Podemos aprender todos os dias como ficar ao lado de quem está prestes a morrer. Artigo de Vincenzo Paglia

Foto: Pixabay | Canva

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09 Janeiro 2026

"É difícil preencher repentinamente abismos de indiferença, vazios de relacionamentos, ausência de palavras. Aqueles que se aproximam da morte sentem a perda não apenas da vida, mas também da presença de outros", escreve Vincenzo Paglia, arcebispo italiano, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, em artigo publicado por Avvenire, 07-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A morte é uma passagem, concluí da última vez. Muitas vezes, infelizmente, acontece na solidão e no hospital. E se a solidão é sempre ruim, nesses momentos é, se possível, ainda pior. E, combinada com a dor, torna-se insuportável, a ponto de preferir a morte. Quantos pedidos de eutanásia começam daí! Há, no entanto, uma questão fundamental: não sabemos mais como ficar ao lados de quem está prestes a morrer. Muitas vezes nos faltam palavras.

Acompanhar é uma arte feita de atenção, compreensão, amizade, paciência, fidelidade, ternura: tudo para envolver com afeto quem está prestes a morrer É uma perspectiva presente em todas as religiões. A fé ajuda, e bastante! Madre Teresa de Calcutá, que fez do acompanhamento dos moribundos a sua vocação e a de muitas de suas coirmãs, conta: "Um dia, recolhi um homem que estava atirado na sarjeta. Seu corpo estava coberto de vermes... Ele não praguejou, não culpou ninguém. Simplesmente disse: 'Vivi como um animal, mas morrerei como um anjo, como alguém que foi amado e cuidado.' Levou três horas para lavá-lo. Finalmente, o homem olhou para a freira e disse: 'Irmã, estou indo para casa, para Deus', e morreu." Nunca vi um sorriso tão radiante quanto aquele que vi no rosto daquele homem...”.

O acompanhamento encontrou suas manifestações ao longo dos séculos, próprias de cada época. Não apenas aliviou a angústia dos mais diretamente afetados, como também moldou a própria organização da sociedade. É um capítulo imenso de sabedoria religiosa e humana que marcou geração após geração de fiéis. Deveríamos tirar ensinamento dela para os dias de hoje. Tornaríamos nossa sociedade menos triste, pois não sabe mais falar sobre a morte, aquela dos entes queridos, dos pequenos, dos inocentes, e sobre a existência daqueles que ficam! No recente incidente na Suíça, com a trágica morte daqueles jovens, muitos disseram e escreveram: "Não há palavras". Eu me pergunto: "Não há palavras, ou somos nós que não as conhecemos mais?" Talvez nem saibamos mais como nos acompanhar enquanto vivos. Quanta solidão! Conversar, nos momentos felizes e nos momentos tristes, é a maneira humana de viver; deve ser assim também na morte. Outro exemplo da dificuldade de estar perto daqueles que estão prestes a morrer é o debate sobre o fim da vida. Todos obcecados pelas normas. Nesses momentos, mais do que normas, precisamos de amor, de calor, de ternura, de estar presentes. Há quem defenda a urgência de uma lei. Talvez. Mas "vamos ter cuidado, porque nas questões últimas, somos sempre penúltimos", alerta o ilustre jurista Zagrebelsky. Hoje, uma lei sobre o "fim da vida" pode se revelar necessária para evitar a burocratização da morte, para prevenir abusos e violências, mesmo inconscientes, de médicos em relação a pacientes e, às vezes – infelizmente – até mesmo de pacientes contra os médicos (naqueles casos extremos em que a legítima autodeterminação do paciente, por meio do chamado "testamento biológico", pode levar à pretensão de paralisar a intervenção de um médico). Em todo caso, é ilusório confiar unicamente à norma a solução das grandes questões da vida e da morte.

