Aqueles líderes irresponsáveis que aboliram o futuro. Artigo de Giorgia Serughetti

Benjamin Netanyahu e Donald Trump | Foto: Daniel Torok/Flickr

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11 Abril 2026

"Na era atômica, escreveu o filósofo Günther Anders, 'o futuro não 'chega'; nós o fazemos. E o fazemos de tal forma que ele contém em si sua própria alternativa: a possível ausência de futuro'".

O artigo é de Giorgia Serughetti, pesquisadora em Filosofia Política na Universidade de Milão-Bococca, publicado por Domani, de 09-04-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

É difícil entrever qualquer ideia de futuro nas ações destrutivas e autodestrutivas de Trump e Netanyahu, que supere sua imediata sobrevivência política; mas também aquela de seus mais ou menos relutantes aliados ao redor do mundo.

Na era atômica, escreveu o filósofo Günther Anders, "o futuro não 'chega'; nós o fazemos. E o fazemos de tal forma que ele contém em si sua própria alternativa: a possível ausência de futuro".

Essas são palavras do século passado, que retornam para falar deste presente envolto em caos e medo da catástrofe, que contém em si o futuro ou seu cancelamento, e no qual os destinos do mundo são dependentes das ações de líderes políticos que carecem de visão de longo prazo e, portanto, de responsabilidade.

A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã — uma guerra sem causas ou objetivos definidos — ameaça levar todo o planeta à beira da aniquilação nuclear. 

Donald Trump eleva o nível das ameaças verbais a cada dia, chegando a projetar "o fim de toda uma civilização" da noite para o dia. E o resto do mundo fica, atônito, assistindo à evolução dos eventos enquanto a crise energética se agrava e os líderes de governo -por sua vez de restrita visão, como Giorgia Meloni - se limitam a buscar soluções paliativas para garantir o abastecimento no curto prazo.

Onde foi parar o desejo, por parte de homens (e mulheres) em posições de liderança, de pensar "nas gerações futuras em vez da próxima eleição", como dizia Winston Churchill, ou seja, de deixar uma marca para aqueles que virão depois, mesmo que seja apenas por um desejo de fama pessoal?

É difícil entrever qualquer ideia de futuro nas ações destrutivas e autodestrutivas de Trump e Netanyahu, que supere não apenas a sua imediata sobrevivência política, mas também aquela de seus mais ou menos relutantes aliados ao redor do mundo. E não se trata apenas da incapacidade de prevenir catástrofes bélicas, do abandono de qualquer perspectiva capaz de restaurar legitimidade ao direito internacional; igualmente grave é a incapacidade de planejar alternativas sérias à dependência dos combustíveis fósseis em esgotamento.

Deveria parecer inacreditável que, diante da clara ameaça representada pela guerra por recursos energéticos, a Itália, e grande parte da Europa, não possua um plano sério, nem

mesmo de longo prazo, para a transição para a energia limpa. À medida que os prenúncios de "crises" sempre novas aprisionam o presente em si mesmo, na narrativa claustrofóbica de emergências que não permitem qualquer visão além do amanhã, desaparece a vontade de investir em grandes realizações no campo das instituições, do direito e da política. Em vez disso, se olha para o passado, como fez o governo Meloni em resposta à subida dos preços da energia. E não é apenas o clássico problema do imediatismo que assola a democracia, quando a busca por um consenso eleitoral imediato desencoraja a adoção de decisões impopulares que poderiam dar frutos somente daqui a algumas décadas. Hoje, nem mesmo parece que o problema do consenso esteja impedindo a busca por soluções ambiciosas para os problemas. Aliás, especialmente para as direitas com tendências autoritárias, fechar o horizonte do futuro parece ser parte integrante de uma forma de governo do presente. Porque o projeto da democracia — como promessa perenemente não cumprida, como horizonte de participação e emancipação coletiva, como campo de debate entre visões de sociedade — está inextricavelmente ligado à confiança na existência de um futuro.

De um futuro em que as promessas possam ser realizadas, em que a competição política possa trazer a mudança desejada e em que os erros do presente possam ser corrigidos. Mas se o presente é representado em perene emergência, vacila a confiança no instrumento da decisão democrática — lento, imperfeito, mas capaz de funcionar a longo prazo —, enquanto cresce a tentação da guinada autoritária. Entre as potenciais vítimas da aceleração presentista, tão apreciada por milenaristas como Peter Thiel e certamente por líderes responsáveis pela devastação em curso, deve ser incluída justamente a democracia. Ela é posta em risco pelo cancelamento da própria ideia de futuro.

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