"Também na época do Iraque, Wojtyla permaneceu firme. A história provou que ele estava certo". Entrevista com Fernando Filoni

João Paulo II com George Bush. (Foto: White House)

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09 Mai 2026

"Há uma passagem no Livro do Apocalipse em que Jesus diz: 'Eis que estou à porta e bato'. Ele espera que lhe abram, porque as portas devem estar sempre abertas e nunca fechadas." O Cardeal Fernando Filoni possui vasta experiência diplomática e já viu de tudo, como quando foi o único embaixador a permanecer em Bagdá em 2003, sob os bombardeios estadunidenses: "Também na época da guerra do Iraque, João Paulo II tentou interromper o conflito e manteve-se firme em sua posição. Os fatos e a história, comprovaram amplamente que ele estava certo."

A entrevista é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Serra, 07-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

E agora, Eminência?

A Santa Sé não segue a lógica da contingência que muitas vezes é prerrogativa do mundo político. Ela nunca esquece de que por trás de cada crise, do Irã a Cuba, existem, acima de tudo, os povos. Não estamos falando de ideias abstratas, mas da dor de milhões de pessoas. A elas se dirige a atenção principal da Igreja. As políticas vêm depois. A linha sempre foi muito clara, mesmo que nem sempre seja clara para os líderes. Mas os líderes mudam e a Sé Apostólica mantém sua linha.

Esta manhã, Leão se reunirá com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Após o enésimo ataque de Trump, é estranho que a audiência não tenha sido cancelada?

Não, o encontro com Rubio já estava preparado, e o diálogo e as relações estabelecidas não vão ser prejudicados por uma situação contingencial. O Papa esclareceu o que precisava ser esclarecido. Mas a Santa Sé não entra em um debate que não iniciou; não há represálias. Nunca se fecha a porta, justamente: esse é o princípio fundamental. Mesmo em situações não menos complicadas do que essa, na história, agiu assim: se mantém sempre aberta ao diálogo.

A missão de Rubio será mais complicada, dado o último ataque de seu presidente?

Não creio. Claro, as palavras de Trump vieram no momento menos oportuno, mas a agenda do diálogo está definida e seguirá seu curso.

Como o senhor interpreta os ataques de Trump ao Papa? São comentários extemporâneos ou há um método por trás deles?

Não sei, de um lado há um aspecto acidental, o fato de lhe terem feito uma pergunta sobre o Papa e ele ter respondido. Mas, claro, a sua resposta mostra sua maneira de ver as coisas...

Fala do Pontífice como se estivesse se dirigindo aos líderes políticos do planeta?

Fala como está acostumado a fazer. Parece-me que ele não conhece e não entende a posição da Igreja.

O Cardeal Parolin esclareceu que, em todo caso, "os Estados Unidos não podem ser ignorados."

Certamente. A Santa Sé sempre teve relações com os EUA, mesmo antes das relações diplomáticas oficiais. Há dezenas de milhões de católicos, sacerdotes e bispos que deram uma contribuição fundamental à Igreja. Não nos esqueçamos das ajudas dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial; há uma longa tradição de apoio e amizade. Sem mencionar que o Papa é filho daquela terra. Vamos olhar para os EUA com uma perspectiva mais ampla do que as controvérsias dos últimos dias.

Amanhã se completará um ano desde a eleição de Leão XIV. O que ele mostrou com esse início de pontificado?

Ele deu à Igreja a serenidade, a segurança e a unidade no caminho de que ela precisava. Era isso que nós, cardeais, pedíamos ao futuro Papa, e ele compreendeu perfeitamente e está levando adiante. São os fiéis que dizem isso em primeiro lugar; ainda outro dia, houve pessoas que me disseram: fizeram uma boa escolha, estamos satisfeitos. E ele faz tudo isso sem agir sozinho, valorizando a todos, e esse é outro aspecto muito importante que os cardeais pediam.

E externamente, em relação ao mundo?

Veja bem, existem pontos ideais para os quais se deve caminhar. Claro que, depois, temos que parar e olhar para a realidade, encará-la com todas as suas complicações. Mas é essencial ter uma orientação. Acredito que, no plano internacional, ninguém, ou quase ninguém, é realmente contra os princípios que o Papa afirma: o diálogo, a paz. Nas situações mais problemáticas, pode ser difícil concretizar esses princípios ideais. Mas muitos se inspiram neles, os desejam. É isso que Leão XIV representa neste momento, para além das divisões, no mundo: um ponto de referência.

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