21 Março 2026
"Neste momento, o que se pode prever é a prolongação de uma guerra de atrito ainda por várias semanas, enquanto se mantiver apenas como uma guerra de atrito aéreo. Mas será cada vez maior o risco de que essa guerra se transforme numa ameaça existencial, sobretudo para Israel, que dispõe de armamento atômico. E o mesmo se pode dizer dos EUA, porque a simples prolongação da guerra já representa uma derrota estratégica para um presidente que se comporta e gosta de ser visto como um governante violento e imprevisível que dispõe armas nucleares táticas", escreve José Luís Fiori, professor emérito da UFRJ, em artigo enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
O artigo é publicado originalmente no Boletim de Conjuntura, n. 16, março/2026, do Observatório Internacional do Século XXI, do Nubea, UFRJ.
Eis o artigo.
A "ordem mundial baseada em regras” entrou em colapso depois do ataque militar dos EUA e de Israel contra o Irã, no dia 28 de fevereiro de 2026. Um ataque sem justificativa que foi realizado no meio de uma negociação diplomática que estava em pleno curso, entre os EUA e o Irã. Da parte de Israel, trata-se de um velho projeto acalentado há muitos anos por seu primeiro-ministro Benjamin Netanyahu: o de conseguir o apoio do governo norte-americano para realizar um ataque massivo contra as instalações nucleares, e contra o sistema de defesa balístico do Estado iraniano, visando, em última instância, derrotar e submeter o povo persa aos desígnios do povo judeu. Da parte dos EUA, entretanto, as coisas estão menos claras, e tudo indica que o presidente norte-americano acabou se submetendo aos argumentos do primeiro-ministro israelense. Haja vista que, desde o primeiro momento do ataque, o presidente Donald Trump mudou várias vezes de opinião, demonstrando insegurança com relação aos objetivos da estratégia de guerra. E tudo indica que, de fato, o presidente norte-americano se deixou seduzir pelo plano israelense de uma guerra curta e de uma vitória rápida e fácil, obtida através da decapitação das principais lideranças civis e militares do Irã.
Mesmo assim, não há dúvida de que essa declaração de guerra se enquadra perfeitamente no projeto do presidente americano, de reafirmação do poder militar dos EUA e de reconstrução de sua supremacia unipolar dentro do sistema mundial. Como já havia ocorrido com sua “guerra tarifária” contra o mundo e com seus ataques ou ameaças contra Venezuela, Colômbia, Cuba e Groenlândia, contra seus próprios aliados europeus e, ainda, contra a China. A verdade é que, através dessas ameaças e de suas ações concretas, e mais ainda, através de sua presença diária na imprensa mundial, o presidente norte-americano vem conseguindo manter o mundo em estado de permanente sobressalto, transformando a incerteza e o medo nas peças centrais de sua estratégia de poder pessoal e do próprio poder dos EUA.
Nas primeiras horas do ataque, as forças israelenses mataram o Ayatollah Ali Khamenei e uma boa parte da cúpula dirigente do Estado e das FFAA iranianas. Mas em poucas horas a liderança civil, religiosa e militar do país se reorganizou e contra-atacou, de forma implacável, Israel e o território de seus vizinhos árabes onde estão instaladas as 19 bases militares americanas distribuídas pelo Oriente Médio. A maioria dos analistas internacionais, assim como os comandos militares de Israel e dos EUA, foram surpreendidos pela rapidez e precisão destrutiva da resposta iraniana, e com isto, duas semanas depois do início das hostilidades, a guerra tomou um rumo completamente imprevisto e imprevisível, envolvendo um número cada vez maior de países e atingindo em cadeia toda a economia mundial. A começar pela escassez e aumento dos preços mundiais do petróleo e da energia, e dos fertilizantes e alimentos em geral, atingidos pelo fechamento do Estreito de Ormuz, que foi anunciado desde o início pelos iranianos, caso fossem atacados, mas não foi tomado em sério pelas forças invasoras.
