11 Fevereiro 2026
O verdadeiro enigma do século XXI não está tanto em por que figuras como Donald Trump, Javier Milei ou Nigel Farage detêm poder suficiente para impor sua loucura como política de governo, mas em por que milhões de pessoas, jovens e idosas, votam nesses indivíduos e lhes concedem a possibilidade de devastar a existência coletiva”, escreve Franco Berardi, em artigo publicado por Tinta Limón, 05-02-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
O que me chamou a atenção no assassinato a sangue frio da poeta Renee Nicole Good, em Minneapolis, foi a natureza caótica e insensata da sucessão dos fatos: um bando de homens (no sentido de varões) mascarados e armados, com fuzis, movem-se de um lado para o outro em uma estrada coberta de neve, cambaleando, gritando frases desconexas, enquanto uma mulher, ao volante de seu carro, tenta se afastar deles: os milicianos muito bem remunerados do ICE. Trata-se de uma milícia de desequilibrados a serviço de um homem que grita, ameaça e insulta todos os dias, declarando com palavras e atos que não existe mais nenhuma lei em vigor, exceto sua força destrutiva e sua consciência, a consciência de um violador, de um chefe mafioso, de um miserável idiota e ignorante a quem o povo estadunidense entregou um poder ilimitado.
Não vale mais nenhuma outra lei, nem o direito internacional, nem a compaixão por aqueles que sofrem. Apenas a lei da força e a da loucura valem. Sabemos a quem pertence a força, sabemos quais são suas regras, mas a loucura é um jogo sem regras, que pode escapar das mãos da força.
Temos o direito de denunciar a evidente demência do presidente dos Estados Unidos, como se fosse uma falha política? Claro que não. Aprendemos há muito tempo a não considerar a loucura uma falha ou algo que expõe uma pessoa ao escárnio público ou ao internamento em um hospital psiquiátrico. O fator L, de loucura, nada mais é do que um dos fatores que determinam a queda da história humana em uma sucessão de violência e vingança. Um fator entre muitos, mas talvez o principal.
Desde os anos 1970, quando com Franco Basaglia, David Cooper e Félix Guattari retiramos o desvio psíquico do julgamento da lei e do internamento psiquiátrico, sabemos que a questão da loucura não pode ser liquidada de modo apressado. Não podemos resolver o problema do sofrimento mental trancando os loucos em uma prisão. Mas também não podemos considerar a loucura irrelevante, como se fosse algo que não nos diz respeito.
Compreendemos, então, que não é possível entender qualquer coisa sobre a loucura, sem compreender o sofrimento que a pessoa louca carrega consigo, a história de abusos, humilhações, abandono, solidão e marginalização que se agita em seus delírios. Mas também compreendemos o sofrimento que a pessoa louca pode causar aos outros, a quem está mais próximo e, às vezes, desde Hitler, o sofrimento que a pessoa louca pode causar a milhões de mulheres e homens, a populações inteiras.
O verdadeiro enigma do século XXI não está tanto em por que figuras como Donald Trump, Javier Milei ou Nigel Farage detêm poder suficiente para impor sua loucura como política de governo, mas em por que milhões de pessoas, jovens e idosas, votam nesses indivíduos e lhes concedem a possibilidade de devastar a existência coletiva. Portanto, devemos nos aprofundar em duas questões. A primeira é a seguinte: quais patologias acompanham o delírio de poder que, muitas vezes, se torna uma força de atração política? A segunda: que confusão mental, que sofrimento, que humilhação leva as multidões a acompanhar Adolf Hitler ou Donald Trump para o abismo de horror que emana de seus cérebros? Qual é a relação entre a violência sofrida (geralmente na infância) e a crueldade propagada, perseguida e organizada por essa nova fornada de psicóticos no poder?
Há toda uma galeria de psicopatas afortunados a quem a demência abriu as portas do poder político. Penso, sobretudo, no exemplo talvez mais óbvio, o do presidente da Argentina, triunfalmente levado ao poder por um eleitorado majoritariamente jovem. Por que um sujeito que se apresenta como um sádico desejoso de provocar danos à grande maioria da população argentina obteve o apoio caloroso de uma grande maioria de jovens destinados a sofrer miséria, precariedade e escravidão?
