09 Abril 2026
"O evangelista quis enfatizar a consciência do limite de Pedro. Seu amor, de fato, fora fraco na noite de sua traição, e agora ele confessa com tristeza que só consegue dizer que "sente afeição" (philéin) por Cristo, e não mais que o ama (agapán) totalmente", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 05-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Cena de Páscoa. O Ressuscitado conversa com alguns discípulos, especialmente Pedro, como recorda o Evangelho de João: alternam-se os verbos "agapán" (amar) e "philéin" (sentir afeição), frisando a consciência da limitação de Pedro.
Pode-se apostar: se alguém não particularmente versado em música clássica fosse convidado a cantar um aleluia de Páscoa, começaria espontaneamente a cantarolar o tema do poderoso coro do Messias de Handel, um transbordante aleluia em Ré maior. Deslumbra todos os ouvintes, arrastados quase compulsivamente a acompanhar a orquestra e os cantores, aliás, convidados nos países anglo-saxões a ficar de pé durante a execução, como num gesto litúrgico.
Composto em 1741 e imediatamente apresentado em Dublin, teve tamanho sucesso que, durante as apresentações seguintes, devido à multidão enorme e apinhada, as mulheres eram proibidas de carregar bolsas ou cestos (durante os intervalos se costumava banquetear) e os homens de carregar espadas. Vamos manter propositalmente no pano de fundo esse hino, o mais popular do grande músico de Halle (1685), falecido em Londres (1759): ele, de fato, brilhava nesse gênero, pois escreveu uma grande quantidade dedicada a muitos personagens bíblicos, de Ester a Débora, de Atalia a Saul, de Israel no Egito a Sansão, de José e seus irmãos ao rei Belsazar, de Judas Macabeu a Alexandre Balas, de Josué a Salomão, de Susana e Jefté, da paixão à ressurreição de Cristo, até a mártir cristã Teodora (século IV), sem mencionar os hinos com temas profanos. Ao eco do aleluia do Messias (a palavra hebraica significa "louvado seja o Senhor"), vamos propor uma cena evangélica pascoal.
Estamos na margem do Lago da Galileia. O Ressuscitado, com alguns de seus discípulos, que retornaram à profissão de pescadores, assaram na brasa e comeram uma refeição à base de peixe recém-pescado. Ele então volta seu olhar para Pedro e inicia um diálogo com ele. O episódio se passa na última página acrescentada ao quarto Evangelho (21,15-19) e tornou-se famoso por ser considerado a anulação da tríplice negação do Apóstolo no pátio do palácio do sumo sacerdote (Mateus 26,69-75).
O diálogo é bem estruturado por João: a atenção daqueles que conseguem ler em grego, no entanto, está ligada a uma curiosa variante verbal confiada a dois termos de valor semelhante, mas não idêntico, que constituem o cerne da comparação. De um lado, há o verbo agapán, "amar", usado especialmente por Jesus, e, de outro, philéin, "sentir afeição", nos lábios de Pedro. Eis o diálogo.
Jesus: "Simão, filho de João, tu me amas...?" Pedro: "Senhor, tu sabes que sinto afeição por ti." Jesus: "Simão, filho de João, tu me amas?" Pedro: "Sim, Senhor, tu sabes que sinto afeição por ti."
Finalmente, pela terceira vez, Jesus também se contenta com o verbo "menor": "Simão, filho de João, tu sentes afeição por mim?"
Alguns exegetas consideram essa alternância uma variação estilística, assim como no grego dessa história são usados termos diferentes para indicar o rebanho: "cordeiros" e "ovelhas", e "pastorear" e "apascentar". Pode-se, no entanto, pensar que o evangelista quis enfatizar a consciência do limite de Pedro. Seu amor, de fato, fora fraco na noite de sua traição, e agora ele confessa com tristeza que só consegue dizer que "sente afeição" (philéin) por Cristo, e não mais que o ama (agapán) totalmente.
É isso que ele fará, porém, com seu martírio, aludido pelas palavras posteriores de Jesus, que o lembram de seu futuro como idoso que "estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras".
O evangelista comenta: "Jesus disse isso, significando com que morte havia ele de glorificar a Deus". A tradição também atribuirá a Pedro a crucificação como seu Senhor, embora de cabeça para baixo. Neste ponto, propomos uma digressão artística.
No Vaticano, na Capela Paulina (nomeada em homenagem ao Papa Paulo III), adjacente à Capela Sistina, entre 1545 e 1550 Michelangelo deixou uma de suas últimas obras-primas. Trata-se, de fato, de um afresco que retrata a crucificação de Pedro, cuja figura, ainda não pregada (os pregos foram adicionados posteriormente), impressiona pelo rosto duro, carrancudo, quase irado, que olha para o observador com olhos ardentes, enquanto o corpo, colocado de lado, parece emergir do afresco e se estender para fora. Michelangelo pretende capturar o momento consciente que precede o martírio. Quando os eleitores do novo papa passam da Capela Paulina à Sistina, são advertidos por aquele rosto: o ministério petrino não é uma posição de poder, mas uma missão dolorosa e severa, aberta também ao sacrifício de si mesmo.
Como apêndice, gostaríamos de recordar um detalhe curioso dessa história: antes do diálogo com Pedro, há a descrição de uma pesca milagrosa realizada por aqueles discípulos por indicação de Jesus. A narrativa é repleta de iridescências simbólicas. É surpreendente a observação sobre o número exato de peixes pescados, 153. No passado, tentei reunir todas as interpretações metafóricas desse número aparentemente objetivo: aos exegetas, obviamente, também haviam se juntado os matemáticos.
De fato, Santo Agostinho, que também tentaria sua própria especulação alegórica, declarou que se tratava de "um grande mistério". Citarei agora apenas a hipótese mais aceita. 153 é um número triangular que tem como base o 17, de acordo com um sistema de cálculo praticado na Grécia antiga. Ora, o número 17 pode ser decomposto em 10+7, onde 10 indica uma multidão, segundo a numerologia bíblica, e 7, plenitude e totalidade. Isso representaria, portanto, a futura comunidade de fiéis em Cristo, ou seja, a Igreja unida por uma fé comum, talvez também indicada pela referência à rede que não se rompe, apesar do peso da pescaria.
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