Última chamada para uma vida verdadeiramente humana. A educação ética deve ser introduzida na escola. Artigo de Vito Mancuso

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07 Outubro 2022

 

"Já em 1979 ciente da iminente crise ecológica que agora está à vista de todos, Hans Jonas, um filósofo judeu formado de formação alemã, reescreveu o imperativo categórico kantiano em termos de 'princípio da responsabilidade' através desta fórmula sintética: 'Age para que as consequências de sua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana na terra'. É esta, de fato, a aposta que está em jogo: uma autêntica vida humana”, escreve o teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele de Milão e da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 06-10-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O texto de Vito Mancuso que antecipa os temas do diálogo que o teólogo terá com Gustavo Zagrebelsky no "Planeta Terra Festival". O encontro, intitulado A terra é um empréstimo a ser restituído aos nossos filhos, acontece nesta quinta-feira às 19h na Igreja de San Francesco em Lucca, com Simonetta Fiori. O "Planeta Terra Festival" é o novo evento dedicado à sustentabilidade e ao meio ambiente, idealizado pela Laterza e organizado por Stefano Mancuso, realizado em Lucca até 9 de outubro com 70 eventos e 150 palestrantes. Entre os convidados: Raj Patel, Esther Duflo com Enrico Giovannini, Francesca Bria, Eduardo Kohn, Barbara Mazzolai, Giovanni Soldini e Hervé Barmasse, Paolo Cognetti, Carlo Carraro. O diálogo entre Mancuso e Zagrebelsky também é transmitido por streaming. Os encontros são gratuitos. Informações podem ser acessadas aqui.

 

Eis o artigo.

 

Os numerosos males de que sofre nossa civilização são de tal gravidade que geram desânimo e levam a considerar o nosso declínio inevitável. Penso, no entanto, que seja necessário reagir a essa resignação questionando-se sobre a possível terapia. Existe uma? Refletindo bastante, cheguei à conclusão de que só pode surgir de uma educação capilar voltada a valorizar a nossa essência específica de seres pensantes. Então é preciso fazer isto: reprogramar totalmente a oferta de formação da nossa sociedade (do jardim de infância à universidade) em função "educacional". Hoje, ao contrário, as escolas muitas vezes dão às crianças coisas que elas não precisam e desconsideram os instrumentos vitais para o conhecimento de si de que temos extrema necessidade: é como se a um sedento no deserto em vez de água se desse uma bússola. Mas qual é essa "nossa essência" específica na qual focar a educação?

 

Todos lembramos destes versos de Dante: “Considerais a vossa origem, feitos não fostes para viver como brutos, mas para seguir virtude e conhecimento”" (Inferno, XXVI, 118-120). Nossa essência específica é a harmonia do conhecimento e da virtude. O conhecimento é a força da inteligência orientada para a precisão e à verdade; a virtude é a força da vontade orientada para o bem e a justiça. O conhecimento produz capacidade de agir e progresso, pelo uso responsável do conhecimento. Aliás, penso que se possa chamá-lo exatamente assim: "responsabilidade", termo mais eficaz hoje do que virtude. Conhecimento e responsabilidade, portanto: eis aqui a nossa essência específica sobre a qual alicerçar a oferta de formação e gerar consciências morais vigilantes, capazes de não sucumbir diante dos males do tempo e salvar "o humano no homem" (como diria Vasily Grossman).

 

O conhecimento procede do intelecto, a responsabilidade da vontade. Intelecto e vontade são faculdades estruturais do nosso ser. Temos uma terceira, o sentimento, cuja produção se chama amor e amizade. A harmonia entre nossas três faculdades de intelecto, vontade e sentimento é essencial, e na sua ausência ocorrem desequilíbrios e mal-estar. A prevalência do intelecto produz intelectualismo, descrito por Tagore dizendo que “uma mente toda lógica é uma faca toda lâmina: faz sangrar a mão que a segura”. A prevalência da vontade produz voluntarismo, esforço cego e em última análise, prejudicial, enquanto a prevalência do sentimento produz sentimentalismo, exagero pouco ajuizado e pouco consciente da afetividade. É necessário, portanto, saber compor em harmonia as nossas três faculdades estruturais, mas existe uma educação a esse respeito?

 

Temo que hoje nossas escolas se preocupem apenas com o conhecimento e negligenciem a educação da responsabilidade e do sentimento. O resultado não é muito animador: uma baixa consciência ética e um sentimento muitas vezes irracional e instável. A consequência geral é que nosso tempo possui vasto conhecimento como nunca antes na história, mas exibe bem pouca responsabilidade na forma de senso ético e cuidado com a "coisa pública" (que em latim é chamada res publica, da qual república). No entanto, há uma necessidade urgente de responsabilidade, mais do que em outras épocas, visto as potencialidades tecnológicas que advém do conhecimento.

