muito em debate porque são muitos outros fatores que envolvem o fato.

 

Mas, aí, vemos que nenhuma dessas estratégias utilizadas por essas mães conseguem romper o ciclo de vulnerabilidade. Apenas remediam naquele momento, na situação na qual precisam trabalhar, buscam deixar seus filhos com alguém e conciliar suas rotinas. No entanto, nenhuma dessas alternativas rompe o ciclo de vulnerabilidade estabelecido. Acredito que isso é um problema não individual, mas sim um estrutural.

IHU – O que a fez se interessar por este tema como pesquisadora?

Mariene de Queiroz Ramos – Nasci no interior do Tocantins, onde não tínhamos muito acesso à energia elétrica, água encanada, televisão e outras tecnologias. Até quase 7 anos de idade morei nesse lugar, em um povoado perto de Ponte Alta, em Bom Jesus. Na época, estudei em escola rural, comecei a estudar com 5 anos em uma escola que era distante e íamos a pé. Tive um irmão que nessa época ficou doente. Por conta da saúde dele, precisamos vir para Brasília. Após, houve o seu falecimento e meus pais não quiseram voltar para Tocantins.

Desse período, o que me lembro mesmo é quando viemos para a periferia de Novo Gama, que fica no entorno do Distrito Federal, localizada em Goiás. Hoje, a periferia está um pouco mais estruturada, mas na época era muito vulnerável, e, para trazer renda para dentro de casa, já que meu pai era aposentado por acidente de trabalho, minha mãe começou a cuidar de crianças. Tivemos muitas crianças dentro de casa. Essas mães que traziam seus filhos pagavam um valor muito abaixo. Com isso, minha mãe as ajudava, já que muitas delas eram mães solo e trabalhavam como diaristas.

 

Então, na época não tinha essa questão de escolinha ou creche em tempo integral. Era periferia, inclusive sempre ajudava minha mãe levando as crianças para a escola. Sempre tive uma inquietação com essa questão, ao ver a vulnerabilidade dessas pessoas, das crianças, dos adolescentes, principalmente dessas mulheres que trabalhavam, precisavam trabalhar como diaristas, pegavam diárias às vezes até sábado e domingo, para conseguir trazer o sustento para dentro de casa. Portanto, essas questões foram me gerando inquietações.

Quando saiu o processo seletivo para o mestrado, acabei me recordando dessa época e fui pesquisar o que as pessoas falavam sobre mães solo e o que havia sobre o tema em pesquisa. Nisso, quando olhei, me surpreendi porque é um assunto que é falado bem pouco, existe mais na parte da psicologia, que fala da sobrecarga da mãe, mas não tem nada muito com esses dados. Tem a Janaína Feijó, que fala da quantidade de mães e alguma coisa sobre o mercado de trabalho, mas não tem algo com muitos dados como eu trouxe na minha pesquisa. Então, isso me despertou essa vontade.

Nessa época também já era mãe solo e via a minha dificuldade de conseguir conciliar, dar atenção à minha filha mesmo que estivesse com minha mãe. Era muito difícil. Queria fazer algo que trouxesse benefício para a sociedade, em que pudesse trabalhar com esse grupo que está invisível na sociedade, para que tenha a visibilidade que ainda não tem nas estatísticas. Se formos analisar, a questão da penalidade pela maternidade nas pesquisas ainda é tratada de uma forma muito homogênea.

É como se fosse assim: “As mães têm uma penalidade pela maternidade de X por cento”, mas, nessa projeção, queria ver a questão de que nem todas as mães tenham a mesma penalidade, pois existem mães mais vulneráveis. Quando trouxe os dados logo de início e meus orientadores, Marcos Dantas Hecksher e o Carlos Henrique Corseuil, concordaram em seguirmos com a pesquisa, fiz um levantamento, fiz toda a parte estatística e vimos que era algo que dava sentido de se trabalhar, que tinha algo significativo ali falando estatisticamente. Então, essa é minha motivação, é a minha motivação até hoje continuar estudando para dar visibilidade a essas mulheres.

IHU – Por que as mães solo enfrentam maiores penalidades salariais em comparação a outros grupos?

Mariene de Queiroz Ramos – Quando falamos de mães solo, de famílias monoparentais, estamos falando de três camadas de desvantagem. Abordamos um ser mulher que já tem uma desvantagem no mercado de trabalho. E, estamos falando dela ser mãe, que já é outra questão que gera desvantagem. Além disso, temos também a monetariedade feminina, de ser a única provedora ali daquele domicílio. Por isso, há o acúmulo de três desvantagens. Acredito que, a penalidade salarial vem dessas três desvantagens.

