19 Março 2026
O navio Sea Horse, com bandeira de Hong Kong, deverá chegar em cinco dias. Ele transporta 200 mil barris de diesel, o suficiente para 10 dias.
A informação é de Eyanir Chinea e Juan Carlos Espinosa, publicada por El País, 19-03-2026
A Rússia decidiu desafiar o embargo de petróleo imposto por Washington a Cuba. Moscou enviou um navio carregando até 200 mil barris de diesel para a ilha, que não recebe um único pingo de combustível desde janeiro, conforme confirmado pelo jornal EL PAÍS nesta quarta-feira. O petroleiro Sea Horse está a caminho da costa oeste do país caribenho e deve chegar entre o fim de semana e segunda-feira. A carga é significativa. Este é o tipo de combustível que Havana utiliza para alimentar os geradores espalhados pelo país, responsáveis por 40% da matriz energética da ilha. Ele também é usado no transporte e na agricultura, setores praticamente paralisados pelo embargo americano.
O navio está localizado a 1.146 milhas náuticas (2.122 quilômetros) da costa norte de Cuba, navegando a uma velocidade de 9,9 nós (18,3 quilômetros por hora), de acordo com a ferramenta de monitoramento naval Vessel Finder. O navio, com bandeira de Hong Kong, retomou sua viagem em direção à ilha, segundo dados de rastreamento do Marine Traffic, após ficar retido no Atlântico por três semanas.
Diversos veículos de comunicação internacionais noticiaram que o navio Anatoly Kolodkin, transportando 700 mil barris de petróleo bruto, partiu da costa russa de Primorsk rumo a Cuba. No entanto, dados marítimos indicam que ele foi localizado logo após deixar a Europa e já está fora da rota para a ilha. A embarcação está sob sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA.
Para aumentar as tensões em meio ao bloqueio energético e tarifário dos EUA, que interrompeu os embarques de hidrocarbonetos para o país socialista, duas embarcações com bandeira americana, uma delas identificada como parte da Guarda Costeira dos EUA (USCGC), estavam próximas da costa de Holguín (leste), de acordo com o rastreador.
Segundo cálculos de Jorge Piñón, pesquisador do Instituto de Energia da Universidade do Texas, o diesel enviado pela Rússia será suficiente para suprir o consumo nacional por apenas 10 dias. Mas ele também fez uma ressalva: “Devemos lembrar que os estoques estão vazios”. Em entrevista ao EL PAÍS em meados de fevereiro, o especialista alertou que “se um navio-tanque não chegasse a Cuba até março”, a ilha chegaria à “hora zero”. O último navio-tanque a atracar na costa da ilha foi o Ocean Mariner, em janeiro passado, carregando 86 mil barris de combustível exportados pelo México.
Cuba recebeu carregamentos muito pequenos. Segundo o rastreamento da Reuters, apenas duas pequenas embarcações entraram em suas águas este ano. Uma veio do México, carregada com combustível e descarregou em Havana. A segunda, da Jamaica, transportava gás natural. Sob o cerco econômico imposto por Washington, o governo cubano legalizou a importação de combustível por pequenas empresas privadas. Essas empresas teriam começado a receber carregamentos de combustível em meados de fevereiro, de acordo com a agência de notícias EFE.
Um bálsamo para os apagões
“O diesel é o produto número um, o mais importante, necessário não só para Cuba, mas para qualquer país em desenvolvimento. Acho que eles [o governo] vão usá-lo nos setores que mais precisam. Isso é pura especulação, mas acredito que vão fornecer geradores para amenizar o problema dos apagões”, disse Piñón em entrevista por telefone.
O envio do navio Sea Horse é o gesto mais significativo da Rússia em relação à ilha desde que os Estados Unidos ameaçaram, no final de janeiro, impor tarifas aos países que fornecem combustível a Havana. Em um comunicado divulgado na terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia criticou Washington pela "pressão recente" sobre a "ilha da liberdade", referindo-se às declarações recentes de Donald Trump. O presidente americano ameaçou, na segunda-feira, "tomar posse" do país.
Historicamente, Cuba depende da importação de petróleo para suprir suas necessidades energéticas diárias. A nação caribenha consegue suprir apenas cerca de um terço de sua demanda interna com recursos próprios. A crise crônica de eletricidade na ilha se agravou nas últimas semanas, exacerbada pela prisão de Nicolás Maduro na Venezuela e pela ameaça de tarifas americanas.
O país ainda se recupera lentamente do colapso do Sistema Elétrico Nacional (SEN) ocorrido na segunda-feira. Foi a sexta interrupção do tipo nos últimos 18 meses. A empresa estatal de energia informou na manhã de quarta-feira que, nos horários de pico de demanda, quase metade de Cuba ficará sem energia devido ao déficit de geração.
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