Moradias em áreas de risco de deslizamentos triplicaram em 40 anos, enquanto eventos extremos são mais frequentes: ‘É desesperador’

Foto: Tomaz Silva| Agência Brasil

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05 Março 2026

País tem atualmente 1.942 locais na lista dos mais mais suscetíveis a ocorrências de deslizamentos e inundações.

A informação é de Carolina Bataier, publicada por Brasil de Fato, 04-03-2026. 

Os eventos climáticos extremos estão mais frequentes e a população vivendo nas áreas mais afetadas por eles aumentou em quatro décadas. Dados divulgados nesta quarta-feira (4) pela equipe da plataforma MapBiomas revelam que a urbanização em áreas com risco de deslizamento no Brasil mais do que triplicou nos últimos 40 anos, saltando de 14 mil hectares em 1985 para 43,4 mil em 2024.

O aumento de construções nessas áreas foi maior se comparado ao total do crescimento urbano no país, onde as áreas urbanas cresceram 2,5 vezes em 40 anos.

Gravemente afetada pelas chuvas em fevereiro de 2026, Juiz de Fora (MG) é a terceira cidade brasileira com maior área de urbanização em terrenos com declive, atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. A consequência é o triste saldo de 72 mortos em decorrência dos deslizamentos registrados em fevereiro de 2026.

Eventos como os registrados na cidade mineira “incidem de forma mais dramática em áreas mais sensíveis e vulneráveis, cuja ocupação tem acontecido de forma mais acelerada do que o ritmo da urbanização total”, como destaca Mayumi Hirye, uma das coordenadoras do mapeamento de áreas urbanas do MapBiomas.

Especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato confirmam o que os fatos revelam: embora os eventos climáticos extremos estejam cada vez mais frequentes e intensos, os municípios brasileiros não estão preparados para lidar com esse cenário.

“É evidente que o Brasil não está preparado para lidar com o aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos”, afirma o cientista Paulo Artaxo, um dos integrantes do Conselho de Ciência sobre o Clima, criado pela presidência da COP30, em 2025.

“Nós precisamos retirar a população de áreas de risco o mais rápido possível, senão a gente vai continuar vendo o que estamos observando em Juiz de Fora, o que observamos em Petrópolis [em 2022, com 242 mortos], observamos em Ubatuba [e São Sebastião, cidades do litoral norte do estado de São Paulo afetadas pelas chuvas em 2023, que deixaram 65 mortos]”.

“É desesperador”, avalia Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, sobre as condições de adaptação climática dos municípios brasileiros, ainda insuficientes, como revelam as recentes tragédias.

“As chuvas vão ficar cada vez mais fortes. Sempre choveu na Zona da Mata de Minas Gerais [onde está localizada Juiz de Fora]. Mas agora são chuvas torrenciais. Então, nós temos que nos preparar para esses grandes eventos extremos”, diz.

Em 2012, o Ministério do Desenvolvimento Regional elaborou uma lista com 861 municípios mais suscetíveis à ocorrências de deslizamentos, enxurradas e inundações, levando em conta as localidades onde já haviam sido registradas essas ocorrências. Em 2022, a lista foi aprimorada, subindo para 1.942, o que corresponde a aproximadamente 35% dos municípios brasileiros. Juiz de Fora e Paraty (RJ), também gravemente afetada pelas chuvas em fevereiro de 2026, já constavam na lista publicada em 2012.

A análise do MapBiomas também apresenta dados sobre as construções nas zonas com risco de enchentes e alagamentos. Nesse caso, a urbanização aumentou 145% nos últimos 40 anos, passando de 493 mil hectares em 1985 para 1,2 milhão de hectares em 2024.

MapBiomas é uma plataforma que permite análises, como alterações no uso e ocupação do solo, por meio de imagens de satélite.

‘Não estão em área de risco porque querem’

Suely Araújo lembra da importância da adaptação das cidades para lidarem com os eventos climáticos extremos.