Comparando pessoas com a mesma escolaridade, mesma idade, mesma raça e região que trago em minha pesquisa, as mães solo recebem cerca de 43% a menos que pais com cônjuge. E, comparando mães com cônjuge, elas ganham 2,1% a menos. Nisso, até pensamos “dois pontos percentuais é pouco, mas precisamos lembrar que essas mães com cônjuge têm outra renda que é a do pai que está juntando. A mãe solo não, pois só tem aquela renda que precisa organizar e distribuir ali dentro do seu lar.

Essa desvantagem vem desse acúmulo e da junção dessas três desvantagens mencionadas anteriormente. Quando analisamos em relação a pais solo, a desvantagem salarial entre pais solo e pais com cônjuge é bem menor do que as de mães solo. Então, tem muito essa questão do gênero, da maternidade e da monetariedade.

IHU – Como o racismo influencia os rendimentos de mães solo no Brasil?

Mariene de Queiroz Ramos – Em minha pesquisa, antes de entrar em mercado de trabalho, traço um raio X dessas mulheres, mostro quem são elas. Aí partir disso, vem a questão da escolaridade e racial. Vejo que o racismo já entra na questão da vulnerabilidade no mercado de trabalho. 61,5% dessas mulheres se declaram pretas ou pardas, que são negras. Quando olhamos só para as pretas, de todos os percentuais, o maior percentual de pessoas pretas está em mães solo. Após essas mulheres entrarem no mercado de trabalho, já há uma desvantagem salarial. Dentro do grupo de mães solo existe uma penalidade de 12% a 16% entre mães brancas e mães negras.

Só que, ao mesmo tempo, quando comparamos com outros grupos, por exemplo, pais com cônjuge, a desvantagem do pai que é negro com o pai que é branco é maior. Então, quando analisamos essa questão vemos que o fato delas serem mães solo já as penaliza por si só. É como se a mãe solo estivesse lá no fundo do poço, e essa pessoa ser negra ou branca não faz com que ela saia do fundo do poço. Mas isso também já mostra que é porque a maioria delas já são negras. Então, não tem como ter essa diferença tão grande porque já estão na vulnerabilidade por serem negras. Contudo, também tem a questão da acumulação de gênero, raça e da monoparentalidade que faz aumentar essa vulnerabilidade.

IHU – É possível reduzir a penalidade da maternidade?

Mariene de Queiroz Ramos – Acredito que sim, mas, para reduzir essa penalidade na maternidade, as mães solo não podem ser tratadas como soluções individuais como já falamos. Essas mulheres necessitam de políticas estruturais que precisam atacar frentes tais como a questão do cuidado, da infraestrutura do cuidado, sobretudo a proteção social, porque apenas 28% dessas mães solo contribuem para a previdência.

Como vai ser quando elas não conseguirem mais trabalhar? Vão ficar vivendo apenas de transferências de renda, que é ótimo, é maravilhoso, já tive transferência de renda, precisei do Bolsa Família quando era criança e adolescente. Mas, ao mesmo tempo, vemos que isso não tira essas mulheres na velhice de uma precarização e vulnerabilidade.

Na questão do cuidado, devemos aumentar a quantidade de creches em período integral, principalmente nas áreas mais periféricas, nas áreas mais ponderáveis que ainda não atingimos a meta de creches em período integral. É preciso reconhecer a questão do cuidado e mostrar que não é apenas um problema privado. Quanto ao trabalho, é muito importante combatermos essa segregação. Pensar na qualificação dessas mulheres para que consigam entrar no mercado de trabalho, em atividades diferentes dessas que estão hoje, principalmente no serviço doméstico.

Precisamos entrar nessa questão da qualificação, de combater a segregação. É importante qualificar essas mulheres para que tenham um trabalho mais estruturado. Também há a questão da proteção, subsidiando e reconhecendo o tempo de cuidado para a previdência.

Temos em andamento a Política Nacional de Cuidados que trata disso, mas ao mesmo tempo é importante pensarmos neste momento em que a política está sendo formulada, que ela está iniciando. É entrar e pensar que essas mulheres não formam um grupo homogêneo. Devemos pensar nas suas desigualdades dentro das dificuldades que já existem em ser mulher e olhar para mais uma desigualdade paralela que é ser mãe solo.

