Cerca de 60% dos partos realizados no Brasil são por cesariana. Apesar dessa estatística, um movimento de resgate dos saberes das parteiras tradicionais está em curso no mundo, afirma a socióloga
Em Cosmologias dos Nascimentos (São Paulo: Folha Editora, 2025), inscrito para concorrer ao Prêmio Jabuti Acadêmico de 2026, Thayane Cazallas do Nascimento, socióloga e doutora em Educação, propõe rediscutir o parto e o nascimento, revalorizando o conhecimento tradicional das parteiras. A proposta, explica a entrevistada, parte do “desejo de levar o conhecimento sobre gestação, parto e nascimento a um outro patamar de discussão social e científica”. Há dois anos, o ofício de parteira, realizado por mulheres desde as origens da humanidade, foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Segundo a pesquisadora, desde a modernidade, o conhecimento das experiências transmitidas por mulheres, de geração em geração, foi “subjugado”, considerado “ultrapassado” e substituído por concepções científicas de obstetrícia.
Na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, Thayane questiona a compreensão de parto e nascimento “como eventos que foram fragmentados para caber no tempo da organização das rotinas hospitalares e da prática médica cirúrgica”. Ela também valoriza o saber tradicional das parteiras e defende um olhar espiritual e ampliado sobre o nascimento. “Ao reconhecer esse momento como único na história de quem deseja viver esse processo, entende-se que ele não pode ser um evento mecanizado. Assim, o espiritual é compreendido como expressão de fé, crenças, rezas, mas também como simbologia dessa experiência desejada: um querer que se relaciona com quem nasce, presente desde o querer ou o não querer, no limite de cada história de vida”, argumenta.
Em 2012, a Revista IHU On-Line abordou essa temática. A edição n. 396, intitulada “A humanização do parto. Por um nascimento mais digno e natural”, entrevistou a parteira mexicana Naolí Vinaver Lopez, médicos e pesquisadores que estudam o tema. A edição completa está disponível aqui.
Thayane Cazallas do Nascimento (Foto: Arquivo pessoal)
Thayane Cazallas do Nascimento é graduada e mestra em Ciências Sociais e doutora em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). É pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Gênero (NPGR), do Programa de Gênero e Religião da Faculdade de Estudos Superiores em Teologia (EST), em São Leopoldo. É idealizadora do Projeto de Educação Ecofeminista de Abya Ayala: Educação, meio ambiente e justiça climática. Junto com a historiadora Paula Cervelin Grassi, é autora de Emma Goldman: uma parteira anarquista e revolucionária (São Paulo: Folha Editora, 2025).
IHU – Em sua tese de doutorado sobre o parto e o nascimento, você recorre à noção de cosmologia, indo além de uma abordagem meramente científica. Por que escolheu dar essa ênfase?
Thayane Cazallas do Nascimento – “Cosmologias dos Nascimentos” é um livro que surge como fruto da pesquisa de tese de doutorado na área da educação, que buscou compreender os aspectos do universo do parto e do nascimento, assim como os conhecimentos, saberes e aprendizagens em torno do universo da parteira. Identificam-se as parteiras tradicionais e toda a discussão que permeia a realidade de seus conhecimentos e práticas.
Trata-se de um tema precursor, por compreender que a dimensão da educação pode ser um espaço fundamental para essa discussão, ainda que, pela primeira vez, dentro deste campo de conhecimento.
Quando falamos em educação, estamos atentos à produção de conhecimentos e a como estes produzem aprendizagens e saberes. A educação é um espaço de processos sociais e culturais de aprendizagens compartilhadas, assim como um campo que, junto à filosofia, se dedica a questionar, elaborar perguntas e construir respostas como nascedouro de novas perspectivas sobre os processos de aprendizagem e os saberes sociais em nossa cultura. Reconhece-se, assim, a educação como um sistema de formação do conhecimento humano que está presente para além das instituições escolares, sendo de ordem coletiva e comum na sociedade.
A concepção de cosmologia, na verdade, constitui uma abordagem científica e filosófica que reconhece uma conjunção de ideias, realidades, ciências, relações sociais e códigos culturais, repletos de significados e significantes, dentro de uma determinada configuração cultural, social, política, religiosa e espiritual. Consideram-se esses universos em seus tempos sociais e plurais. Assim, a categoria “cosmologia” também se refere ao entendimento e à apreensão de um novo universo, que se busca compreender a partir das limitações de quem o observa, ainda que se procure reconhecer e considerar os limites interpretativos.