“Em áreas de risco, você tem obras de contenção de encostas”, exemplifica. Nas áreas de ocupações irregulares, uma saída são processos de reurbanização, com melhoria nas infraestruturas, que garantam segurança para aquela população e maior resiliência aos eventos extremos. “E tem situações em que tem deslocamento necessário, quando tem risco de vida, tem que estudar realocação”, afirma.

Ela lembra que, nesses casos, é necessária muita atenção e diálogo com as comunidades remanejadas, que terão suas rotinas afetadas pelo deslocamento. “Você não pode simplesmente ir tirando todo mundo e construindo casinha em lugares remotos”, ressalta.

Paulo Artaxo ressalta a necessidade da continuidade nos programas de habitação, para que sejam políticas de Estado.

“Essas pessoas não estão em área de risco porque querem”, destaca o cientista. “Elas estão lá porque elas não têm opção, absolutamente nenhuma outra alternativa. É uma população de baixa renda que, por causa da especulação imobiliária, em muitos locais são empurradas para as zonas de risco nos morros”, diz.

Criado pela Lei 12.114, o Fundo Clima é um instrumento do governo brasileiro, gerido pelo Ministério do Meio Ambiente e operado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), que financia projetos de mitigação e adaptação à mudança do clima. Até recentemente, no entanto, a maior parte dos recursos era destinada às ações de mitigação, que visam a redução de emissões de gases poluentes para conter o aquecimento global.

Em 2025, foram aprovados R$ 2,4 bilhões, um crescimento de aproximadamente cinco vezes em comparação com o total de R$ 547 milhões de aprovações em 2024 para ações de adaptação aos efeitos da crise climática.

Favelas

No levantamento publicado nesta quarta-feira, o MapBiomas calculou a área de favelas em terrenos com alta declividade. Eram 2.266 hectares em 1985 e 5.704 hectares em 2024, um aumento de mais de 150%. O estado do Rio de Janeiro lidera, com 1.730 hectares, seguido por São Paulo, com 1.061, e Minas Gerais, com 1.057.

Também cresceu a área de favelas em regiões com menos de três metros de distância vertical de áreas de drenagem. O aumento foi de mais de 200% entre 1985 e 2024. Em 1985, eram 15.847 hectares; em 2024, 45 mil hectares. Pará (7.450 hectares), Rio de Janeiro (5.260 hectares) e São Paulo (4.650 hectares) lideram o ranking dos estados com maiores áreas nessa condição.

O Rio de Janeiro se destaca por reunir uma das maiores proporções do país de áreas urbanizadas em cotas críticas — 43% até três metros — e, ao mesmo tempo, um dos maiores valores absolutos de área urbanizada nessa faixa altimétrica, com cerca de 1,1 milhão de hectares de urbanização próxima à drenagem em 2024.

“O caso do Rio de Janeiro é lente de aumento sobre o padrão brasileiro: os dados indicam que a expansão das favelas ocorreu de forma expressiva em áreas topograficamente e hidrologicamente sensíveis, com crescimento proporcionalmente elevado, tanto em encostas quanto em cotas muito próximas à drenagem”, ressalta Julio Pedrassoli, um dos coordenadores do mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas.

As áreas de favela também cresceram em ritmo mais acelerado que a expansão urbana. Eram 53,7 mil hectares de área urbanizada em favelas no Brasil em 1985; em 2024, 146 mil hectares. Os dados mostram o crescimento anual da área urbanizada dentro dos perímetros de favelas e comunidades urbanas, conforme a delimitação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2024, a Região Metropolitana de São Paulo é a que possui maior área urbanizada em favelas: 11,8 mil hectares. As regiões metropolitanas de Manaus (AM) e Belém (PA) têm áreas ligeiramente menores, 11,4 mil hectares e 11,3 mil hectares, respectivamente, porém que representam mais de um terço de toda a área urbanizada desses municípios.

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