"O retorno da direita é também o retorno de uma espécie de aliança entre a cruz e a espada". Entrevista com Gianni La Bella

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11 Fevereiro 2026

Um continente em verdadeira metamorfose, uma "mutação genética" do panorama sociopolítico. Esta é a América Latina, ao final de um ano dominado pela direita, frequentemente a direita "trumpista", nas principais eleições: da recente vitória de Juan Antonio Kast, um "nostálgico" de Pinochet, no Chile, à Argentina, onde o presidente Javier Milei venceu as eleições de meio de mandato; seguidas por Bolívia, Equador e Honduras. Logo ali está 2026, ano de importantes eleições presidenciais: Peru, Colômbia e, no fim do ano, Brasil. Faz apenas três anos que a esquerda esteve no poder em todos os principais países sul-americanos.

"Se a tendência atual se confirmar no próximo ano", reflete ao Sir Gianni La Bella, professor de História Contemporânea na Universidade de Módena e Reggio Emilia e figura de destaque da Comunidade de Santo Egídio para a América Latina, "nos depararemos com uma 'mancha cinzenta' quase ininterrupta que não queremos definir como negra."

A entrevista é de Bruno Desidera e Andrea Regimenti, publicada por Agência Sir, e reproduzida por Religión Digital, 20-12-2025.

Eis a entrevista.

Professor, o exemplo mais recente é a vitória de Kast no Chile. Será que a direita vence em todos os lugares da América Latina?

Começando pelo Chile, acho que há pouco a dizer. No segundo turno, as forças de centro-direita se uniram, apresentando propostas alinhadas ao pensamento de direita em todo o continente. Mas minha reflexão é diferente...

Explique-nos isso, pois estamos diante de uma tendência geral.

Impressiona-me o fato de nos encontrarmos em meio a uma metamorfose do contexto sociopolítico; está nascendo uma "América Latina diferente", que deve ser interpretada com novas chaves de compreensão.

Será que foi obra de Trump?

A questão é mais complexa, mas sem dúvida um elemento fundamental é justamente o fato de que, com o governo Trump, a América Latina voltou a ocupar o centro do espectro político. A ideia é restabelecer uma forte hegemonia, após o desinteresse demonstrado pelos governos Obama e Biden. Fala-se abertamente de um retorno à "Doutrina Monroe". De fato, Miami é a "capital" dessa linha política, cuja figura-chave é o subsecretário Marco Rubio, um cubano exilado. Ele é o "cérebro" dessa operação, que visa eliminar a esquerda do continente. Outro aspecto é o desejo de contrabalançar a China, que tem se tornado cada vez mais presente nos últimos anos, especialmente no Chile e no Peru.

No entanto, você também mencionou uma mutação genética interna. O que é isso?

O mais óbvio é que o anti-americanismo, entendido como hostilidade contra os "gringos", os Estados Unidos, não existe mais. Hoje, na América Latina, todos olham para o norte; todos esperam ir morar nos Estados Unidos, considerados a terra da prosperidade. A consequência é a crise do ideal "bolivariano", que fascinou gerações de latino-americanos nos últimos cinquenta anos: o anseio por um subcontinente unido, livre de influência estrangeira. Hoje, nenhum líder da direita latino-americana se refere a essa ideia; todos olham para Washington.

Nesse cenário, o que está à esquerda está fora de lugar?

Por um lado, parece quase "jurássico", com líderes ainda em cena após vinte anos. Por outro lado, justamente aquele que se apresentava como uma grande novidade, o jovem presidente do Chile, Gabriel Boric, que emergiu como líder dos protestos populares, decepcionou as expectativas e não conseguiu atingir seus objetivos.

No entanto, não faltam problemas graves e necessidade de mudança...

A realidade na América Latina é ainda mais dramática do que era há trinta anos. Os mesmos "monstros" de sempre, como o narcotráfico, o crime e a corrupção, estão se fortalecendo. A população está cada vez mais desculturalizada, com taxas de evasão escolar muito mais altas. E não podemos nos esquecer daquele escandaloso "buraco negro" que é o Haiti, um país nas mãos de gangues criminosas.

Sem falar no risco de guerra caso Trump intervenha militarmente contra a Venezuela de Maduro.

Pessoalmente, não acredito que Trump se arrisque a uma invasão a menos de um ano das eleições de meio de mandato, embora certamente ele tenha interesse no país com as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas uma "invasão" seria muito arriscada. Paradoxalmente, Maduro, apesar das fortes críticas, goza de relativo apoio em setores da população que se beneficiam da proximidade com o regime. Acredito que o único caminho a seguir é a negociação.

De que maneira uma situação social e política tão complexa afeta a Igreja?

Este ressurgimento da direita é também o retorno de uma certa dimensão religiosa, uma espécie de aliança entre a "cruz" e a "espada", que, no entanto, é liderada pelo mundo neoevangélico, por vezes por certas seitas. A voz da Igreja parece fraca... Contudo, nas últimas décadas, a voz da Igreja continental, através do CELAM, tem sido particularmente significativa, e é urgente que continue a sê-lo. É difícil imaginar uma Igreja que permaneça confinada às fronteiras nacionais.

O que esperar?

O Papa Francisco, precisamente com vistas a um renovado compromisso social e político, defendeu os movimentos populares em quatro discursos muito importantes. A estas palavras somou-se o quinto discurso, o do Papa Leão XIV, em alguns aspetos ainda mais "revolucionário". Mas devemos acreditar nele; devemos abraçar esta perspectiva.

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