“Cosmologias dos Nascimentos” é tudo isso, mas também é o desejo de levar o conhecimento sobre gestação, parto e nascimento a um outro patamar de discussão social e científica. Trata-se de compreender tudo o que se relaciona com essas experiências de vida, como a família, a gestante e o casal, mas também de pensar o parto e o nascimento como um saber mais amplo, partilhado e comum a todos, e não apenas como um evento individual, ainda que a experiência vivida tenha um papel fundamental nessa interlocução narrativa, cuja voz não deve ser negligenciada.
O que mudaria em nossa percepção da vida social, política e cultural se passássemos a narrar mais sobre a experiência do parto e do nosso próprio nascimento?
Cosmologias dos Nascimentos (São Paulo: Folha Editora, 2025) (Foto: Divulgação)
IHU – Na sua pesquisa se sobressai uma compreensão de parto como um “evento espiritual” no sentido de ser uma experiência tanto para quem dá à luz quanto para quem nasce. Pode explicar essa ideia? Como essa compreensão modifica o entendimento e a prática do parto e do nascimento?
Thayane Cazallas do Nascimento – O evento espiritual que aparece na pesquisa está fortemente presente no olhar respeitoso observado nos processos de acolhida realizados pelas parteiras tradicionais, para quem buscava o espaço das rodas de acolhimento sobre gestação, embora não fosse determinante para participar desse espaço de escuta e cuidado. O espiritual aparece de forma muito profunda na compreensão da própria escolha dessas parteiras por esse trabalho, e também em como esse espiritual impulsionou o desenvolvimento de aprendizagens materiais, ou seja, o estudo, a pesquisa e os conhecimentos de uma ciência que se constitui nos saberes do partejar.
Ao reconhecer esse momento como único na história de quem deseja viver esse processo, entende-se que ele não pode ser um evento mecanizado. Assim, o espiritual é compreendido como expressão de fé, crenças, rezas, mas também como simbologia dessa experiência desejada: um querer que se relaciona com quem nasce, presente desde o querer ou o não querer, no limite de cada história de vida.
Esse espiritual também se expressa como uma reinterpretação social na vivência do corpo, que rompe tabus entre o sagrado e o profano. Entende-se que a dor do parto não é uma condição dada da existência feminina, ou seja, a dor do parto não é sinônimo de sofrimento por pertencer a esse corpo. E, se esse corpo desejar parir de cócoras, dentro de condições seguras e de seus limites, poderá fazê-lo. Ou, se esse corpo desejar ficar na água, dentro dos recursos materiais e do espaço que acessa, também poderá. Da mesma forma, quando houver necessidade, ele terá a possibilidade de recorrer a uma cesariana, sendo também acolhido nesse processo.
O espiritual, como expressão do sagrado do querer a forma de parir e sua reinterpretação desse movimento por quem vive esses desejos, também representa uma quebra de tabus, assim como uma transformação do imaginário social sobre o parto e o nascimento. Esse imaginário passa a reconhecer que o nascimento deve envolver processos de amor, respeito e segurança para todas as pessoas que desejam viver essa experiência.
IHU – Quais saberes femininos tradicionais sobre parto e nascimento você identificou ao longo da pesquisa? Quais deles poderiam ser resgatados pelas mulheres contemporâneas?
Thayane Cazallas do Nascimento – Os saberes femininos tradicionais sobre parto e nascimento, na verdade, estão vinculados a um apagamento da totalidade do que é considerado conhecimento. Em primeiro lugar, trata-se de um conhecimento advindo do sentir, especialmente nesse momento da gestação. Em um segundo momento, observa-se como esse conhecimento feminino foi deturpado, reduzido à compreensão de que serviria apenas para a reprodução, novamente sem a devida escuta da voz da mulher.
Em um terceiro momento, o conhecimento das parteiras, ao longo da história da parteria, foi sendo subjugado por uma interpretação de saber ultrapassado, considerado substituível pela obstetrícia. Na verdade, trata-se de conhecimentos que operam em ordens distintas. Ainda hoje, continuam nascendo parteiras tradicionais, que adquirem saberes, aprendizagens e formações pedagógicas de geração em geração, por meio da ancestralidade e da comunidade, no modo de realizar partos. Atualmente, essa discussão já avança no sentido do reconhecimento da atuação das parteiras tradicionais em diferentes partes do mundo.
