Entre a fé e o poder: o dilema do Vaticano diante da ditadura de Ortega-Murillo. Artigo de Pedro Lanzas

Daniel Ortega e Rosario Murillo | Foto: Consejo de Comunicación y Ciudadanía del Gobierno de Nicaragua/Wikimedia Commons

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06 Janeiro 2026

Análise de Roma sobre o papel e a abordagem do Papa Leão XIV à perseguição sistemática da Igreja Católica na Nicarágua pelo regime de Ortega-Murillo.

O artigo é de Pedro Lanzas, publicado por Religión Digital, 27-12-2025.

Pedro Lanzas é o pseudônimo de um religioso nicaraguense que, por medo de perseguição, não revela seu nome verdadeiro.

Eis o artigo.

Uiūs regiō, eius religiō é uma frase em latim que significa que a confissão religiosa do príncipe é imposta a todos os cidadãos de seu território.

Dilema do Vaticano: restabelecer relações com a ditadura de Ortega-Murillo ou esperar pelo seu fim?

A ascensão da consciência crítica, manifestada nas marchas massivas de 2018, e a brutal repressão do regime contra uma população indefesa culminaram em massacres perpetrados pela polícia a serviço da ditadura da família Ortega-Murillo. Esses eventos não apenas marcaram um ponto de virada na história recente do país, mas também despertaram uma profunda consciência entre agentes pastorais, padres, bispos e leigos comprometidos com a missão da Igreja.

Essa mudança manifestou-se, em primeiro lugar, na abertura das igrejas para abrigar cidadãos perseguidos e ameaçados por forças repressivas e, em segundo lugar, no distanciamento progressivo — e, em muitos casos, na ruptura — das relações anteriormente harmoniosas entre o clero e o governo. Essa harmonia havia sido cultivada durante anos pelos líderes sandinistas. A partir de então, a Igreja passou a abordar explicitamente em seus sermões temas como a defesa dos direitos humanos, a liberdade de expressão e o direito ao protesto pacífico, alinhando-se, assim, às reivindicações dos manifestantes.

Essa postura provocou uma reação furiosa do casal presidencial, manifestada em ataques verbais contra a Igreja Católica, perseguição direta aos seus líderes mais visíveis e um cerco sistemático à comunidade católica em geral. Longe de diminuir, essa estratégia repressiva intensificou-se constantemente nos últimos sete anos.

Uma análise dos discursos presidenciais revela claramente a ideologia que o regime busca impor à sociedade. Tanto Daniel Ortega quanto Rosario Murillo expressaram oposição declarada à presença e à liderança da Igreja Católica, especialmente às suas figuras mais representativas: o Papa, os cardeais e os bispos e, em menor grau, os padres e leigos envolvidos no trabalho pastoral.

O regime justifica essa oposição alegando que a Santa , como representante da Igreja universal, legitimou historicamente o poder imperial, particularmente durante a conquista e dominação espanhola, impondo — sob o pretexto da evangelização — uma dominação ideológica que difundiu a cultura cristã ocidental em detrimento das cosmovisões, tradições e expressões culturais dos povos indígenas. Segundo essa narrativa, essa imposição cultural foi opressiva e marginalizou sistematicamente as identidades indígenas; portanto, sustentam, ela deve ser superada e erradicada.

Dessa perspectiva, o casal Ortega-Murillo promove duas estratégias complementares. A primeira consiste em controlar a liderança da Igreja Católica — do Papa aos bispos e padres — submetendo-a aos princípios ideológicos do regime ou neutralizando aqueles que resistem.

A Igreja, especialmente desde a renovação que se seguiu ao Concílio Vaticano II, há mais de sessenta anos, tem promovido, por meio de seu ministério social, a defesa dos direitos humanos, do Estado de Direito e da democracia. Esses princípios, que o regime identifica com a cultura política do OcidenteEstados Unidos e Europa —, são percebidos como uma ameaça. Em consonância com o rompimento de relações com organizações que incorporam esses valores, como a OEA, o regime considera o Vaticano uma instituição fundamental na disseminação de uma cultura que desafia seu modelo autoritário.

Consequentemente, Manágua está tentando negociar acordos com a Santa Sé que lhe permitam avançar rumo a uma espécie de “independência religiosa”, propondo a nomeação de bispos alinhados com sua ideologia e a promoção de padres próximos ao regime, com o objetivo final de controlar o pensamento e a liderança eclesial e, por meio disso, promover uma transformação cultural subordinada ao poder político.

O regime já tomou medidas concretas nessa direção. Proibiu manifestações religiosas fora das igrejas — como as procissões de La Purísima ou San Jerónimo em Masaya — exceto quando coordenadas por agentes do governo, como é o caso de Santo Domingo em Manágua ou La Merced em León. Ao mesmo tempo, enquanto restringe as manifestações públicas de fé nas paróquias, promove altares e celebrações organizadas por instituições estatais, amplamente divulgadas pela mídia oficial.

A Santa Sé enfrenta, portanto, uma decisão desconfortável e arriscada : reabrir relações diplomáticas com uma ditadura que persegue sistematicamente a Igreja ou manter um silêncio crítico que acompanha prudentemente um clero perseguido e dizimado. O Vaticano, com sua longa tradição diplomática, optou até agora por uma estratégia de cautela, liderada pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado. Essa abordagem impôs um silêncio quase completo aos bispos e padres exilados, não apenas por medo de represálias contra aqueles que permanecem no país ou contra suas famílias, mas também como parte de uma tática destinada a reabrir a Nunciatura Apostólica, fechada em 2022, e restabelecer canais de diálogo.

No entanto, o regime parece aspirar a algo mais profundo: a formação de uma igreja nacional subordinada ao poder político, desvinculada da liderança do Papa e da tradição universal da Igreja, a fim de controlar seu pensamento e neutralizar sua influência cultural.

A segunda estratégia principal do regime é a instrumentalização da religiosidade popular. É importante distinguir entre a piedade católica — centrada em práticas como a oração do rosário — e a religiosidade popular, que expressa um forte sincretismo entre tradições indígenas e elementos do catolicismo. Celebrações como a de Santo Domingo em Manágua, com profundas raízes pré-hispânicas, ilustram essa dinâmica, onde predominam expressões e rituais culturais não relacionados à devoção católica propriamente dita.

Rosario Murillo também demonstra uma visão marcadamente esotérica da religião. As chamadas "árvores da vida" e outras expressões simbólicas promovidas pelo regime refletem essa visão de mundo, que busca resgatar e reinterpretar elementos culturais ancestrais para construir uma identidade nacional alternativa à herança colonial e cristã ocidental. Para tanto, o regime tentou cooptar festas tradicionais de santos padroeiros e confrarias religiosas, infiltrando-as com quadros sandinistas e deslocando progressivamente o papel do clero.

Por fim, outra prática recorrente tem sido a cooptação econômica de padres e bispos por meio da oferta de recursos para atividades pastorais ou mesmo para uso pessoal. Essa estratégia gerou divisões internas e forçou ao exílio aqueles que se recusaram a subordinar seu ministério a interesses materiais.

Diante desse cenário, o dilema do Vaticano persiste: fazer um pacto com um regime que busca submeter a fé ao poder político ou esperar — com paciência quase monástica — pelo esgotamento biológico e político de um ditador octogenário para que finalmente se abra uma possibilidade real de mudança para a Nicarágua.

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