06 Agosto 2025
Mensagem do Papa no octogésimo aniversário da destruição de duas cidades japonesas pelas bombas atômicas dos EUA: "Busquem uma paz desarmada e desarmante". O apelo dos ganhadores do Prêmio Nobel e o presente de uma caneta especial.
A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Repubblica, 05-08-2025.
A memória de Hiroshima e Nagasaki deve estimular a comunidade internacional, "neste momento de crescentes tensões e conflitos globais", a "buscar uma paz duradoura para toda a nossa família humana, uma paz desarmada e desarmante". O Papa Leão XIV afirmou isso em uma mensagem escrita no octogésimo aniversário da destruição das duas cidades japonesas, no final da Segunda Guerra Mundial, pelas bombas atômicas lançadas pela Força Aérea dos Estados Unidos.
“Paz desarmada e desarmante”
“Em nossa época de crescentes tensões e conflitos globais, Hiroshima e Nagasaki são ‘símbolos da memória’”, escreve o Papa nascido em Chicago, citando o Papa Francisco, “que nos incitam a rejeitar a ilusão de segurança fundada na destruição mutuamente assegurada. Em vez disso, devemos forjar uma ética global enraizada na justiça, na fraternidade e no bem comum. Portanto, é minha oração que este aniversário solene sirva como um lembrete à comunidade internacional para renovar seu compromisso de buscar uma paz duradoura para toda a nossa família humana, ‘uma paz desarmada e desarmante’”, escreve Leão, ecoando as palavras que ele mesmo usou na noite de sua eleição no Conclave.
Peregrinação de Chicago
O Papa escreveu uma mensagem ao Bispo Alexis Mitsuru Shirahama, de Hiroshima, por ocasião do octogésimo aniversário dos bombardeios atômicos de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto). Um grupo de bispos americanos, incluindo o Cardeal Blaise Cupich, de Chicago, e o Cardeal Robert McElroy, está em peregrinação ao Japão para a ocasião. Também estão presentes Emilce Cuda, Secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina, e um grupo de representantes de universidades católicas dos Estados Unidos e do Japão. O Papa Francisco visitou Hiroshima e Nagasaki em 2019.
A memória dos sobreviventes
Em sua mensagem, o Papa dirige uma saudação especial aos sobreviventes dos hibakusha, "cujas histórias de perda e sofrimento", escreve ele, "são um lembrete oportuno para todos nós, para construirmos um mundo mais seguro e promovermos um clima de paz. Embora muitos anos tenham se passado", continua Robert Francis Prevost, "as duas cidades permanecem uma lembrança viva dos profundos horrores causados pelas armas nucleares. Suas ruas, escolas e lares ainda carregam as cicatrizes, tanto visíveis quanto espirituais, daquele fatídico agosto de 1945. Nesse contexto, apresso-me a reiterar as palavras tão frequentemente usadas pelo meu amado predecessor, o Papa Francisco: 'A guerra é sempre uma derrota para a humanidade'".
“Um insulto à humanidade”
O Papa Leão ainda cita o Dr. Takashi Nagai, um sobrevivente de Nagasaki, que escreveu: “A pessoa que ama é uma pessoa ‘corajosa’ que não pega em armas”. “De fato”, comenta Leão XIV, “a verdadeira paz exige o corajoso abandono das armas, especialmente daquelas que têm o poder de causar uma catástrofe indescritível. As armas nucleares”, escreve o Papa, “ofendem nossa humanidade comum e também traem a dignidade da criação, cuja harmonia somos chamados a salvaguardar”.
O apelo dos vencedores do Prêmio Nobel
Nos últimos dias, o Papa Leão XIV recebeu uma caneta feita de grafite fundido no primeiro experimento de Enrico Fermi, em 1942, que deu origem ao Projeto Manhattan e aos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Este presente simbólico, entregue ao Papa pelo Cardeal Silvano Tomasi, acompanhado pelo jornalista Enzo Cursio, foi enviado por 127 laureados com o Nobel que, em um encontro recente em Chicago, assinaram uma declaração pedindo o relançamento do diálogo entre os Estados Unidos e a Rússia para o desarmamento nuclear e a inclusão da China na iniciativa.
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