Em 2024, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu o “Ofício, Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais do Brasil” como patrimônio cultural nacional, registrado no Livro dos Saberes. Esse reconhecimento valoriza o conhecimento ancestral. Ou seja, quando realizei o trabalho de pesquisa entre 2014 e 2018, na área da educação, foi justamente por reconhecer essa pedagogia ancestral, sendo este um dos primeiros estudos nesse campo.
Os saberes que podem ser resgatados dizem respeito à descoberta dos potenciais do corpo feminino, muitos dos quais foram sendo apagados ao longo da própria história da medicina. Acrescento, após sete anos, o estudo de Casilda Rodrigáñez Bustos, que afirma que:“toda essa educação que acontece ao longo da socialização das meninas é o que faz com que, há séculos, os úteros sejam espásticos e que o parto seja realizado com dor. Isso contribuiu para a redução da escuta sobre o que se sente na gestação, levando à anulação das possibilidades e vontades de viver o parto para além da via da intervenção cesariana quando esta não é necessária, desapropriando o poder e o direito de escolha da mulher.
IHU – Quais são os pressupostos educativos e filosóficos que fundamentam a mentalidade predominante sobre o parto e o nascimento na atualidade?
Thayane Cazallas do Nascimento – Dentro da educação, podemos pensar em René Descartes como aquele que nos direcionou a compreender o corpo a partir da perspectiva da máquina. No contexto do parto, isso leva à ideia de que o nascimento é um processo técnico que pode (e deve) ser controlado, monitorado e corrigido. Assim, intervenções médicas passam a ser vistas como naturais e necessárias.
As origens do modelo médico de assistência ao parto, construído na modernidade, podem ser pensadas a partir de dois aspectos: o fato de que a medicina iluminista apresentou o corpo como máquina e o médico como o mecânico; e o reconhecimento de que o modelo de produção fabril passou a ser aplicado à assistência e à gestante, fazendo com que metáforas de tempo e movimento fossem usadas tanto para descrever o “trabalho de parto” quanto para organizar sua assistência. Na percepção do corpo como máquina, o principal objeto do obstetra tornou-se o útero e o seu “produto”.
O termo “tecnologização da vida”, trabalhado pela antropóloga e ativista pelo parto natural Robbie Davis-Floyd, permite analisar como a tecnologia, quando distanciada dos sentidos da vida e de suas simbologias, e mais próxima da mecanização, transfigura e limita as descobertas da própria tecnologia em prol do bem comum, tornando-se, então, inapropriada, limitadora, violenta e elitista.
IHU – Na pesquisa, você destaca as diferentes formas de parto, desde o parto medicalizado até o parto do espetáculo. A forma como as mulheres dão à luz atualmente reflete que tipo de sociedade e cultura?
Thayane Cazallas do Nascimento – O corpo feminino é frequentemente interpretado a partir de parâmetros técnicos, e o parto se transforma em um procedimento. Por outro lado, é preciso ter cuidado com os discursos sobre os modelos de parto para não transformá-los em uma forma de elitização do parto ou na ideia de que exista um único parto ideal. Fotografias e vídeos geram um consumo da ideia de parto ideal, o que não é uma realidade unânime.
Existem muitas formas pelas quais as mulheres dão à luz no Brasil, em diferentes classes sociais, regiões e localidades, o que também implica experiências distintas de acesso, além de diferentes níveis de conhecimento sobre o próprio corpo e sobre o parto.
Acredito que nossa sociedade e nossa cultura refletem uma diversidade de interpretações sobre o parto, mas apenas uma delas é compreendida como modelo desejado, justamente porque as outras acabam sendo invisibilizadas. Esse modelo dominante é centrado no hospital. Se ele nos representa, então somos uma sociedade marcada por um pensamento tecnocrático, como se o nascimento fosse um evento médico, mas ele não é.
IHU – Quais as diferenças entre o parto humanizado, o parto tradicional e o parto na tradição?
Thayane Cazallas do Nascimento – Vou começar pelo parto na tradição, que é uma categoria criada para dar conta de explicar essa cosmovisão presente na pesquisa, ao identificar o conhecimento que estava sendo transmitido de uma parteira tradicional para as demais parteiras aprendizes. Nesse caso, reconhece-se que a parteira tradicional também é geradora dos saberes que transmite. Assim, se uma parteira aprendiz aprendeu “na tradição” com determinada parteira tradicional, ela desenvolve seus saberes a partir dessa referência. É como quando mencionamos que aprendemos com um professor que desenvolveu uma linha de pensamento e é reconhecido por isso. Essa foi a mesma ideia que orientou a criação dessa categoria.
