Os povos e as guerras. Artigo de Raúl Zibechi

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07 Abril 2026

“Não há nada como aprender com os povos, seguindo seus passos e deixando que a vida coletiva faça seu trabalho ao transmutar a dor em esperança”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 03-04-2026. A tradução é do Cepat.

Segundo ele, "ser revolucionário, como já mencionado pelo Capitão Marcos, é ser um profissional da captura do poder estatal. 'Um revolucionário se propõe fundamentalmente a transformar as coisas a partir de cima, não de baixo, o oposto do rebelde social'. Algo duro de aceitar. Mas por acaso não é a lógica da rebeldia social que vem sendo praticada pelos povos indígenas, negros e camponeses neste continente, quando se organizam de baixo, transformando seu mundo, sem pensar na tomada do Estado?"

Eis o artigo.

Na tradição dos movimentos revolucionários, havia uma diferenciação entre as guerras de Estados e as guerras contra as classes e povos oprimidos. Essa foi a posição daqueles que se negaram a apoiar o esforço de guerra demandado pelas burguesias, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), entre as Potências Centrais (impérios austro-húngaro, alemão e otomano) e os Aliados (França, Rússia, Itália, Reino Unido, Estados Unidos e outras nações ocidentais).

Lenin e Trotsky ficaram sozinhos com alguns internacionalistas (dizia-se que todos cabiam em dois táxis), enquanto o grosso do movimento socialista, agrupado na Segunda Internacional, derrapou no apoio aos créditos para a guerra. Diante dessa traição, porque esta corrente havia garantido que jamais apoiaria a guerra, o movimento se fragmentou e enfraqueceu enormemente. Somente o ativismo dos operários e camponeses russos, e depois de outros países, conseguiu colocar as coisas em seu lugar.

Para isso, porém, mais de 20 milhões de pessoas tiveram que morrer, amontoadas em trincheiras insalubres sob o comando de oficiais implacáveis e cruéis. A rebelião dos trabalhadores forçados a ir à guerra foi fundamental tanto para o triunfo da Revolução Russa quanto para o extenso movimento que atravessou o continente europeu exigindo a paz imediata.

Os bolcheviques foram o epicentro da rejeição à guerra, a partir da defesa do movimento operário e camponês. Uma vez no poder, assinaram a paz (Brest-Litovsk), impopular porque a Rússia perdia territórios, mas necessária para pôr fim ao massacre e cumprir as promessas daqueles que chegaram ao Palácio de Inverno com os lemas “Paz, terra e pão”.

Na Segunda Guerra, eclodida em 1939, não se seguiram os mesmos padrões, pois desde a Revolução Russa, a Terceira Internacional promovia a “defesa da pátria soviética” contra a agressão nazista ou qualquer inimigo externo ou interno. A defesa da URSS foi sinônimo da defesa de um Estado que assassinou milhões de camponeses e centenas de milhares de operários comunistas. Com os padrões atuais, deveríamos dizer que foi um Estado genocida.

Essa profunda guinada teve consequências duradouras para os movimentos revolucionários, até os dias atuais. Uma delas é a dificuldade de diferenciar povos de governos ou Estados. A defesa dos povos é um princípio básico para qualquer pessoa que se considere de esquerda, mas, agora, essas categorias estão metidas em uma espécie de salada que mistura tudo.

Sempre defendemos o povo vietnamita agredido pelo imperialismo ianque com a mesma ênfase que apoiamos o povo cubano e o ucraniano, agredidos por suas respectivas potências imperialistas. A partir daí, a esquerda e o pensamento crítico oficial refinaram argumentos dizendo que os Estados Unidos não são o mesmo que a Rússia ou a China, afirmando que não são imperialistas ou, ao menos, não são inimigas como os ianques.

Podemos dizer que as “revoluções triunfantes” limaram as arestas mais afiadas do pensamento crítico até o tornar irreconhecível por seu afã estatista. As ondas de mobilização popular vêm colidindo com os Estados e governos progressistas, como demonstram as impressionantes revoltas no Chile, Equador e Colômbia, desde 2019. A energia coletiva dos povos está sendo neutralizada pelos governos e partidos que trabalham para fortalecer seus estados-nação.

O dano provocado pela guinada do poder soviético em direção à defesa do Estado é tão profundo e duradouro que o imaginário rebelde popular não consegue mais conceber um horizonte para além das instituições que o oprimem. Neste ponto, as revoluções posteriores à russa não conseguiram mudar sua atitude em relação ao Estado, e quando triunfavam, repetiam, mais ou menos, os mesmos argumentos dos bolcheviques.

Alguém poderia contestar, questionando se não é necessário defender governos e Estados que se dizem revolucionários. Entendo que se trata de um debate necessário, mas quase marginal na realidade atual. Na minha opinião, não existem e nem podem existir estados revolucionários porque são aparatos criados para o controle e a opressão das populações, com suas forças armadas e policiais, seu aparato de justiça e seus mecanismos de “educação” da população.

Ser revolucionário, como já mencionado pelo Capitão Marcos, é ser um profissional da captura do poder estatal. “Um revolucionário se propõe fundamentalmente a transformar as coisas a partir de cima, não de baixo, o oposto do rebelde social”. Algo duro de aceitar. Mas por acaso não é a lógica da rebeldia social que vem sendo praticada pelos povos indígenas, negros e camponeses neste continente, quando se organizam de baixo, transformando seu mundo, sem pensar na tomada do Estado?

Como sempre, não há nada como aprender com os povos, seguindo seus passos e deixando que a vida coletiva faça seu trabalho ao transmutar a dor em esperança.

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