Milei ficou mundialmente famoso quando apareceu em público com uma motosserra e declarou que essa ferramenta lhe serviria para atacar os parasitas, ou seja, os funcionários públicos, as escolas, o sistema de saúde e sabe-se lá quem mais. O ódio (totalmente justificado) às políticas neoliberais implementadas por grande parte da esquerda mundial (e argentina), nas últimas décadas, é a razão pela qual milhões de jovens se identificaram com ele.
Mas a outra razão é a onda de psicose niilista, que transtornou a mente coletiva. Não importa que Milei tenha se proposto (sem esconder) a intensificar as políticas de empobrecimento, na realidade, a levá-las ao paroxismo. A exacerbação extrema da violência econômica surge, em uma lógica aceleracionista, como uma espécie de desvelamento, uma denúncia delirante.
Diante da falta de alternativa ao roubo neoliberal, às vezes, as vítimas dessa agressão parecem desejosas de que a agressão se manifeste em toda a sua maldade, como se em algum momento uma política louca pudesse se voltar contra si ou, pelo menos, abrir novos horizontes. Mas há algo a mais nessa onda de adesão ao sadismo político organizado. Para compreender esta adesão é necessário se referir ao colapso da racionalidade política: “A Razão nos enganou por muito tempo”, parece dizer o eleitor de Milei ou de Trump, “agora, vamos provar a não/razão”.
Em História da loucura na Idade Clássica (1961), Michel Foucault explica que a criação dos manicômios e o surgimento do internamento dos desviados foram modalidades úteis para distinguir, institucionalmente, o espaço da Razão do espaço da não/razão. A Razão havia se revelado, em última análise, como a razão da exploração e da acumulação. Portanto, a não/razão foi (e continua sendo) o refúgio de muitos que não aceitam sofrer uma exploração e humilhação sem fim.
Em seu livro Todo lo que querías saber sobre las ultraderechas y no te atrevías a preguntarle a H.P. Lovecraft (2025), o psicanalista argentino Yago Franco explica que é completamente inútil acusar Milei de estar louco. Todos sabem disso, e muitos votam nele justamente por isso. Para muitos, não há dúvida de que Milei está louco e, no entanto, 30% dos eleitores o escolheram no primeiro turno e mais de 50% no segundo. O discurso que tenta desqualificá-lo por causa de seu estado mental não considera, aceita ou compreende que muitos votam nele justamente por isso: por causa de sua loucura. Elegem um louco, uma figura que entusiasma, que encarna o excesso, o protesto, a impotência. Para seus seguidores, o fato dele estar louco só fortalece sua escolha e talvez acabe atraindo mais eleitores.
A distopia predomina no imaginário contemporâneo, na produção literária e na cinematográfica. As catástrofes que tomam conta das geleiras e florestas, mares e cidades talvez pudessem ser controladas, embora seja difícil que os danos causados a esses ecossistemas possam ser revertidos. Mas o colapso da mente coletiva torna improvável que possamos sair com vida. O fato de se continuar investindo na guerra, enquanto se produz o aquecimento, a degradação e a acidificação dos oceanos, é um sinal inegável de um colapso mental. Devemos, portanto, nos ocupar deste fato para compreender em que ponto estamos na parábola descendente destinada a conduzir a humanidade à sua extinção.
Os três filmes que, em 2025, atraíram minha curiosidade mórbida giram em torno do tema da loucura. A psicose coletiva que alimenta a guerra de todos contra todos é o tema do filme de Ari Aster, Eddington. A loucura algorítmica é o tema do filme de Kathryn Bigelow, Casa de dinamite. O fim como destino inescapável, que apenas uma mente paranoica (mas, portanto, lúcida) é capaz de prever é o tema de Bugonia, a nova obra-prima de Yorgos Lanthimos.