O parto que ocorre com a parteira tradicional está embasado no conhecimento ancestral da tradição do parto e do nascimento. Ele se dá pelo entendimento da condução do corpo da mulher por meio de técnicas e tecnologias das práticas utilizadas pelas parteiras, as quais aprenderam com outras parteiras, em um processo de transmissão de conhecimentos de geração em geração.
A prática da parteria tradicional está centrada no parto vaginal e natural, sustentada pela vivência de saberes empíricos, e está presente em todo o Brasil e no mundo. Nesse contexto, a parteira é a profissional central, podendo atuar individualmente ou em equipe, com outras parteiras e doulas. Pode realizar atendimentos em casas de parto ou em espaços domiciliares.
O parto humanizado é um modelo de assistência ao parto que surge como uma alternativa crítica aos partos “mecanizados”, ou seja, aqueles marcados por intervenções cirúrgicas excessivas. Ele emerge a partir das críticas aos altos índices de cesarianas e intervenções desnecessárias. O parto humanizado mantém a presença do/a profissional médico/a, podendo ser composto por uma equipe multiprofissional, e pode ocorrer em casas de parto especializadas, não estando necessariamente centrado no ambiente hospitalar, embora muitas vezes ainda esteja vinculado a ele.
Acredito que é possível compreender melhor a profundidade desta discussão na leitura do livro, de modo a captar, enquanto leitor e leitora, as nuanças das diferenças e possibilidades de pensar essa temática.
IHU – Hoje, mulheres exercem o ofício da parteira médico-hospitalar. Como surgiu essa prática e em que ela se diferencia da parteira tradicional?
Thayane Cazallas do Nascimento – Nesta referência ao nascimento pela intervenção da cesariana, ressalta-se o surgimento da profissão dos cirurgiões, provavelmente na sociedade greco-romana. Posteriormente, com o desenvolvimento da noção moderna de medicina, a cesariana tornou-se o modelo padrão de salvamento da mãe e do bebê em casos de risco. Entretanto, interessa ressaltar que nesse processo, aos poucos, se estabeleceu o predomínio paradigmático da figura do médico como salvador, ao mesmo tempo que o domínio do ofício pelas parteiras foi colocado à margem da razão científica.
A partir do estabelecimento da moderna medicina, especialmente entre os séculos XVIII e XX, esses instrumentos e saberes foram sendo substituídos pelo olhar masculino que passou a ditar o conhecimento sobre os corpos e sobre o funcionamento dos órgãos e da sexualidade feminina. Ocorreu, assim, a desqualificação do papel e dos procedimentos das parteiras. Como aponta Ana Paula Vosne Martins, essa disputa de espaços se valeu, entre outras estratégias, de acusações de incompetência, de controle e da usurpação de práticas da cultura feminina pela corporação médica.
Nesta continuidade, a pesquisa destaca a importância de não romantizar o papel da parteira tradicional neste tempo. Médicos e parteiras, dentro deste contexto, poderiam ser nocivos a parturientes. É importante entender essa localização na história e, dentro deste contexto, apontar que talvez estejamos em um dos melhores momentos nesta configuração, que é o respaldo de uma ciência em favor do atendimento às parturientes dentro do seu quadro de interesses e necessidades, assim como o do conhecimento das parteiras na sociedade contemporânea. Ambos, dentro de seus limites e possibilidades, prestam um trabalho que poderá beneficiar as duas atividades.
IHU – Qual é a importância das parteiras tradicionais? Por que é relevante valorizar e preservar esse ofício hoje? Quais conhecimentos e práticas delas poderiam ser recuperados e mantidos?
Thayane Cazallas do Nascimento – As parteiras tradicionais, reconhecidas como patrimônio do saber da humanidade, já indicam por si só a existência de um campo de valorização social em crescimento, impulsionado pelo trabalho de pesquisadoras e pesquisadores, assim como por processos de organização política das próprias parteiras. No entanto, é preciso avançar ainda mais.
O reconhecimento da profissão e a compreensão dessa transição de valorização do papel social são fundamentais. É necessário manter suas características de sistematização do conhecimento pela tradição oral, pautadas em saberes ancestrais transmitidos de parteira para parteira, de geração em geração, e respaldados por práticas empíricas e pelo reconhecimento dentro de suas comunidades. Ou seja, trata-se de um conhecimento legítimo.
