25 Março 2026
"A militância de extrema-direita católica já está nas ruas, produzindo conteúdo, gravando vídeos para as redes sociais, fazendo protestos e 'dias de jejum e oração' contra tudo aquilo que se relaciona ao compromisso da Igreja com os pobres, os movimentos sociais e a transformação social".
O artigo é de Maurício Abdalla, educador popular e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo.
Maurício Abdalla (Foto: Arquivo Pessoal).
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Eis o artigo.
A extrema-direita mundial, que tem Steve Bannon como principal ideólogo e estrategista na formação de realidades e consciências, tem um braço organizado católico fortíssimo. No Brasil, as pesquisas mostram que Lula está melhor entre os católicos, enquanto Flávio Bolsonaro tem mais da metade da preferência dos evangélicos.
A reação da extrema-direita católica no Brasil já está em ação. Abastecida com dinheiro e orientações de fora, seus militantes estão provocando um cenário de “guerra santa”, para criar o clima em que ocorrerão as eleições de 2026. Essa é uma técnica da “engenharia do consentimento”, criada pelo sobrinho de Freud, Edward Bernays, há cerca de 100 anos. Monta-se, por meio das mídias tradicional e digital, uma realidade na qual se definem os problemas (reais ou fictícios), apontam-se vilões e mocinhos e cria-se um medo excessivo do vilão, relacionando-o à causa dos problemas que foram definidos como a grande ameaça do momento. Tudo isso é feito para que qualquer um que apareça como capaz de enfrentar o perigo, por pior que seja sua índole, seja aceito como solução.
Dessa maneira, não é preciso usar os esforços do marketing político para exaltar (ou simular) qualidades do candidato e esconder seus defeitos e seu passado. Basta colocá-lo como a proteção necessária contra a ameaça que foi incutida na cabeça do povo. É assim que se criam os “anti-heróis”, personagens com índole duvidosa e sem ética, mas eficientes no combate ao inimigo e que, apenas por isso, são acolhidos como salvadores.
A militância de extrema-direita católica já está nas ruas, produzindo conteúdo, gravando vídeos para as redes sociais, fazendo protestos e “dias de jejum e oração” contra tudo aquilo que se relaciona ao compromisso da Igreja com os pobres, os movimentos sociais e a transformação social.
A ideia é vincular o que eles consideram “ameaça à fé católica” (leia-se aqui a Teologia da Libertação, a CNBB e as encíclicas sociais do Papa Francisco) aos políticos e militantes progressistas e de esquerda e atribuir aos políticos e candidatos da extrema-direita o potencial para afastar essas ameaças e defender os “valores cristãos” na política – sem nunca dizer o que são, na verdade, esses valores.
Com isso, a história de vida pessoal de políticos da extrema-direita (que envolve relação com milícias, violência contra a mulher, adultério, corrupção, relações com crime organizado etc.) é desconsiderada, pois a eles é atribuído apenas o papel de serem os “salvadores da fé cristã”, por pior que seja sua índole e por mais que desconheçam a mensagem dos evangelhos e a Doutrina Social da Igreja.
A arena da guerra está montada e a extrema-direita católica, de braços dados com o sistema financeiro, o capital internacional, os bilionários locais e até com o crime organizado, está se tornando cada vez mais agressiva. Cabe a nós, que caminhamos em sintonia com a Doutrina Social da Igreja (DSI) e com a mensagem fundamental do amor evangélico aos pobres, enfrentá-los com inteligência, serenidade, altivez e firmeza na confirmação de nossa fé encarnada, mostrando um Jesus que caminha com os oprimidos e explorados e condena veementemente os poderosos e seus representantes na religião: os fariseus, saduceus e doutores da lei.
Retrairmo-nos, intimidarmo-nos e nos calar, nesse momento, é deixar que interesses alheios à missão da Igreja se sobreponha à mensagem dos evangelhos e da DSI.
Travemos o bom combate!
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