Recordando algumas notas do Papa Francisco nestes tempos de incerteza política global. Artigo de José Luis Ferrando

Papa Francisco | Foto: Vatican Media

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11 Fevereiro 2026

Em tempos de incerteza política global, para onde caminha a humanidade? Nós, como cidadãos, não podemos deixar de sentir certa apreensão em relação a propostas que desconsideram o arcabouço legal que sustentou o nosso mundo ocidental.

O artigo é de José Luis Ferrando, teólogo, filósofo e escritor espanhol, publicado por Religión Digital, 18-01-2026.

Eis o artigo.

Em agosto de 2024, o Papa Francisco nos convidou a rezar "para que os líderes políticos estejam a serviço de seu povo, trabalhando pelo desenvolvimento humano integral e pelo bem comum, atendendo àqueles que perderam seus empregos e dando prioridade aos mais pobres".

Essa intenção é muito oportuna nestes momentos de incerteza política global. Para onde caminha a humanidade? Nós, como cidadãos, não podemos deixar de sentir certo temor diante de algumas propostas que desconsideram o arcabouço legal que sustentou o nosso mundo ocidental. De uma perspectiva geopolítica, a chegada de Trump significou derrubar as peças do tabuleiro de xadrez. Estamos cada vez mais diante de um mundo fragmentado, no qual a demanda por segurança nacional ou regional prevalece sobre outros objetivos multilaterais, como a prosperidade global. O aumento da produção de armamentos e os apelos pelo retorno do serviço militar obrigatório em alguns países são exemplos claros disso. Um panorama global de desordem e caos é perceptível. E a ameaça nuclear paira no horizonte…

O Papa, em seu discurso na reunião do G-7, especificamente sobre inteligência artificial, abordou alguns aspectos, deixando bem claro – para aqueles que demonizam a inteligência artificial – que: "a inteligência artificial origina-se precisamente do uso desse potencial criativo que Deus nos deu". Mas, ao mesmo tempo, ele revela tanto seu fascínio quanto suas preocupações: “Certamente não podemos duvidar de que a chegada da inteligência artificial representa uma verdadeira revolução cognitivo-industrial, que contribuirá para a criação de um novo sistema social caracterizado por complexas transformações de época. Por exemplo, a IA poderá permitir a democratização do acesso ao conhecimento, o progresso exponencial na pesquisa científica e a possibilidade de delegar trabalhos fisicamente exigentes às máquinas; mas, ao mesmo tempo, poderá trazer consigo maior desigualdade entre nações avançadas e em desenvolvimento, entre classes sociais dominantes e oprimidas, comprometendo assim a possibilidade de uma ‘cultura do encontro’ e fomentando uma ‘cultura do descarte’”.

Focando nas implicações políticas da inteligência artificial, o Papa Francisco nos lembra: “E é precisamente aqui que a ação política se faz urgentemente necessária, como nos diz a encíclica ‘Fratelli tutti’: ‘Certamente, para muitos, política hoje é uma palavra suja, e não se pode ignorar que por trás desse fato muitas vezes se escondem erros, corrupção e a ineficiência de alguns políticos. A isso se somam as estratégias que buscam enfraquecê-la, substituí-la pela economia ou dominá-la com alguma ideologia. Mas pode o mundo funcionar sem política? Pode haver um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política?” A afirmação retumbante de Francisco é: “A nossa resposta a estas últimas perguntas é: não! A política é útil! A política tem de ser eficaz. Quero reiterar nesta ocasião que… perante tantas formas mesquinhas e míopes de política… a grandeza política manifesta-se quando, em tempos difíceis, se age segundo grandes princípios e tendo em mente o bem comum a longo prazo. O poder político tem muita dificuldade em assumir este dever num projeto nacional, e ainda mais num projeto comum para a humanidade presente e futura.” Mais uma vez, o “bem comum” é dominante… Ouviram-no então? Ouvirão-no agora?

E, por fim, referindo-me à Laudato si’ : “Minha reflexão sobre os efeitos da inteligência artificial no futuro da humanidade nos leva, portanto, a considerar a importância de uma ‘política sólida’ para que possamos olhar para o nosso futuro com esperança e confiança. Como já disse em outra ocasião, ‘a sociedade global tem sérias falhas estruturais que não podem ser resolvidas com medidas paliativas ou meros ajustes rápidos e ocasionais. Há coisas que precisam ser mudadas com um repensar fundamental e transformações significativas. Somente uma política sólida pode conduzir a isso, reunindo os mais diversos setores e os mais variados saberes. Dessa forma, uma economia integrada a um projeto político, social, cultural e popular que busca o bem comum pode ‘abrir caminho para diferentes oportunidades, que não implicam interromper a criatividade humana e seu sonho de progresso, mas sim direcionar essa energia para novas direções’. E a conclusão final em seu discurso perante o G7: ‘É precisamente o caso da inteligência artificial’. Cabe a cada indivíduo fazer bom uso dela, e cabe à política criar as condições para que esse bom uso seja possível e frutífero.” A política tem muito a dizer sobre o uso da IA ​​(Inteligência Artificial).

O Papa Francisco falou claramente aos líderes políticos sobre "servir ao seu povo, trabalhar pelo desenvolvimento humano integral e pelo bem comum". Isso é absolutamente necessário, especialmente considerando os dados recentes de várias organizações. A humanidade está atualmente enfrentando 56 conflitos armados. Sem dúvida, os mais divulgados são os da Ucrânia e de Gaza, mas sabemos pouco sobre os outros, e eles são profundamente preocupantes em termos de violações dos direitos humanos e das consequências para as populações afetadas. A indústria armamentista certamente está prosperando. E uma consequência direta é que existem atualmente 120 milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo como resultado de guerras, perseguições ou mudanças climáticas. Nós, no Hemisfério Norte, abordamos a questão da imigração em termos de cotas legais ou ilegais para seres humanos que fogem dos horrores da guerra, da fome ou de um futuro muito incerto... Isso é pura e completa hipocrisia. Os movimentos populistas prosperam com essas filosofias... E muitos jovens se juntam rapidamente a essas forças políticas.

Naturalmente, o Papa Francisco pediu-nos que rezássemos pelos líderes políticos para que tivessem a sabedoria e o bom senso necessários para garantir que a sua governação estivesse o mais próxima possível do bem comum, sendo o primeiro deles a paz. Uma nova ordem mundial, baseada em regras mais estáveis ​​e previsíveis, parece-nos hoje impossível.

A oração continua sendo um sonho ou uma utopia, mas devemos trabalhar por esse "amanhã", que, como disse a cantora e compositora aragonesa Labordeta, "nem você, nem eu, nem ninguém jamais verá, mas devemos lutar para que ele se torne realidade..."

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