08 Abril 2026
"Em nosso caminho de reflexão e análise procuramos sempre ter em mente as dimensões concretas da fé e da vida. Trata-se da compreensão da salvação e a dos demais aspectos teológicos não de modo etéreo e especulativo, mas, sim, como o resgate da vida em sua concretude, resultante de uma espiritualidade que se fundamenta no profundo respeito por todos os seres criados e na preservação da vida e da justiça."
Claudio de Oliveira Ribeiro. (Foto: Arquivo Pessoal)
O artigo é de Claudio de Oliveira Ribeiro, pastor metodista e professor de Ciência da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora.
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Eis o artigo.
Há tempos, ainda na década de 1990, participei de um encontro entre teólogos brasileiros e ouvi em uma das apresentações uma frase que, embora simples, marcou bastante as minhas reflexões e a minha trajetória de vida. O pastor presbiteriano Ricardo Barbosa nos disse naquela ocasião que “a teologia precisa ser mais espiritual e a espiritualidade necessita ser mais teológica”. Trata-se de um desafio singular que tenho buscado em minha trajetória pastoral e acadêmica. Gostaria muito de futuramente poder dar uma contribuição mais efetiva nessa área, mas reconheço as minhas limitações.
Os poucos passos que dei foi em um primeiro esboço feito em Libertação e gratuidade: reflexões teológicas sobre a espiritualidade (Paulinas, 2013). Tais ideias são modestas e incipientes e precisariam ser muito mais e melhor desenvolvidas. Não podendo pagar essa enorme dívida, tenho procurado apresentar uma ou outra visão que possa, ao se somar a outras de tantas pessoas que hoje se debruçam sobre tais preocupações, ser algo que motive a reflexão e, sobretudo, as experiências de vida em torno de uma espiritualidade viva, autêntica e que, à luz do princípio pluralista, alimente nossos sonhos e os desafios hoje.
Eu não posso e nem desejo me esquecer das leituras da realidade socioeconômica e cultural que marcam o nosso tempo, sobretudo os aspectos nefastos que se abatem sobre o cotidiano dos grupos mais pobres, sobre as mulheres e jovens, sobre as pessoas negras e da comunidade LGBTQIA+, e tanta gente que vive na pele o sofrimento e a dor. Considero que estes percalços, somados à releitura em chave libertadora dos princípios bíblicos e teológicos, precisam decisivamente acompanhar as nossas reflexões. Eles requerem uma profunda revisão das imagens de Deus, que historicamente estiveram ligadas a práticas de dominação, como as imperiais, racistas, androcêntricas e heteronormatizadas, por exemplo.
Trata-se de um esforço de se relacionar espiritualidade e transgressão da ordem dominante, como tenho aprendido com a teóloga Ivone Gebara. Ela nos mostra que esta tarefa se dá em muitos e variados sentidos. Primeiro: urge uma ecoespiritualidade que reforce relações de interdependência e de cooperação vital para se opor ao desprezo da cosmologia em seu sentido amplo e da visão holística que dá ao ser humano uma compreensão mais apropriada de si mesmo e das relações fundamentais que o constitui.
Segundo: para se contrapor ao esvaziamento espiritual e de sentido das questões que envolvem a vida e as formas de conhecimento técnico e científico, são necessárias propostas de respeito à integridade humana, à formação pessoal e à totalidade dos processos vitais.
Terceiro: em contraposição aos elementos ideológicos, sociais e religiosos, que demarcam o controle dos corpos, especialmente os das mulheres, tanto nas estruturas eclesiásticas e religiosas quanto na cultura econômica, é fundamental a valorização da corporeidade e da sexualidade como fonte de prazer e de autonomia.
Quarto: em contraposição ao individualismo e à insensibilidade humana predominante no campo religioso e na sociedade como um todo, vislumbramos o compromisso com a felicidade pessoal articulada com a felicidade coletiva, expressas no cotidiano, com as suas ambiguidades e potencialidades.