Ari Aster fez um filme sobre a guerra civil no Ocidente contemporâneo que não tem nada a ver com o estúpido filme de Alex Garland, Guerra Civil, nem com o espetacular, mas inútil, filme de Paul Thomas Andersen, Uma batalha após a outra. A guerra civil estadunidense não é travada por exércitos em marcha, nem é alimentada por frentes ideológicas opostas, nem por projetos mais ou menos revolucionários. É uma guerra travada há tempo com armas polidas no sótão pelo avô e com metralhadoras compradas no supermercado. Uma guerra que irrompe sem motivo e afeta vítimas ao acaso. É uma guerra desencadeada pelo ódio racista e travada por assassinos do ICE, indivíduos pagos pelo Estado para sequestrar pessoas pobres que trabalham em alguma obra, em um restaurante ou fazenda, mas que não possuem documentos e não conseguem esconder que seus traços não são perfeitamente arianos.
Ari Aster compreendeu o essencial da forma contemporânea da guerra civil: não existem frentes reconhecíveis, nem motivos compreensíveis, porque todos os participantes da tragédia cômica sofrem de diversas formas de demência. Estão doentes. Todos. Todos estão muito mal, como a mãe viciada em drogas do vice-presidente J.D. Vance ou como sua avó, que ele mesmo nos retrata como se fosse uma heroína em seu romance Era uma vez um sonho (2016).
Diante dessa situação, praticamente todos tomam diversos tipos de drogas psicotrópicas, em sua maioria opioides, que são vendidos regularmente com receita médica. O xerife Joaquin Phoenix toma drogas psicotrópicas, a mãe de Vance toma drogas psicotrópicas. Quais drogas psicotrópicas os agentes do ICE tomam?
As vítimas desta guerra são, antes de mais nada, as cem mil pessoas que morrem de overdoses provocadas por um medicamento produzido e distribuído regularmente pelas grandes empresas farmacêuticas estadunidenses, enquanto o exército ianque bombardeia pescadores venezuelanos como responsáveis pela intoxicação dos bons cidadãos estadunidenses. A verdade é que nesse país tudo é incompatível com a vida humana e os seres humanos que têm a infelicidade de nascer lá ou, pior ainda, de emigrar para lá, afundam-se nesse lamaçal e nesse horror com muita pouca esperança de salvação.
Antes da pandemia, Joaquin Phoenix foi o herói do sofrimento solitário (mas contagioso) do Coringa. Agora, após a pandemia, Phoenix retorna e se coloca em cena como o Xerife de Eddington para voltar a contar como o sofrimento solitário da totalidade dos cidadãos e cidadãs estadunidenses, presos nesse inferno que pretende ser o melhor de todos os mundos possíveis, tornou-se um concerto cacofônico de palavras e ações sem sentido.
Em certo momento do filme, o Xerife Phoenix grava um discurso delirante em vídeo e, em seguida, ordena que seu assistente perplexo publique imediatamente seus devaneios “antes de pensar”. Ninguém tem mais tempo para pensar e, de qualquer forma, ninguém é capaz disso. O resultado é óbvio: como tantos massacres que ocorrem em escolas ou igrejas, a presidência de Trump é um suicídio espetacular fadado a acontecer, mas somente após uma série de crimes espantosos, cujo desfecho será talvez a extinção do gênero humano.
Se Ari Aster fez um filme sobre o magma psicótico em que a sociedade daquele país está afundando, ou seja, sobre o inconsciente suicida e suas manifestações imprevisíveis, Kathryn Bigelow, por sua vez, fez um filme sobre a racionalidade perfeita da máquina bélica, capaz de rastrear, segundo a segundo, a trajetória de um míssil atômico que se dirige inexoravelmente para Chicago, mas que não consegue entender quem o lançou, nem o porquê. A loucura algorítmica do sistema militar guiado pela inteligência artificial. A provável extinção da humanidade é narrada aqui como o efeito da concatenação inevitável de dispositivos guiados pela inteligência artificial, como implicação perfeitamente lógica do sistema de segurança global. Mais segurança do que esta, a morte.
Por fim, Bugonia, de Yorgis Lanthimos, um filme surpreendente e profundo: o delírio conspiratório de um assassino em série incel, trazido ao mundo por uma mãe viciada em drogas e abusado por um policial que era seu cuidador. É realmente um delírio ou é a verdade? Talvez seja a única verdade à qual podemos nos agarrar hoje: a verdade da desejável extinção do gênero humano agora já desprovido de humanidade.
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