18 Abril 2026
“Entramos em uma espécie de nova ordem mundial na educação. Agora, cientistas de alto nível migram para a China, da mesma forma como antes migravam para os Estados Unidos”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 17-04-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Por vezes, não conseguimos compreender a dimensão das mudanças em curso. Um bom caminho para observá-las pode ser nos concentrarmos em casos concretos, até mesmo exemplares. Um deles nos é oferecido pelos novos rankings mundiais das universidades, que sempre foram dominados pelo Ocidente.
Há apenas duas décadas, o ranking mundial de universidades baseado na produção científica e em artigos publicados em revistas especializadas mostrava que sete universidades dos Estados Unidos estavam entre as 10 melhores do mundo. Obviamente, a primeira era a Universidade Harvard. Naqueles anos, apenas uma instituição chinesa, a Universidade de Zhejiang, conseguiu entrar no top 25 (The New York Times, 15-01-2026).
Em um período muito curto, pouco mais de um quarto de século, assistimos a um verdadeiro tsunami, uma reviravolta que não deixou nada em seu lugar. Hoje, oito das dez melhores universidades do mundo são chinesas, uma é canadense e uma é dos Estados Unidos. A icônica Harvard caiu para o terceiro lugar, ao passo que a Zhejiang agora ocupa o primeiro.
Sem dúvida, as universidades estadunidenses seguem produzindo uma grande quantidade de pesquisas, mas a mudança está em que as universidades chinesas agora produzem em velocidade maior. As seis universidades estadunidenses que estavam entre as mais importantes nos anos 2000 (Universidade de Michigan, Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Universidade Johns Hopkins, Universidade de Washington, em Seattle, Universidade da Pensilvânia e Universidade Stanford) produzem mais pesquisas do que há duas décadas, apesar de terem sido ultrapassadas pelas chinesas.
Segundo todos os analistas, está chegando do país asiático uma quantidade e qualidade de artigos acadêmicos excepcionais, ofuscando a produção dos Estados Unidos. Uma das razões mais notáveis para esta mudança é que a China investiu bilhões de dólares em suas universidades e se esforça para torná-las atraentes para pesquisadores estrangeiros. Ao contrário, o governo de Donald Trump vem cortando grandes quantias em subsídios à pesquisa universitária como forma de reduzir o significativo déficit do Estado.
Além disso, a ofensiva contra migrantes fez muitos estrangeiros, mas também estadunidenses, deixarem o país, principalmente rumo à Europa. Este ano, a chegada de estudantes estrangeiros aos Estados Unidos caiu 19%, levando alguns centros de estudo entrar em crise. Segundo a Bloomberg, a queda no número de estudantes futuros fará 370 universidades privadas fechar ou se fundir com outra instituição, na próxima década.
Junto a isto, outras 430 instituições, com 1,2 milhão de estudantes, enfrentam “ameaças existenciais moderadas”, além do fechamento de 114 universidades privadas sem fins lucrativos, entre 2010 e 2020, quase o dobro que na década anterior. Os estudantes concluem seus cursos endividados e suas famílias precisam ampará-los contraindo dívidas.
A matrícula, o alojamento e a manutenção em uma universidade privada, por quatro anos, custaram, em média, 56 mil dólares no período 2023-2024, enquanto nas universidades públicas foi de apenas 24 mil dólares. De qualquer modo, as classes médias têm cada vez mais dificuldades para arcar com seus gastos, quando se registra uma expressiva estagnação dos salários no mercado trabalhista.
Esta é uma das razões de 26% dos estudantes universitários considerarem seriamente abandonar a universidade ou enfrentarem o risco de abandoná-la.
Entramos em uma espécie de nova ordem mundial na educação. Agora, cientistas de alto nível migram para a China, da mesma forma como antes migravam para os Estados Unidos. Há muitos exemplos. Jiang Jianfeng, um dos cientistas de destaque, com apenas 30 anos, deixou o renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e retornou à Universidade de Pequim para atuar como pesquisador principal e orientador de doutorado. O gênio da matemática Daqing Wan, vencedor do prêmio de matemática chinês mais importante, saiu da Universidade da Califórnia, em julho, e retornou ao seu país para assumir sua nova função.
Casos como esses são muito comuns, mas também entre cientistas ocidentais que decidem se mudar para a China e outros países. Desde 2018, por ano, de 70 a 100 cientistas chineses e sino-estadunidenses renomados deixaram os Estados Unidos. Em geral, o aumento histórico de estadunidenses que vão para o exterior ocorre por motivos de segurança, custo de vida, educação e saúde.
O mundo mudou, e esses dados são apenas uma amostra. No entanto, nós que não acreditamos que as mudanças necessárias virão de cima, dos Estados, não podemos ignorar o tamanho das transformações, pois de um modo ou de outro nos afetam.
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