 

A questão decisiva, portanto, é: como aumentar o senso de responsabilidade? Trata-se de um uma questão de forte valor político, porque a "res publica" vive do sentido de responsabilidade dos seus cidadãos.

 

Pode-se responder de maneira bastante diferente evocando soluções políticas (a revolução ou vice-versa a restauração), religiosas (a conversão), tecnológicas (o advento do pós-humano e a domesticação da liberdade) e outras ainda. Eu respondo indicando a educação sistemática para a responsabilidade. Como? Por meio de um programa de educação ética em que o conhecimento seja sempre ligado à responsabilidade: "virtude e conhecimento", justamente. Em termos concretos: mais filosofia (não história da filosofia, mas filosofia, isto é, não tantos autores, mas sim temas) e mais ética. Qual ética?

 

A ética universal, aquela comum a todas as grandes filosofias e espiritualidades do passado, tão bem ilustrada pelo projeto Weltethos ("ética mundial") inaugurado pelo teólogo suíço Hans Küng e levado adiante em muitos países europeus pela relativa fundação (weltethos.org). E isso já a partir do jardim de infância até à universidade para todas as faculdades, porque todos precisam de uma formação ética permanente e específica. De fato, sem ética se não pode realmente ser um bom médico, advogado, executivo de empresa ou físico atômico.

 

Do jardim de infância à universidade, a formação ética deve ser o fio condutor que acompanha o percurso formativo. Na minha opinião, esta é a condição indispensável se quisermos salvar-nos dos males que pairam sobre o nosso futuro.

 

Hoje, no entanto, se faz exatamente o contrário: se fornece apenas instrução (a bússola) e se desconsidera completamente a educação (a água). Qual é a diferença entre instrução e educação? Para compreendê-lo, basta considerar os dois verbos. Instruir vem do latim "instruere" que significa "preparar para", formado pela preposição "in" e do verbo "struere" que significa "construir", do qual instrumento, estrutura, constructo, construção, indústria. O verbo educar vem do latim educere, que significa "conduzir para fora", formado pela preposição "e" (fora de) e ducere,"conduzir". A instrução é mais fácil que a educação porque pressupõe sujeitos equiparados a caixas vazias a serem preenchidas, enquanto a educação pressupõe que aqueles a quem nos dirigimos tenham "algo" dentro de si, um centro que deve ser despertado e trazido à luz, de forma que a ação educativa equivale a uma espécie de despertar.

 

É natural pensar em Sócrates e sua pedagogia chamada "maiêutica", a arte do parto, o ofício da mãe Fenarete: como na gestante há uma criança a ser trazida à luz, assim em cada um de nós há uma dimensão a ser despertada, e a educação consiste nisso. A diferença é notável: ao receber educação a pessoa se torna um instrumento a serviço de uma estrutura (hospital, empresa, laboratório, etc.); recebendo educação, a pessoa se torna ela mesma. E assim se cumpre o antigo preceito délfico “conhece-te a ti mesmo”, obtendo a arte de viver e a consequente sabedoria para agir.

 

Hoje, porém, o conceito de educação está reduzido às boas maneiras e, portanto, a parte mais importante de um ser humano, ou seja, a consciência moral, permanece desprovida de cuidados. E a educação cívica por si só não é suficiente, porque nós, antes de sermos cidadãos, somos seres livres e pensantes e, portanto, antes de educar a consciência civil devemos educar a consciência moral. É de fato aqui que reside a identidade mais autêntica e o valor de um ser humano: a pessoa pode nascer mais ou menos dotada de inteligência, de sensibilidade estética, de riqueza ou do que quer que seja, não é mérito nem demérito dela. O mérito se obtém com o uso responsável das qualidades que a natureza nos deu. E quando esse uso é finalizado ao interesse da "res publica" ou "bem comum" temos a ética.

 

Para que haja ética é preciso que haja a percepção de algo mais importante do que o próprio interesse pessoal: como a voz do daimonion que Sócrates ouvia dentro de si e que lhe ordenava o que não fazer; como a voz divina que Moisés no Sinai ouviu dentro de si e que o levou a escrever as tábuas da lei com os dez mandamentos; como o imperativo categórico de Kant que reza: “Age de tal forma que uses a humanidade tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo, como fim e nunca como meio”.

 

Já em 1979 ciente da iminente crise ecológica que agora está à vista de todos, Hans Jonas, um filósofo judeu formado de formação alemã, reescreveu o imperativo categórico kantiano em termos de "princípio da responsabilidade" através desta fórmula sintética: “Age para que as consequências de sua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana na terra”. É esta, de fato, a aposta que está em jogo: uma autêntica vida humana. Ninguém pode garanti-la para nós, muito menos dá-la a nós de presente: é preciso trabalhar para merecê-la. E o trabalho a respeito se chama educação. Especificamente, educação ética. Acho que é a última chamada para uma autêntica vida humana sobre a Terra.

 

 

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