05 Abril 2025
O livro Il suicidio di Israele (Laterza) foi um sucesso editorial garantido, com mais de 25 mil cópias vendidas, e provocou um debate animado, que não poupou duras críticas à autora, a professora Anna Foa. “Acho que o título foi muitas vezes mal-entendido, não escrevi um panfleto político, mas uma reconstrução histórica documentada sobre o risco de involução em sentido antidemocrático que as instituições israelenses correm hoje. Uma análise crítica das políticas adotadas pelo atual governo israelense não parece encontrar espaço nas comunidades israelenses italianas. Somente a comunidade de Veneza quis dialogar comigo sobre os conteúdos do livro. O que prevalece é uma atitude identitária e de apoio acrítico à atual política israelense, que - digo isso como judia e também como historiadora - não serve à causa da legitimação internacional de Israel”.
A entrevista é de Roberto Cetera, publicada por L'Osservatore Romano, 31-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Um título, professora, que de qualquer forma parece ter previsto com certa antecedência uma profunda laceração no corpo social israelense. O que mudou desde o lançamento do livro até hoje?
Vamos começar pelos aspectos positivos. Os protestos de rua se tornaram muito mais fortes nas últimas semanas e ampliaram os temas pelos quais são convocados: não mais apenas a libertação dos reféns por meio da retomada das negociações, mas também a demanda pelo fim da guerra e uma crítica explícita à carga destrutiva com que a guerra foi conduzida. Por outro lado, de um ponto de vista negativo, é necessário destacar não apenas o fim da trégua em Gaza, mas também a intervenção muito dura em andamento na Cisjordânia, a aprovação de novos assentamentos maciços de colonos nos Territórios Ocupados e em Jerusalém Oriental, a conclusão do processo legislativo da chamada reforma judiciária, contra a qual já havia duros protestos bem antes de 7 de outubro, e alguns eventos aparentemente menores, mas com uma grande carga simbólica negativa, como os ataques contra os diretores do filme vencedor do Oscar “No Other Land” e as livrarias em Jerusalém. De modo mais geral, parece-me que agora é possível detectar uma profunda transformação ocorrendo no aparato do Estado.
Quer dizer que Israel está a caminho de se tornar uma autocracia?
Existe essa tendência, mas Israel ainda não é uma autocracia. Isso é testemunhado pelas centenas de milhares de israelenses que se opõem, manifestando-se incessantemente nas ruas de Tel Aviv e Jerusalém. Enquanto houver essa forte oposição, as tendências dos nacionalistas religiosos não prevalecerão. Embora em formas mais mediadas, essa oposição também está presente dentro das instituições. Por exemplo, entre os ex-militares e os ex-embaixadores, que podem falar abertamente.
Até mesmo o presidente, Isaac Herzog, que é conhecido por sua prudência, quis frisar um distanciamento das políticas governativas. O que é certo, entretanto, é que Netanyahu e seus aliados extremistas não parecem se importar com críticas e oposições. Sua única preocupação é permanecer firmemente ancorados em suas posições de governo. Isso explica por que eles não pretendem acabar com a guerra. E também por que Netanyahu se opõe tão firmemente a um inquérito independente sobre o 7 de outubro, que é extremamente atual hoje, à luz do chamado “Qatargate”.
Mas essa oposição das ruas não parece encontrar uma síntese e uma expressão política, uma liderança.
Algo também está se movendo nessa direção. As recentes declarações, por exemplo, de Yair Golan (ex-chefe militar e líder político do partido israelense “Os Democratas”, ndr) vão nessa direção, no sentido de uma unidade de todas as forças de oposição.
Desde o lançamento de seu livro até o momento, houve também o aparecimento do novo governo estadunidense no cenário. Qual será o papel dos Estados Unidos nos próximos meses?
Eu achava que o desejo de Donald Trump de acabar logo com o conflito o colocaria inevitavelmente em conflito com Benjamin Netanyahu. Parece-me que isso não aconteceu. Além das bravatas do presidente dos EUA sobre o futuro “turístico” de Gaza, o que mais chama a atenção é o sinal verde que Trump deu para a retomada dos bombardeios em Gaza. É preocupante. Não está claro quais são realmente os interesses estadunidenses, se prevalecem aqueles estratégicos, geopolíticos ou, em vez disso, econômicos privados. Veremos.
Também não está claro o que Israel realmente pretende fazer com o Líbano e a Síria. Você tem razão: não está nada claro. Por enquanto, parece evidente apenas que Israel não tem intenção de se retirar das áreas que ocupou em ambos os países nos últimos meses. O caso da Síria é particularmente complicado. No início, o novo líder, Ahmed al-Sharaa, havia aberto uma linha de crédito com Israel, apreciando publicamente a derrota infligida ao Hezbollah, sem a qual a rápida deposição do regime de Bashar al-Assad não teria sido possível. Mas Israel não parece estar respondendo positivamente ao novo regime. Só espero que não haja algum louco no establishment governamental pensando seriamente em uma inclusão de partes da Síria e do Líbano no projeto de uma “Eretz Israel”.