Outro aspecto desafiador, que percebi na companhia de tanta gente querida, é a tensão entre libertação e gratuidade. Entre várias perspectivas, temos destacado que a teologia necessita: (i) integrar e articular as linguagens de natureza “sapiencialintegrativa” e as de caráter “crítico-dialético-profético”, (ii) superar os reducionismos antropológicos, que valorizam somente os aspectos mais racionais do ser humano, que podem também gerar formas de autoritarismos, idealismos, machismos e heteronormatividade, e não percebem o valor da afetividade, das dimensões lúdicas e da festividade, (iii) articular os temas especificamente existenciais com os políticos e sociais e destacar o horizonte ecumênico e plural necessário para a relevância teológica de toda e qualquer iniciativa nos campos prático e teórico, (iv) além de estar atenta à crescente valorização do pluralismo cultural e religioso.
Em nosso caminho de reflexão e análise procuramos sempre ter em mente as dimensões concretas da fé e da vida. Trata-se da compreensão da salvação e a dos demais aspectos teológicos não de modo etéreo e especulativo, mas, sim, como o resgate da vida em sua concretude, resultante de uma espiritualidade que se fundamenta no profundo respeito por todos os seres criados e na preservação da vida e da justiça. Tal perspectiva altera as formas como o conhecimento é produzido. Ao se trabalhar com as dimensões concretas e cotidianas da vida, considerando toda a sua complexidade, passamos a questionar os discursos científicos reducionistas, que arvoram uma falsa universalidade, uma vez que dissimulam a particularidade que possuem.
O conhecimento humano em geral, assim como o teológico em particular, sobretudo com base no princípio pluralista, precisaria assumir variadas e permanentes demandas: (i) questionar o universalismo das ciências, para superar o idealismo branco, masculino e racionalista presente nas elaborações teóricas que relegam, por exemplo, a mulher à dimensão da natureza e o homem à dimensão cultura, e aos pobres o lugar de subalternalidade, (ii) valorizar a relatividade cultural com suas diferentes formas de interpretar o mundo, tendo em vista conhecimentos mais integrativos, (iii) valorizar a diversidade, a diferença, a interdependência de todos os seres, as expressões de subjetividade e o cotidiano tanto na esfera científica como na dimensão prática e política, (iv) ser propositivo no tocante a uma ética plural em que as próprias pessoas e grupos possam refletir sobre suas realidades, identificar os diferenciais de poder que enfrentam e encontrar novos caminhos de empoderamento que levem à justiça, à paz e à integridade da Criação, (v) dar atenção às narrativas que apresentam não de forma linear e sistematizada diferentes aspectos da realidade, mas que revelam segredos, mistérios e encantamentos dos diferentes recortes da vida, e (vi) pressupor, dentro de uma interculturalidade crítica, a interdependência entre todos os seres, a transdisciplinaridade e a complexidade das ciências, que possam ser geradoras de novos e saudáveis caminhos.
Com estas reflexões vivenciaremos um processo dialógico árduo e desafiador. Ele requer escutar falas não-ditas ou “malditas”, sem respostas previamente determinadas, sem dogmatismos. Talvez por isso seja inseguro. Como tarefas teológicas mais precisas, mas também como atitude mais livre de fé e do permanente refazimento do círculo hermenêutico, estão presentes: ouvir novamente as questões que emergem da tão desafiante complexidade da vida, mergulhar como os peixes (e não o olhar superficial das aves) nos esforços de compreender melhor a sociedade, e, humildemente, contribuir para o seu reverso e transformação.
É possível que esses tempos áridos que enfrentamos possam ser reconhecidos como um novo Kairós. Um tempo oportuno para uma abertura ao Mistério Maior, como a teóloga Ivone Gebara nos inspira dizer, ou ao Incondicional, na linguagem de Paul Tillich, que nos leve a atitudes de revisão e de compromisso com a justiça e a paz, fundamentais para se deixar ser agarrado por experiências que a tradição cristã denominou serem ‘de Deus’. Sabemos que ela nos deixou um legado ambíguo com as imagens patriarcais e de submissão irrefletida desse que é Inominável, mas que, ao mesmo tempo, ela abriu caminhos de revisão para que esse dom maior da vida pudesse abarcar uma multiplicidade de fés, feições e representações. É por esse caminho libertador que desejamos seguir.
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