"O duro é perceber que tudo o que vem ocorrendo agora já estava no cartaz do Antropoceno". Artigo de Faustino Teixeira

Foto: Tânia Rego | Agência Brasil

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26 Fevereiro 2026

"O duro é perceber que tudo o que vem ocorrendo agora já estava no cartaz do Antropoceno. Nada do que está ocorrendo vai deslocado da ação predatória do humano sobre a natureza", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, em artigo publicado em sua página do Facebook, 25-02-2026.

Eis o artigo.

Juiz de Fora é uma cidade linda, cercada de morros, com um clima gostoso. Está longe do calor do Rio e os tempos de inverno são agradáveis. Aqui nasci em 1954, numa época em que as árvores estavam bem mais presentes e a cidade não tinha essa dimensão que ganhou com o tempo.

Minha diversão predileta era apostar corrida com os bondes, quando ia para o colégio dos Jesuítas, onde sempre estudei. A coisa mais linda eram os casarões, um dos quais, no centro da cidade, era de propriedade de um tia querida. Ao observar as fotos antigas da cidade, não há como não se comover com a beleza de tudo. É também uma cidade universitária, onde os bares estão sempre cheios e a música rola por todo canto.

Ao ver a cidade na primeira páginas dos jornais, como hoje (25/02/2026) na Folha de São Paulo, bate uma tristeza enorme. A cidade está em todos os noticiários, com cenas que nos horrorizam. São tantas perdas e tantos desaparecidos, entre os quais crianças lindas.

O momento é de muita dor. E as chuvas não dão trégua, e ainda se anunciam novas e duras tempestades.

Os amigos, de perto e de longe, manifestam sua preocupação. São muitos os telefonemas de amigos preocupados com a gente. Bonito é ver a rede de solidariedade que vem se firmando, na busca de apoio, cuidado e acolhida aos desabrigados, aos que perderam seus queridos.

O duro é perceber que tudo o que vem ocorrendo agora já estava no cartaz do Antropoceno. Nada do que está ocorrendo vai deslocado da ação predatória do humano sobre a natureza. Aqui na cidade as árvores são obra rara. Com luta e resistência tenaz, os agentes de Gaia buscam preservar o que há de verde.

Há que bradar a cada momento que as árvores não são nossas inimigas, mas as espécies companheiras que nos protegem. Se elas caem é porque a forma como entram no cenário não são as mais adequadas. E corta-se ou poda-se árvores sem lógica definida. Aprisionam-se as mudas em pequenos circuitos reclusos de cimento, que abafam e prejudicam o seu crescimento, com grave exposição à queda.

Com o aquecimento do Atlântico em três graus, condições adversas para a harmonia se firmam, expondo-nos às agruras do dragão do tempo. O que vem ocorrendo não é algo fortuito, mas algo bem traçado nessa rota necrófila que nós mesmos estamos tecendo.

Lendo hoje pela manhã alguns poemas da polonesa Nobel de literatura, Wislawa Szymborska, um deles tocou-me de perto, atualizando essa minha preocupação com Juiz de Fora:

"Se há alegria, é com um misto de aflição, se há desespero, nunca é sem um fio de esperança"

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