Assim mesmo, após essa derrota estratégica inicial e duas semanas de ataques aéreos e de destruição de ambos os lados, já é possível extrair algumas lições e identificar algumas consequências irreversíveis. Começando pelo fato de que o assassinato do Ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo e máxima autoridade religiosa do Irã, nas primeiras horas do ataque, transformou o conflito numa “guerra santa”, envolvendo dois “estados religiosos” – Israel e Irã. E o que a história ensina é que, nas “guerras religiosas”, não há possibilidade de paz; são guerras que só acabam (a menos que haja intervenção externa) com a destruição completa do adversário, que deve ser morto ou convertido à força. Por outro lado, já nas primeiras horas do conflito, ficou visível a natureza absolutamente fictícia do sistema de estados árabes do Golfo Pérsico, criado ou incentivado pelos colonialistas europeus e sustentado pela tutela e proteção das bases militares norte-americanas instaladas em seus territórios.
Os sucessivos ataques balísticos iranianos demonstraram que essas bases militares não são capazes de proteger os povos desses pequenos reinos. Mais do que isto, se mostraram incapazes de impedir a destruição do seu sistema informação e rastreio balístico e de apoio logístico de todo o Oriente Médio, incluindo o famoso sistema de defesa aérea de Israel – seu Domo de Ferro (Iron Dome) – que foi “vazado” de forma sistemática e destrutiva pelas sucessivas ondas de mísseis e drones persas. Para não falar da incapacidade norte-americana de impedir o fechamento do Estreito de Ormuz, que obrigou Donald Trump a pedir ajuda a seus aliados europeus e à própria China, que acabou de ser declarada inimiga número um dos EUA, devido a sua nova doutrina estratégica de defesa divulgada em dezembro de 2025.
Por outro lado, do ponto de vista de suas consequências mais amplas, como dissemos incialmente, este ataque injustificado explicitou de forma definitiva a irrelevância absoluta do Direito Internacional para os EUA e para Israel, instaurando, de forma permanente, o uso da força e da guerra como dois pilares da nova ordem mundial que está nascendo à sombra do caos, sob a batuta de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Estes dois países desprezam de forma explícita qualquer tentativa de legitimar seu comportamento agressivo através de algum tipo de argumento moral ou de lei internacional. Criou-se uma situação caótica, em que o uso da força transforma todos os conflitos num teste de força, numa guerra, cujo limite será sempre o recurso à ameaça ou ao uso de armas nucleares. Por isso mesmo, a ameaça de utilização do armamento nuclear transformou-se também numa “moeda corrente” na imprensa e no discurso das potências atômicas.
Neste momento, o que se pode prever é a prolongação de uma guerra de atrito ainda por várias semanas, enquanto se mantiver apenas como uma guerra de atrito aéreo. Mas será cada vez maior o risco de que essa guerra se transforme numa ameaça existencial, sobretudo para Israel, que dispõe de armamento atômico. E o mesmo se pode dizer dos EUA, porque a simples prolongação da guerra já representa uma derrota estratégica para um presidente que se comporta e gosta de ser visto como um governante violento e imprevisível que dispõe armas nucleares táticas. Neste caso, entretanto, não se deve descartar um contra-ataque iraniano às usinas nucleares de Israel, o que teria efeito análogo ao lançamento de uma bomba atômica.
Fora do campo de batalha, existe apenas um fator que pode ser capaz de interromper o avanço dessa “marcha santa” da insensatez, da inclemência e da inumanidade. E este fator pode vir a ser o impacto econômico da guerra dentro dos EUA, junto com seu efeito em cadeia na economia mundial. Esse impacto deve ser cada vez maior, e pode alcançar níveis insuportáveis, caso a organização militar dos houtis do Iêmen se colocar ao lado do Irã e decidir fechar também o Estreito de Bab al-Mandab, que dá acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez, provocando, assim, uma ruptura sem precedentes do sistema mundial de energia e comércio. Nesse caso, com certeza, a pressão sobre o presidente norte-americano, a favor da paz, dentro e fora dos EUA, pode se tornar insuportável, mesmo que seja por conta apenas dos interesses eleitorais de Donald Trump.
Para finalizar, o mundo está atravessando um momento de incerteza radical, e todos os caminhos e cenários futuros são mera especulação.. Mas os dados já foram lançados, e as grandes e médias potências do mundo já estão se ajustando à nova realidade, e à nova ordem forjada pelo cajado da força e da inclemência, procurando assegurar sua soberania energética e redesenhando suas economias de guerra para o momento em que tenham que enfrentar a violência e o arbítrio do império militar global dos EUA.
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