O desafio cristão entre o Papa e o presidente. Artigo de Lucio Caracciolo

Foto: Shealah Craighead/ The White House

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13 Abril 2026

"Jesus Cristo fundou os Estados Unidos e Donald Trump é seu vigário. No cerne do nacionalismo cristão que impulsiona uma influente corrente de pensamento alinhada ao dono da Casa Branca está o sonho de elevar os Estados Unidos à Terra Prometida".

O artigo é de Lucio Caracciolo,  jornalista e analista geopolítico italiano, publicado por La Repubblica, 12-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, "essa é a raiz do conflito entre Washington e a Santa Sé, que culminou em janeiro passado com a convocação do então Núncio Apostólico, Cardeal Christophe Pierre, ao Pentágono. Um evento sem precedentes". 

Eis o artigo.

Jesus Cristo fundou os Estados Unidos e Donald Trump é seu vigário. No cerne do nacionalismo cristão que impulsiona uma influente corrente de pensamento alinhada ao dono da Casa Branca está o sonho de elevar os Estados Unidos à Terra Prometida. Identificar os brancos cristãos anglo-saxões e germânicos como povo escolhido.

Para reconstruir suas instituições com base em uma leitura fundamentalista da Bíblia. A foto de Trump com brancas vestes papais, divulgada pelo presidente durante a sede vacante entre Francisco e Leão, era a imagem dessa ideia. Assim como a bandeira "Apelo ao Céu", exibida nos últimos anos por proeminentes autoridades das instituições estadunidenses — entre os quais o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e o juiz da Suprema Corte, Samuel Alito — é a bandeira dos adversários da separação entre Igreja e Estado, que conta com alguns dos participantes do ataque à Casa Branca na tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021.

Essa é a raiz do conflito entre Washington e a Santa Sé, que culminou em janeiro passado com a convocação do então Núncio Apostólico, Cardeal Christophe Pierre, ao Pentágono. Um evento sem precedentes. O subsecretário Elbridge Colby e alguns funcionários do Ministério da Guerra contestaram as críticas cada vez menos implícitas do Papa Prevost ao governo estadunidense. Acima de tudo, a cobiçada anexação de terras alheias e a pretensão de travar guerras "justas" em nome e com a bênção de Deus. Isso culminou no plano de destruir o Irã "em uma noite", uma clara referência à bomba atômica. Denunciado por Leão em tom firme, porém calmo: "Realmente inaceitável". Durante a conversa pouco diplomática, um alto funcionário do Pentágono lembrou ao enviado papal o exílio de Avignon (1309-1377), período em que sete papas estiveram sob o controle do Rei da França. Para enfatizar a natureza dramática do caso, ele exibiu uma arma da época.

O caso está causando um alvoroço nos Estados Unidos e um terremoto no governo Trump, cujos números dois e três — o vice-presidente Vance e o secretário de Estado Rubio — são católicos.

O primeiro, um recém-convertido, havia manifestado por vias transversas sua hostilidade à agressão contra o Irã, de forma que seu chefe o enviou ao Paquistão para negociar com o inimigo a ser derrotado. Se ele conseguir o milagre de um cessar-fogo, se tornará o favorito na sucessão do "Messias" Trump. Mais um motivo para o presidente rezar e trabalhar pelo fracasso da "missão impossível".

Quanto a Rubio, católico romano de nascimento, ele habilmente se aliou ao chefe de sua Igreja contra o chefe de seu Estado. Num vídeo, postado em 10 de abril e intitulado "As raízes católicas da América", coloca o catolicismo na árvore genealógica da potência antipapista por definição, citando o Papa, a quem reiteradamente declarou sua fidelidade. Ter um Papa estadunidense que nunca perde a oportunidade de condenar a guerra contra o Irã e clamar pela "paz desarmada e desarmante" irrita profundamente o presidente, acusado de "delírios de onipotência".

Trump chegou à Casa Branca graças aos votos da maioria (59%) dos católicos estadunidenses, especialmente hispânicos. As pesquisas indicam um declínio no apoio católico ao Partido Republicano e uma crescente desconfiança em relação ao presidente, que está realizando com sucesso uma mudança de regime. Em seu país. Seu índice de aprovação é significativamente menor do que os +34 atribuídos a Prevost pela NBC News.

Algumas vozes democratas estão apelando a Leão, implorando ao papa que excomungue Vance por mencionar o uso de "instrumentos em nossa caixa de ferramentas", referindo-se à bomba. Neste tempo de guerra, um espectro muito perturbador assombra Trump e seu singular Secretário da Guerra, Pete Hegseth: o motim de soldados estadunidenses convocados para cumprir uma ordem incompatível com a ética cristã (a revolta no porta-aviões Ford é um exemplo marcante, entre outros sinais de intolerância entre os soldados). Nas palavras do arcebispo Timothy Broglio, ordinário militar, não um teólogo da libertação: "Seria moralmente aceitável desobedecer a tal ordem". A boa notícia é que o protocolo de lançamento da arma nuclear prevê a passagem por alguns papistas incorrigíveis.

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