06 Janeiro 2026
", escreve Giovanni Marian Vian, professor italiano de filologia patrística e jornalista, em artigo publicado por Domani, 04-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Oito meses se passaram desde a eleição relâmpago de Prevost em 8 de maio, e seu pontificado está tomando forma. Segundo muitos observadores, o governo na Igreja e da Igreja — delineado pelas primeiras palavras de Leão XIV, que, com Santo Agostinho, disse: " Para vós sou Bispo; convosco sou cristão" — está em um ponto de virada, marcado pela conclusão do Ano Santo e por uma reunião sem precedentes dos cardeais.
Na festa da Epifania, o pontífice encerrará um Jubileu que começou discretamente devido ao declínio e quase ausência de Bergoglio, que faleceu em 21 de abril. Para Prevost, no entanto, o Ano Santo foi também um aprendizado no papel incomparável descrito no início da Idade Média por Gregório Magno como o de "servo dos servos de Deus", que se tornou o título papal mais autêntico. Logo em seguida, nos dias 7 e 8 de janeiro, Leão participará do mais numeroso consistório extraordinário já realizado. Primeira manifestação concreta de uma colegialidade que nos últimos meses Prevost tem repetidamente indicado querer privilegiar e desenvolver, o consistório é uma reunião de todos os cardeais "convocados para discutir as questões de maior importância", conforme prevê o atual Código de Direito Canônico.
Liturgia reformada
Publicada em 7 de novembro pelo National Catholic Register, a notícia só foi confirmada em 20 de dezembro por um comunicado do Vaticano, após o jornal Il Giornale ter antecipado os temas do consistório quatro dias antes. Além daqueles centrais da proclamação do Evangelho e do papel da Cúria Romana, a pauta também incluirá a instituição do sínodo — idealizado por Paulo VI, mas modificado pelo Papa Francisco e, segundo críticos, enfraquecido — e a questão da liturgia reformada pelo Concílio.
Após a enxurrada de indicações cardinalícias bergoglianas, o número de prelados investidos pela púrpura romana hoje é de 245, embora seja improvável que o número de participantes no primeiro consistório de Leão exceda o número (pouco mais de 190) presente nas congregações gerais que prepararam o conclave, no qual, no entanto, participaram apenas 133 eleitores. De fato, há mais de meio século — por uma decisão de Montini confirmada por todos os seus sucessores — os cardeais com mais de oitenta anos perdem o direito de voto no conclave e devem renunciar às suas funções na Cúria, mantendo, porém, outras prerrogativas, incluindo a de participar dos consistórios.
Fatos
Além do limite de idade, introduzido em 1970, Paulo VI estabeleceu posteriormente que o número de eleitores papais não deveria exceder 120, e em 1973 recomendou que "essa norma cuidadosamente ponderada tenha valor duradouro e que nossos sucessores também procurem mantê-la em vigor". Como de fato aconteceu, pois nunca num conclave entraram mais de 115 eleitores. Até a surpreendente "fornada" — para usar o termo da Cúria — de cardeais com a qual o Papa Francisco nomeou vinte eleitores em 7 de dezembro de 2024. Seu número subiu, portanto, para 140, posteriormente reduzido para 133 devido a limites de idade e outros impedimentos.
Diante dessa situação, em 30 de abril, os cardeais reunidos nas congregações gerais durante a sede vacante "ressaltaram" — em uma declaração bastante incomum — a violação do limite estabelecido por Montini e observaram que "os cardeais que excediam o limite" haviam adquirido o direito de eleger o papa. Mesmo respeitando o poder papal, o Colégio Cardinalício quis, assim, de forma sutil, mas clara, distanciar-se do descaso jurídico do pontífice recém sepultado.
Mas há mais. Devido ao aumento progressivo e significativo da expectativa de vida, imprevisível há poucas décadas, o Colégio Cardinalício está agora, pela primeira vez, dividido em duas partes exatamente iguais: 122 eleitores e um número igual de cardeais com mais de oitenta anos, além de Angelo Becciu, de setenta e sete anos, que acabou numa espécie de limbo. Devido a uma questão financeira ainda não esclarecida, cujo julgamento vem se arrastando há anos no tribunal do estado do Vaticano, o Papa Francisco decidiu excluir do conclave o cardeal, outrora seu colaborador próximo. Considerada controversa e problemática por muitos, a decisão de Bergoglio não foi superada pelos cardeais reunidos após a morte do Papa, e a espinhosa questão, praticamente sem precedentes, só pôde ser resolvida com a renúncia do prelado sardo de participar do conclave.
À sua explícita apreciação pelo gesto de Becciu, o Colégio Cardinalício acrescentou — na mesma declaração sobre o número de eleitores e com outra crítica implícita aos procedimentos autocráticos de Bergoglia — a esperança de que "os órgãos de justiça competentes possam apurar definitivamente os fatos". Embora pouco frequente nos últimos séculos, o protagonismo demonstrado pelo Colégio Cardinalício durante a última sede vacante diante do exercício absoluto do poder pelo Papa Francisco tem precedentes, especialmente no final da Idade Média. Desde a Antiguidade tardia, existiam cardeais em Roma ligados a "títulos", ou seja, às igrejas mais importantes da cidade. A partir de meados do século XI, o cardinalato afirma-se como colégio, ao qual, em 1059, o pontífice borgonhês Nicolau II começa a confiar a tarefa de eleger o papa. Mais de um século depois, a partir de 1179, essa tarefa torna-se prerrogativa exclusiva do Sacrum Collegium, denominação que não é mais usado desde 1983, mas que continua a agradar aos meios de comunicação.
Quinze séculos
Ao longo de quinze séculos, os cardeais ultrapassaram os quatro mil, mas durante a Idade Média raramente se aproximaram do número tradicional de cinquenta e três. O "sagrado colégio" era, de fato, composto por sete bispos das sedes mais próximas de Roma (chamadas suburbicárias), vinte e oito padres (sete para cada uma das quatro principais basílicas romanas) e dezoito diáconos, todos designados por igrejas titulares e, portanto, formalmente pertencentes ao clero romano. Mesmo que sejam escolhidos "de qualquer lugar", como escreve Bernardo de Claraval ao seu discípulo que se tornou o Papa Eugênio III em 1145.
O número de cardeais varia entre dez e trinta, com um mínimo de seis e um máximo de quarenta e sete, e esse colégio se estabelece, assim, como um pequeno e influente grupo. Esses "senadores espirituais da Igreja universal" — como Pedro Damião os define já em 1063 — governam-na colegialmente por séculos, juntamente com o Papa. Em 1289, obtêm metade das rendas da Sé Romana de Nicolau IV e, portanto, são contrários a uma expansão do colégio.
O principal órgão de governo são os frequentes consistórios. Desde o início da era moderna, com o crescimento do poder papal, o surgimento das congregações romanas e o aumento progressivo do número de cardeais, seu papel se enfraquece. O século XX marca a clericalização — até 1917, não era exigido que um cardeal fosse ordenado sacerdote — e, especialmente a partir de 1945, pela globalização do Colégio Cardinalício. Por essa razão, o primeiro consistório convocado por Prevost poderia inaugurar uma nova era.
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