16 Abril 2026
"Um Papa que usa as palavras do Evangelho ("a paz esteja convosco") é sempre apedrejado pelos senhores e fãs da guerra, mesmo que eles mudem. Ironicamente, os linchamentos contra Bergoglio ocorriam nos mesmos jornais que hoje se indignam com as palavras de Trump", escreve Daniela Ranieri, jornalista, em artigo publicado por il Fatto Quotidiano, 15-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Os jornais estão dando o correto destaque ao "ataque sem precedentes" de Trump contra o Papa. Nada mais fácil: foi lançado pelo mentecapto mais poderoso do mundo e consiste em uma série de acusações sem pé nem cabeça e insultos. Para Trump, Leão XIV é um "fraco" porque condenou a guerra, "a idolatria de si mesmos e do dinheiro" e "a demonstração de força". É óbvio que Trump se sentiu implicado, juntamente com seu parceiro Netanyahu, o outro criminoso que está semeando morte e destruição por todo o Oriente Médio porque, segundo ele, o Antigo Testamento lhe pede isso.
Não é verdade, porém, que se trate de um ataque "sem precedentes". Nossos novos papistas apagaram da memória o fato de que o Papa Francisco, antes de sua morte no ano passado, sofria constantemente ataques, e exatamente pelo mesmo motivo: porque pregava a paz em vez da guerra. A diferença é que, naquela época, aqueles que se ressentiam de serem julgados pelo Vigário de Cristo eram os Bons do Ocidente que se diz democrático, enquanto agora é aquela criançona maligna de Trump. Em abril de 2022, Francisco disse: "Fiquei envergonhado quando li que um grupo de estados se comprometeu a gastar 2% do seu PIB em armas, loucos!" Naquela época, o infalível Draghi estava no governo e agradeceu ao Papa Francisco fingindo não ter ficado irritado com ele (mas, dos 30 países da Otan, a Itália estava entre os 10 que haviam "se comprometido", então o círculo estava se fechando). Os jornais alinhados com Draghi relegaram a notícia à página 38, enquanto continuavam ativamente a produzir propaganda de guerra. O Tg1 o censurou diretamente.
Na Páscoa daquele ano, o escritório do Vaticano para as celebrações litúrgicas teve a ideia de fazer desfilar uma mulher russa e uma ucraniana juntas na Via Sacra, idealmente compartilhando a cruz da guerra fratricida. A primeira a se ofender foi a Embaixada da Ucrânia junto à Santa Sé (e, portanto, Zelensky): "O embaixador compartilha da preocupação geral na Ucrânia... sobre a ideia de colocar juntas mulheres ucranianas e russas", vade retro. Também entrou na fila o Arcebispo Maior da Igreja Greco-Católica Ucraniana ("uma ideia inoportuna e ambígua"). Por ter defendido uma negociação, invocando a coragem da "bandeira branca", Bergoglio foi tachado de putiniano pelos nossos artilheiros do teclado, especialmente depois de denunciar a "OTAN latindo às portas da Rússia" como a causa da guerra. Galli della Loggia, editorialista do Corriere, em artigo no Libero, classificou a posição do Papa como "pró-Rússia" sem meias palavras, além de "ambígua"; ele não tratou de ressaltar que o Papa havia falado de "massacre" e de "ato sacrílego e repugnante" por parte de Putin.
Bergoglio era tecnicamente um derrotista, se o lema do bloco patronal era nos armar até os dentes, cortando os gastos sociais e ignorando os canais diplomáticos em favor das armas. "Mas a resposta para a guerra não é outra guerra, a resposta para as armas não é mais armas", reiterava ele teimosamente. Então, os intervencionistas decidiram lhe ensinar o catecismo: no La Stampa, Mario Deaglio explicou a ele que "até o Evangelho nos exorta à autodefesa" (omitindo dizer que a Itália não havia sido atacada por ninguém). Para o Papa, a solução não era nem mesmo "mais sanções, mas uma maneira diferente de governar o mundo, deixando de mostrar os dentes: a escola de Jesus, de Gandhi, da não violência". Praticamente o Anticristo, para os soldados do Bem. Enquanto isso, no DiMartedì, a Irmã Paola e Corrado Augias esclareceram também para o idoso esquisitão que São Paulo recomenda se preparar para enfrentar o inimigo.
Em relação a Gaza, o Papa foi chamado apenas e somente de antissemita. Quando foi publicado o livro em que ele pedia à comunidade internacional para verificar se as acusações de genocídio do povo palestino feitas contra Israel por organismos internacionais eram fundamentadas, Bergoglio foi repreendido pela Embaixada de Israel junto à Santa Sé: "Chamar a autodefesa por outros nomes significa isolar o Estado judeu". O reitor da Universidade das Religiões do Irã declarou a uma agência de notícias que o Papa havia lhe dito: "Não temos problema com os judeus; nosso problema é com Netanyahu, que causou a crise na região e no mundo sem se importar com as leis internacionais e os direitos humanos". Uma declaração adamantina. Mas Netanyahu é intocável. O jornal La Stampa zombou do Papa, acusando-o de dar palanque aos aiatolás: "A posição de Bergoglio é como tantas outras; só tem valor para quem lhe atribui valor". Giuliano Ferrara o excomungou no jornal Il Foglio: "Ele ultrapassou todas as linhas vermelhas, e de forma equivocada".
Resumindo: como se pode ver, não faltam precedentes. Um Papa que usa as palavras do Evangelho ("a paz esteja convosco") é sempre apedrejado pelos senhores e fãs da guerra, mesmo que eles mudem. Ironicamente, os linchamentos contra Bergoglio ocorriam nos mesmos jornais que hoje se indignam com as palavras de Trump.
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