11 Março 2026
"Um seminarista não deve se considerar superior a ninguém. Ele deve chegar a compreender, por meio dessas conversões, que na Igreja não existem carismas mais importantes que outros."
O artigo é de Jorge Costadoat, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, publicado por Religión Digital, 07-03-2026.
Eis o artigo.
A Igreja sinodal deu um importante passo em frente. O Grupo de Estudos 4, ao qual o Sínodo dos Bispos delegou o tema da formação do clero, apresentou um documento final ao Papa. Este documento servirá para atualizar as normas da Ratio formationis institutionis sacerdotalis de 2016 e influenciar as normas de várias dioceses. Se este documento cumprir o seu propósito, representará um progresso numa questão fundamental para a ainda pendente recepção do Vaticano II. Pois, se a aceitação do Concílio durante sessenta anos dependeu em grande parte dos sacerdotes, uma inovação decisiva na formação clerical equivale a acertar em cheio.
O documento fundamenta esta formação no Povo de Deus. Sabemos que este título exige que os cristãos, para proclamarem o Evangelho, compreendam que na Igreja o batismo é mais importante do que o sacramento da Ordem, uma vez que este último serve para atualizar a natureza sacerdotal de todos os homens e mulheres. A novidade do documento reside na exigência de que os seminaristas se relacionem horizontalmente com todos os tipos de pessoas. Essas relações devem moldá-los. Este é um forte indício, do qual se podem extrair muitas consequências. A curto prazo, o documento apela a numerosas conversões, isto é, a mudanças de relações assimétricas para simétricas, entendendo que as relações pastorais — governação, celebração e ensino — devem ser funcionais às relações pessoais, tanto dentro como fora do seminário.
Em outras palavras, um seminarista não deve se considerar superior a ninguém. Ele deve chegar a compreender, por meio dessas conversões, que na Igreja não há carismas mais importantes que outros, pois a pessoa que lê o Evangelho na Missa não é melhor do que aquela que varre a capela, como nos lembra São Paulo. Cada pessoa contribui com o seu. Há muitos carismas. Cada batizado contribui com o seu. Não é inconcebível que um possa funcionar sem os outros.
A maior ameaça à sinodalidade — como sabemos — é o clericalismo, como o Papa Francisco tem reiteradamente enfatizado. O documento em questão, focado na construção de uma Igreja sinodal, apela à formação do clero para fomentar a comunhão e a participação no cumprimento de uma missão que não reconhece servos de primeira ou segunda classe. Nesta Igreja, o Povo de Deus, todos devem sentir-se igualmente responsáveis e discernir juntos o que significa a vinda do Reino no presente.
Um ponto particularmente importante do documento é a exigência de que os seminaristas desenvolvam a capacidade de se conectar com comunidades, famílias, indivíduos e os pobres. Mesmo antes de serem aceitos no processo de formação, os selecionados já devem ter estabelecido tais relações. A formação primária, pode-se dizer, deve vir da interação que os futuros ministros estabelecem com todos os tipos de pessoas, e com outros batizados em particular. Os leigos devem ter voz em todas as etapas do processo. Devem inclusive participar da decisão sobre a ordenação sacerdotal. Não deveriam ter o voto decisivo se os que serão ordenados forem colocados à frente de suas comunidades?
O documento diverge decisivamente do Concílio de Trento em um ponto crucial. O Concílio de Trento abordou — e em grande parte resolveu — o problema de um clero ignorante e corrupto. Trento organizou a formação dos ministros: protegeu-os do mundo, exigiu que estudassem, exigiu santidade e os concentrou em uma celebração digna da Eucaristia. O Vaticano II, sem desconsiderar o valor que o seminário tridentino teve por quase quinhentos anos, buscou colocar os formandos em contato com o mundo real. Optatam totius e Presbyterorum ordinis impulsionaram essa mudança. Restava saber se esses decretos integrariam suas inovações às de Lumen gentium e Gaudium et spes.
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