Dessa forma, busca-se manter e ressignificar esse lugar, de modo que ele também garanta direitos sociais e de cidadania, como o acesso à aposentadoria pelo trabalho de atendimento comunitário, sem que, para isso, seja necessária a validação exclusiva do seu trabalho por meio da certificação do conhecimento científico biomédico.
Essas mulheres são rurais, indígenas, ribeirinhas e urbanas. Trata-se de uma identidade multicultural, multietária e étnica, o que exige atenção e distanciamento de leituras generalizantes. É preciso pesquisa científica e muita escuta.
IHU – Quais fatores explicam as altas taxas de cesáreas no Brasil? Qual é o panorama atual da discussão sobre o parto hospitalar e quais os pontos negativos e positivos desse modelo?
Thayane Cazallas do Nascimento – O modelo baseado na intervenção cirúrgica da cesárea, segundo os últimos dados da minha pesquisa, continua muito alto, equivalendo a cerca de 60% dos partos em 2025, quando comparado aos partos normais via vaginal. A pesquisadora Cristine Benetti afirma que é preciso educar a sociedade para os benefícios do parto normal, e nesse ponto eu concordo. No entanto, insisto em uma ideia que considero central na minha argumentação: a necessidade de que esse conhecimento se torne um saber comum a todos.
Como cientista social, identifico um problema em nossa cultura, fortemente atrelado ao modelo do tempo, conceito desenvolvido pelo sociólogo alemão Norbert Elias, ao compreender o tempo como um símbolo social e relacional. Tomando essa perspectiva conceitual, o parto e o nascimento passam a ser entendidos como eventos que foram fragmentados para caber no tempo da organização das rotinas hospitalares e da prática médica cirúrgica, demarcadas por uma agenda institucional.
Nesse sentido, o que é considerado “natural” tende a fugir desse roteiro – o que colocaria em risco o controle organizativo do tempo. É preciso, portanto, repensar a concepção de tempo, os ritos e as ritualísticas na sociedade, assim como as prioridades que definimos como fundamentais para nossas vidas.
Também é importante compreender que um evento que demanda tempo passa a ser visto como algo “antagonicamente natural” dentro de um modelo com tantas intervenções cirúrgicas. No entanto, essas intervenções são hoje consideradas boas, aceitáveis e, de fato, em muitos contextos são necessárias. Fomos, enquanto sociedade, convencidos de que esse é o melhor caminho, quando, na verdade, naturalizamos uma prática que deveria ser exceção.
IHU – A cultura do parto e do nascimento que você advoga é compatível com a sociedade urbana contemporânea?
Thayane Cazallas do Nascimento – Sim, ela é, porque as parteiras estão presentes em espaços urbanos no Rio Grande do Sul e em nossa vizinhança, em Santa Catarina, podendo-se pensar na dimensão do mapa do Brasil tanto em contextos urbanos quanto rurais. Inclusive, recentemente houve uma conquista importante com a assinatura da Declaração de Nascido Vivo (DNV), cuja emissão historicamente enfrentava grande recusa quando realizada por parteiras. Muitas vezes, havia dificuldades no processo de assinatura, mesmo existindo um campo específico para “parteira” na marcação do documento. Isso revela um preconceito significativo e reforça a necessidade de ampliar e popularizar a discussão sobre as parteiras tradicionais.
A sociedade está mudando, e as parteiras tradicionais vêm se organizando em movimentos sociais, destacando-se recentemente a Associação do Movimento de Parteiras Tradicionais do Brasil (AMPTB). Considero importante localizar essa dimensão política, pois ela contribui para a leitura sociológica do tema.
Entende-se por parteira urbana uma categoria que também surgiu neste trabalho, já que, como ressaltei, não existiam categorias prontas na literatura. Há muitos trabalhos na área da saúde coletiva e alguns na antropologia, mas esses tratavam de temas dentro de seus próprios escopos disciplinares e não dialogavam diretamente com a minha pesquisa. Muitas dessas referências foram, ainda assim, consideradas e incorporadas, pois permitiram a construção de uma costura argumentativa.
Em 2018, concluí que a categoria de parteira urbana contemporânea seria uma forma de localizar tempo e espaço. Trouxe essa figura para romper com o imaginário social que restringe a parteira ao ambiente rural, distante e isolado, associada à imagem de uma mulher idosa, exclusivamente dedicada ao cuidado e sem vida pessoal. A pesquisa foi realizada com parteiras jovens e atuantes naquele período.
