A Bíblia de Trump e o eclipse cultural do Ocidente liberal. Artigo de Marinella Perroni

Fonte: Rawpixel

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11 Abril 2026

"O fundamentalismo bíblico, nascido precisamente em reação às contaminações do pensamento moderno e que agora está a serviço dos interesses e da teopolítica de um nacionalismo cristão que gostaria de se elevar ao status de religião de Estado, marca o fim de uma fé criticamente engajada em explicar si mesma perante o mundo? Essa é a pergunta que os fundamentalistas cristãos apresentam hoje com força às Igrejas."

O artigo é de Marinella Perroni, biblista, fundadora da Coordenação de Teólogas Italianas, publicado por Avvenire, 09-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Chega às livrarias amanhã a mais recente obra de Paolo Naso, sociólogo, cientista político, grande conhecedor dos Estados Unidos e, acima de tudo, atento estudioso do fenômeno religioso, que ele observa constantemente em relação à peculiaridade do cristianismo protestante, dada a sua tradição de pertença e às múltiplas formas que estão presentes hoje, mesmo em um país tradicionalmente católico como a Itália. Naso aborda a peculiaridade protestantismo e sua forte influência sobre a política estadunidense contemporânea, com sua característica capacidade de raciocinar baseado nos dados e com a clareza de exposição que lhes são características, em seu livro Dio benedica l’America. Il fondamentalismo cristiano dai creazionisti a Donald Trump (Deus abençoe a América. O fundamentalismo cristão dos criacionistas a Donald Trump, em tradução livre, Claudiana, 256 páginas, €21,00). A investigação de Naso e o contexto histórico da ascensão do fundamentalismo e do enfraquecimento das democracias liberais no Ocidente, questionam, explícita ou implicitamente, todas as Igrejas históricas devido à sua referência à Bíblia.

Antes de analisar a obra de Naso, permitam-me uma breve reflexão. Reconhecendo a centralidade das instâncias religiosas no âmago do atual clima cultural e político do que costumamos chamar de "Ocidente Cristão", esse livro pretende capturar, além de sua evidente atualidade, também sua função de lembrete válido para todas as Igrejas, incluindo a Igreja Católica, para que empreendam uma reflexão crítica rigorosa e urgente sobre este momento de desorientação que, ainda que de maneiras diferentes, afeta ambos os centros históricos do desenvolvimento do cristianismo ocidental, Europa e Estados Unidos. Uma desorientação que também possui uma específica raiz teológica. Há sempre um "hoje" na base de toda tentativa de explicar a realidade em que vivemos, e não há dúvida de que Trump representa uma figura decisiva do nosso "hoje". Não apenas por suas excentricidades, mas também como expressão bastante eficaz do que o Papa Francisco chamou de mudança de época: até os loucos são de seu tempo; aliás, os paroxismos às vezes são mais esclarecedores do que raciocínios ordenados e as análises ponderadas. A crise histórico-política dos dois Ocidentes, ou seja, daquilo que por vezes descartamos com demasiada superficialidade com a fórmula genérica "civilização ocidental", passa pela reorganização teórica e prática do fenômeno religioso que foi e é um dos geradores dessa civilização e que, talvez com demasiada leviandade, pensávamos ter sido reduzido à insignificância pela onda da secularização.

Nesse contexto, a questão premente é o que aconteceu ao patrimônio bíblico, mantido refém, por um lado, pelos furores fundamentalistas e, por outro, condenado à amnésia, precisamente no momento em que o Islã pressiona as portas do Ocidente. Refletir sobre o papel da revelação bíblica e, mais especificamente, sobre o uso que as igrejas cristãs fazem da Bíblia deveria ser uma necessidade imprescindível hoje em dia, mesmo para além das distintas pertenças religiosas. Com o seu livro, que, tematicamente, tem muito a dizer e, metodologicamente, muito a ensinar, Paolo Naso contribui para equipar essa mensagem implícita com indispensáveis instrumentos de análise. A única forma de apresentar corretamente "Dio benedica l’America" é convidar vivamente à sua leitura. De fato, é impossível resumir um conteúdo tão denso, que visa desatar uma teia incrivelmente complexa de dados e interações. É suficiente para dar uma ideia dessa complexidade, o índice de associações, instituições e igrejas com o qual Naso conclui o livro, pois nos permite compreender quantos e quais são os terminais de um fenômeno conhecido como fundamentalismo cristão e que está ligado, pois chega a representar sua alma, com a direita política, econômica e financeira do país mais poderoso do mundo e que chega inclusive a convergir com o catolicismo tradicionalista em uma espécie de "ecumenismo" ideológico-religioso.

Naso nos permite adentrar a gênese e o desenvolvimento dos fundamentalismos estadunidenses, traçando sua geografia, acompanhando sua história e revelando suas profundas conexões políticas e econômicas. Tudo isso tendo como pano de fundo uma dialética teológica em relação ao liberalismo teológico, sem cuja reconstrução torna-se impossível compreender um fenômeno que hoje tem a pretensão de determinar as medidas e ditar as leis da história do mundo. Um fenômeno que tem suas raízes firmemente ligadas ao literalismo bíblico, ao criacionismo anticientífico e ao milenarismo político e alimenta continuamente as escolhas das classes dirigentes, mas, sobretudo, as sensibilidades dos muitos milhões de pessoas que as apoiam. Embrenhar-se nas páginas de "Dio benedica l’America" nos permite ir muito além da superficialidade com que estamos acostumados a rotular o que acontece naquele país como resultado da superficialidade e da ignorância de um povo, bem como da insanidade de quem o lidera. E, acima de tudo, exige um acerto de contas com o que constitui o eixo em torno do qual se desenvolvem a coerência de um horizonte de pensamento e a força de um imaginário religioso, que encontram vazão em pertenças "congregacionais" por meio das quais circulam fluxos significativos de dinheiro.

A galáxia dos fundamentalismos cristãos estadunidenses está longe de ser um fenômeno sectário, nem pode ser reduzida a uma excrescência folclórica. Remete a uma espécie de "teocracia" contemporânea, talvez ainda mais inquietante do que outras porque, além disso, está agora firmemente ligada a uma tecnocracia que almeja a verdadeira dominação sobre o mundo. Teocracia e tecnocracia que tomam corpo e força a partir do impulso visionário da Bíblia, desprovida, contudo, de sua força simbólica e metafórica, a fim de legitimar o binômio prosperidade-apocalíptica, ou seja, o paradigma teológico de referência comum aos diversos fundamentalismos cristãos. Além da profundidade explicativa com que consegue lançar luz sobre esse fenômeno complexo e inquietante do fundamentalismo cristão, o livro de Naso também tem o grande mérito de levantar uma questão que desafia com força não apenas as Igrejas Protestantes históricas, mas também a nossa Igreja Católica, pois remete ao cristianismo liberal, isto é, àquela fase da história do pensamento teológico que, com sua propensão intrínseca ao espírito crítico, foi extremamente frutífera para a vida de todas as igrejas, pois liberava tanto a teologia quanto a experiência religiosa do estado de minoridade induzido por certezas fideístas. O fundamentalismo bíblico, nascido precisamente em reação às contaminações do pensamento moderno e que agora está a serviço dos interesses e da teopolítica de um nacionalismo cristão que gostaria de se elevar ao status de religião de Estado, marca o fim de uma fé criticamente engajada em explicar si mesma perante o mundo? Essa é a pergunta que os fundamentalistas cristãos apresentam hoje com força às Igrejas.

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