A luta do Condor e do touro. Artigo é de Leonardo Boff

Foto: Yunes Velasco, Jorge | Servicio Nacional del Patrimonio Cultural Archivo Nacional de Chile | Wikimedia Commons

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04 Março 2026

"O embate entre o Touro e o Condor significa uma metáfora: Touro é o colonizador espanhol e o Condor o inca do altiplano andino, oprimido. Processa-se uma reversão simbólica: o vencedor de ontem (o Touro) é o vencido de hoje. O vencedor hoje é o Condor. O sonho de liberdade triunfa, pelo menos, simbolicamente."

O artigo é de Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor da revista do ICL LIBERTA (vendas disponíveis aqui); escreveu também A nova evangelização: a perspectiva dos pobres (Vozes, 1990).

Eis o artigo. 

Por mais que tenham sido oprimidos e, em grande parte, exterminados, os povos originários de Abya-Yala (nome indígena para a América do Sul) sempre resistiram e alimentaram a esperança de um dia resgatarem sua identidade.

Em razão desta esperança em algumas comunidades andinas dos antigos incas, lá por Potosí, celebra-se, de tempos em tempos, um ritual de grande significação: amarra-se um Condor no dorso de um Touro bravio. Trava-se, diante da multidão, uma luta feroz e dramática. O Touro faz de tudo para se livrar do Condor e este bica-o, incessantemente, até que com suas potentes bicadas extenua e derruba o Touro. Este então, vencido, é comido por todos.

O cristianismo imposto fazia parte do projeto colonial. Tratava-se, na clássica fórmula “dilatar a fé e o império”. O cristianismo em geral se mostrou sempre sensível ao pobre, embora com métodos discutíveis, mas foi implacável e etnocêntrico face à alteridade cultural. O outro (o indígena e negro) foi considerado inimigo, pagão e infiel.

Contra ele se moveram “guerras justas” e se lhe leu o requerimento (um documento em latim lido diante do cacique no qual ele deveria reconhecer o rei como seu soberano e o papa como representante de Deus). Caso não aceitasse, pois nem entendia o latim, se legitimava a submissão forçada.

Não devemos jamais esquecer que nossas sociedades sul-americanas estão assentadas sobre grande violência praticada pelo colonialismo que invadiu nossas terras e obrigou-nos a falar e pensar nos moldes do invasor. Sofremos feroz etnocídio indígena com sua quase exterminação; o desumano escravismo que reduziu milhões de pessoas a “peças”; a dominação persistente das classes dominantes, egoístas, corruptas e insensíveis face à pobreza de seus semelhantes, negadoras de um projeto nacional que incluísse a todos, só pensando em seus benefícios e privilégios. As desigualdades sociais, as hierarquias discriminatórias e a falta de sentido do bem comum se alimentam ainda hoje deste substrato cultural perverso.

Por isso com espanto ainda recentemente escutamos de autoridades oficiais eclesiásticas que a primeira evangelização não foi uma “imposição nem uma alienação”. E que seria “um retrocesso e uma involução” querer resgatar as religiões ancestrais dos povos originários. Hoje após o sínodo Pan-amazônico do Papa Francisco, ao contrário, se insiste neste resgate.

Face a isso não podemos deixar de escutar o reverso da conquista e da evangelização imposta, a voz das vítimas que ecoam até os dias de hoje. Testemunha-o os lamentos do profeta maia Chilam Balam de Chumayel:

”Ai! Entristeçamo-nos porque chegaram… vieram fazer nossas flores murchar para que somente a sua flor vivesse… vieram castrar o sol”. E sua lamúria continua: ”Entre nós se introduziu a tristeza, se introduziu o cristianismo… Esse foi o princípio de nossa miséria, o princípio de nossa escravidão” (cf. M. León-Portilla, El reverso de la conquista, México, 1989). Há palavras que mais nos desmoralizam que essas? A boa-nova como tristeza, princípio de escravidão!

Segundo o filósofo e historiador Oswald Spengler (1880-1936) em A Decadência do Ocidente (1938), a invasão ibérica na América significou o maior genocídio da história humana. A destruição, diz ele, foi da ordem de 90% da população. Dos 22 milhões de astecas em 1519 quando Hernán Cortés penetrou no México, só restou um milhão em 1600. E os sobreviventes, no dizer de Jon Sobrino, teólogo assessor do Santo Dom Arnulfo Romero, são povos crucificados que pendem da cruz; missão da Igreja e da cidadania aberta é baixá-los da cruz e fazê-los ressuscitar.

O embate entre o Touro e o Condor significa uma metáfora: Touro é o colonizador espanhol e o Condor o inca do altiplano andino, oprimido. Processa-se uma reversão simbólica: o vencedor de ontem (o Touro) é o vencido de hoje. O vencedor hoje é o Condor. O sonho de liberdade triunfa, pelo menos, simbolicamente.

Nesse contexto, a missão da Igreja é de justiça, não de caridade como foi afirmado, solenemente pelas conferências episcopais de toda a América do Sul, como Medellín, Puebla e Aparecida: reforçar o resgate das culturas ancestrais dos povos originários, com seu espírito que são as tradições, a sabedoria dos pajés e suas religiões. E em seguida estabelecer um diálogo no qual ambos se complementam, se purificam e se evangelizam mutuamente.

Então, como atestam tantos missionários, eles nos evangelizam porque, geralmente, são melhores que os cristãos; pelo menos não sabem o que é a mentira. Sentem-se a própria natureza e vivem na maior liberdade.

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