Atualmente, já se modifica a compreensão de “ofício”, uma vez que há uma luta política pela profissionalização, envolvendo debates entre regulamentação e reconhecimento. Essas perspectivas são distintas, pois se trata de um trabalho inserido em uma cosmopolítica que busca respeitar a parteira tradicional e seus saberes, sem desconsiderar sua formação baseada no reconhecimento comunitário e no trabalho empírico transmitido de geração em geração.
IHU – Qual é a importância de estudar o parto e o nascimento à luz da educação? Que contribuições essa área do conhecimento oferece para rediscutir a prática obstétrica na sociedade atual?
Thayane Cazallas do Nascimento – O mundo está passando por fortes transformações políticas e sociais, e a vida social também passará por mudanças no olhar sobre o nascimento e o parto, pois se trata de ritos centrais da história humana. Não podemos esquecer que um dos grandes filósofos da humanidade, Sócrates, era filho de uma parteira, Fenarete, e dizia que não depositava conhecimento nas pessoas, mas as ajudava a dar à luz suas próprias ideias.
Gosto de pensar que esse campo, ainda pouco explorado, pode se transformar. Ele é um sintoma da nossa capacidade de imaginação. Precisamos de boas ideias nascentes mais do que nunca. Se formos reflexivos, podemos transformar muitas percepções e reconsiderar o que estamos fazendo com aquilo que chamamos de conhecimento humano, tecnologias, meio ambiente e relações sociais. Como esquecer de “O conto da aia”, de Margaret Atwood?!
De um lado, precisamos sempre ter em mente o presente, assim como as distopias. As discussões sobre políticas públicas e direitos sexuais e reprodutivos também devem incluir os riscos de discursos sobre parto e nascimento, pois essas categorias permanecem como categorias flutuantes no campo da reprodução. Por isso, é necessário cuidado para não cairmos em discursos fundamentalistas do pensamento.
Devemos estar atentos às disputas em torno do controle dos corpos das mulheres, assim como dos corpos que gestam. Os discursos estão em constante disputa, e tenho sempre em mente como ainda nos falta uma leitura sociológica mais consistente sobre a importância da educação como sistematização do conhecimento. É pela compreensão da educação que o coletivo e os grupos sociais podem apreender processos de conhecimento, ou seja, o que produzimos como aprendizagens que se tornam pontes possíveis de serem entendidas como pedagogias do saber.
A contribuição da educação como área do conhecimento realiza essa ponte sobre como estamos construindo conhecimento, argumentação e curiosidade em torno de um dos ritos fundamentais da vida. Não sei se isso se aplica especificamente à obstetrícia, campo em que Michel Odent, médico obstetra, trouxe contribuições importantes ao discutir com rigor científico a “industrialização do parto”, mas talvez se trate de ampliar nossa consciência nesses períodos de transição.
Ao desenvolver essa investigação sobre partos e nascimentos em um programa de pós-graduação em educação, estive consciente de que, além de um “tema novo”, eu também estava lidando com uma problemática que colocava em tensão certos limites temáticos, saberes e conhecimentos, contribuindo, assim, para o debate sobre o que é educação.
Ao responder muitas vezes à pergunta “por que na educação?”, em vez de “para que serve este saber?”, apoiei-me nas considerações de Elaine Müller, Laís Rodrigues e Camila Pimentel, publicadas no artigo “O tabu do parto: dilemas e interdições de um campo ainda em construção”, o que me trouxe, pelas palavras, todos os abraços necessários. Agora, devolvo para a sociedade essa mesma perspectiva.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Thayane Cazallas do Nascimento – O livro “Cosmologias dos Nascimentos” foi publicado em 2025 pela editora independente Folha Editora, sediada em São Paulo. Agradeço à minha editora Flávia Renata Quintanilha.
O trabalho de divulgação foi bastante artesanal, como uma escolha pessoal. A pré-venda esgotou-se em um tempo recorde. O livro já está em sua terceira reimpressão e pode ser adquirido pelo site da Folha Editora.
Compreendo esse trabalho como um retorno social fundamental, realizado durante o período em que fui bolsista de excelência acadêmica CNPq (2014-2018) pela casa Unisinos, e como um agradecimento sempre especial às parteiras, pesquisadoras e incentivadoras de quem vive e produz pesquisa nesta área de conhecimento.