 

IHU – Por que o nascimento de um filho afeta muito mais a carreira das mulheres do que a dos homens como pais solo?

Mariene de Queiroz Ramos – Quase sempre, a responsabilidade primária é da mulher quando tem filho. Vamos falar novamente na questão e relembrar aqui sobre a cumulativa de ser mulher, ser mãe e da monoparentalidade.

Muitas das vezes, a sociedade vê o homem ser pai como uma coisa a mais. Um plus na questão de trabalho. Quando você vai numa entrevista de emprego e fala que é mãe ou pai, quando se é mulher há um peso diferente. Não pode se negar que há uma diferença. Então, tem essa questão da acumulação e da responsabilidade que recai mais sobre as mulheres, mas o que mais pesa é a junção dos três fatores que é ser mulher, ser mãe e ter monoparentalidade feminina.

IHU – Como a informalidade no trabalho se torna uma “saída” para mães solo e quais os riscos envolvidos?

Mariene de Queiroz Ramos – A informalidade é uma saída falsa para essas mulheres. Aparentemente, a mãe solo está mostrando que nesse primeiro momento está funcionando e consegue deixar sua criança com alguém para poder trabalhar. Mas a que custo que estão trabalhando? Por isso que acabam aceitando trabalhos informais, por oferecerem mais flexibilidade no horário, afinal precisam cuidar dos filhos pequenos sozinhas, tendo que ajustar suas jornadas em função da flexibilidade.

Isso traz um risco enorme, principalmente no futuro dessas mulheres mediante a questão da aposentadoria. São trabalhadoras que estão sem direito à contribuição previdenciária, sem direito à licença maternidade, sem a férias e ao 13º salário. Apenas 28% das mães solo contribuem para a previdência social. É uma vulnerabilidade de hoje que se prolonga no decorrer da vida dessas mães.

IHU – Que tipo de políticas públicas poderiam servir de auxílio às mães solo?

Mariene de Queiroz Ramos – Defendo a questão das políticas baseadas em evidências. Em minha pesquisa, trago evidências, dados e um raio X de mulheres. Trabalho com a verdade contínua que é a realidade do nosso país. Portanto, precisamos trabalhar com políticas baseadas em evidências, para que essas políticas atinjam esse grupo realmente. Muitas vezes, fazemos uma política que às vezes não funciona quando chega a algum município. Devido à situação em que a cidade se encontra, a ação não consegue ser realizada ou nem chega até o local.

Precisamos de políticas mais inclusivas, e acho que as políticas públicas baseadas em evidências são o melhor caminho. Com isso, falo novamente da questão da expansão das creches, principalmente nos locais periféricos. Além disso, devemos ter qualificação para combater a segregação dessas mulheres e o subsídio previdenciário por tempo de contribuição, para a questão do cuidado.

 

Fortalecer as transferências de renda também é sempre importante. Sei que o governo já está trabalhando nisso, muitas mulheres recebem essa transferência já. Os dados mostram que 57% delas complementam a renda com essa transferência. Ou seja, elas não conseguem sustentar sua casa apenas com o salário que ganham. Tem a questão também de apoio a cuidadores porque essas mulheres estão ali com muitos idosos dentro do seu lar, algo que intensifica a questão da geração sanduíche que cuida de seus filhos e, ao mesmo tempo, cuida de pais e avós.

O que sempre falo em minha pesquisa é que, com relação às políticas públicas, o governo não está fazendo um favor para essas mulheres. Precisamos pensar na questão de eficiência econômica e dar autonomia para essas mulheres. É necessária a inserção delas no mercado de trabalho com uma melhor qualidade, para que essas mães parem de sofrer uma penalidade na qualidade salarial.

Cláudia Coutinho fala sobre trabalho ganancioso, onde as mulheres em geral repensam como vão formar a sua carreira já pensando na disponibilidade e em jornadas mais flexíveis. Mas o trabalho ganancioso são aqueles de mais alto nível em que não se consegue ter essa flexibilidade e redução de jornada. Por isso, as mulheres têm mais dificuldade em reascender. Estou falando das mulheres em geral, mas imaginem as que são mães solo e não têm com quem deixar seus filhos? É muito mais difícil de elas chegarem nesse nível de profissão sem terem ajuda. Acredito que não é apenas a falta de qualificação dessas mulheres, mas também a incompatibilidade estrutural entre o cuidado e a lógica que existe no trabalho.

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