É indispensável uma ampla reflexão para ver como acompanhar quem está prestes a morrer. Em seguida, o plano legislativo também pode ser envolvido. Como é sabido, a obrigação da lei (ob-ligatio), se não suscitada pelo vínculo (ligatio) entre as pessoas, permanece inevitavelmente formal e exterior. Aqueles que se aproximam da morte não precisam tanto de normas, mas da proximidade afetuosa dos vivos. Ouçamos Marie de Hennezel, que extraiu sábias reflexões das longas horas passadas ao lado de doentes terminais: "No momento em que a morte se aproxima", escreve ela, "quando a tristeza e o sofrimento predominam, ainda pode haver vida, alegria e comoventes emoções de uma profundidade e intensidade por vezes nunca antes experimentadas." E continua: "Num mundo que acredita que uma 'boa morte' é aquela súbita e repentina — de preferência sem se dar conta, ou pelo menos rápida, para perturbar o mínimo possível a vida dos que ficam — um testemunho sobre o valor dos momentos finais da vida, do incrível privilégio de presenciá-los, não me parece supérfluo. Aliás, espero contribuir para uma evolução da sociedade, uma sociedade que, em vez de negar a morte, aprenda a integrá-la à vida, uma sociedade mais humana, na qual, conscientes da nossa condição de seres mortais, tenhamos mais respeito pelo valor da existência."

Infelizmente, diante da morte, hoje facilmente se tenta fugir, numa fuga generalizada, "cada um por si", para não sentir e, sobretudo, para evitar viver o constrangimento de uma situação para a qual não temos mais palavras. E, no entanto, haveriam, e muitas! De qualquer forma, é bom habituar-se a estar perto uns dos outros, já durante a vida, e especialmente perto daquelas pessoas frágeis e vulneráveis. Se o acompanhamento se tornar uma cultura difundida e praticada, certamente será muito mais fácil ficar ao lado de quem está prestes a morrer, fazendo com que sinta que ainda precisamos dele. A rarefação das relações e o arrefecimento dos relacionamentos gratuitos explicam o alastramento da solidão e do abandono nos momentos da morte.

Uma vez que a morte foi removida da vida pública, a sociedade também abandonou o moribundo ao seu destino. Ocorreu uma profunda mudança cultural, que nos leva a passar do pedido de "piedade para quem morre" para aquele de pedir a "morte por piedade". Isso me parece mais uma regressão cultural.

Norbert Elias, sociólogo judeu, aos 90 anos publicou no início da década de 1980 um ensaio bastante curto, "A Solidão dos Moribundos". O texto tornou-se imediatamente um clássico. O autor denunciava a incapacidade de fornecer aos moribundos a ajuda e a atenção de que necessitam como um dos problemas mais graves do século XX — e um que continua muito presente hoje. A razão reside na fuga da morte pessoal: "Na morte dos outros, vemos uma lembrança da nossa própria", argumentava. E acrescentava: até mesmo "a visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte. O amor de si sussurra que elas são imortais: o contato muito próximo com moribundos ameaça o sonho acalentado". É difícil preencher repentinamente abismos de indiferença, vazios de relacionamentos, ausência de palavras. Aqueles que se aproximam da morte sentem a perda não apenas da vida, mas também da presença de outros. Os próprios médicos e enfermeiros devem sentir a responsabilidade de se educar à escuta e ao relacionamento com aqueles que estão prestes a morrer. O mesmo vale para os agentes funerários.

Nas relações humanas, o profissionalismo isento da qualidade humana da relação não basta. Em suma, antes de sermos profissionais, todos somos, em primeiro lugar, homens e mulheres. É por isso que parentes e amigos também têm uma grande responsabilidade de ficar perto de quem está prestes a morrer, a partir da mais simples das relações, como segurar as mãos do outro. Diante da vertigem da morte, as "mãos entrelaçadas" têm um valor inimaginável: significam vínculo, amor, segurança, continuidade. O amor transmitido por mãos que acariciam, limpam, ajudam e lutam contra a dor e a agonia, de certa forma já derrota a morte. Além disso, o dom da companhia é recíproco: permite que a pessoa que está morrendo permaneça viva até o fim e atravesse o momento da morte já saboreando — poderíamos dizer antecipadamente (para aqueles que creem) — o amor que a aguarda; e permite que aqueles que a acompanham aprendam uma lição sobre a fragilidade que todos nós carregamos. Há uma troca de dons: fica bem claro que cada um precisa do outro.

É difícil compreender a morte sem reconhecer a própria fragilidade, sem se dar conta dos próprios limites, em suma, sem ser humilde. O amor é humildade e acolhimento do outro. Ao acompanhar quem está prestes a morrer, mostramos o quanto é ele importante para nós: não é um fardo, continua sendo um dom. E se ele conseguir ler em nosso olhar, em nossas mãos, em nossos gestos, o afeto que sentimos por ele, compreenderá quão grande é sua dignidade e quão importante ele é para nós: não apenas será consolado, mas nos transfirirá um consolo antes inimaginável. Até mesmo quem está prestes a morrer doa amor a quem está à sua volta.

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