03 Abril 2025
"Quando vejo Marina Silva que foi criada na Igreja católica e se tornou evangélica, quando leio os atuais discursos de Clodovis Boff fico me perguntando o que está acontecendo. Mas algumas coisas eu percebo que talvez possa ajudar a você, a outros autores e também a mim, compormos o mosaico mais amplo", escreve Enio Marcos de Oliveira, padre da diocese de Leopoldina/MG, doutor em ciência da Religião pela UFJF com sanduíche em Veneza e autor do livro Mateus, parábolas de amor infinito, em resposta à Carta aos bispos católicos do Brasil, escrita por Frei Betto.
Não sou bispo e nem anseio sê-lo, mas, como católico e leitor de sua carta, porque a mesma foi aberta, quero fazer algumas observações. De antemão, quero que fique claro que não sou dono da verdade e nem escrevo como portador de uma verdade, mas apenas um ponto de vista que talvez possa colaborar com a sua visão.
Verdade que os últimos censos apontam para o declínio do número de católicos, verdade também que os movimentos sociais sofreram um baque muito grande nas últimas décadas, verdade ainda que o clericalismo tem tomado conta de nossos seminários e que muitos sacerdotes se veem como pequenos príncipes que se servem do povo ao invés de se colocarem a serviço do povo e da vida, e alguns bispos também se veem como senhores do anel e reis que mandam e desmandam sem nenhuma sensibilidade; contido há uma grande parte dos bispos e dos padres que atuam com amor ao Evangelho e sensíveis ao apelo de Jesus Cristo.
Dito isto, preciso dizer que talvez mais do que o número de evangélicos, cresce o número de sem religião, pessoas que até buscam uma espiritualidade, mas sem vínculo religioso, e cresce ainda o número dos que se dizem agnósticos e até ateus.
Talvez a reforma protestante tenha chegado ao Brasil só no século passado, e hoje nas religiões cristãs tenha se escancarado a ideia de mercado, as Igrejas, inclusive a católica, muitas vezes se veem simplesmente como empresas, em reuniões de pastores e de clero católico a temática, muitas vezes, está mais ligada à contabilidade do que ao evangelho.
Acredito que aquilo que você fala sobre desconhecimento de teologia por parte dos seminaristas e de muitos sacerdotes, a falta de compreensão sobre o diálogo inter-religioso e o ecumenismo também seja verdade, mas convenhamos que eles seguem a lógica do mercado, A Coca cola não vai elogiar a Pepsi cola e vice versa.
Pensando em mercado, será que a menor importância hoje daquela que foi a grande detentora dos meios midiáticos dos anos 70 e 80 é por causa dos netos do fundador do grupo ou as grandes mudanças ocorridas com a popularização da internet e de tudo que a ela está ligado?
O fato é que o mundo mudou e tem mudado muito. Com relação ao clericalismo, há muitos fiéis que alimentam isso; se em um final de semana o padre precisa viajar e um leigo faz a celebração da palavra, a reclamação é generalizada.
Há muitos teólogos de gabinete que dominam a teoria, mas não sabem de verdade o que se passa na vida das comunidades.
Há um crescimento dos evangélicos, mas, ao contrário do que você imagina, não há protagonismo dos leigos nestas igrejas, o que se percebe é que o clericalismo é muito mais acentuado. Por que você acha que a maioria dos evangélicos vota de acordo com o pastor? Qual o envolvimento social que a maioria destas Igrejas manifesta? O que os irmãos fazem nas Igrejas, também se faz na Igreja católica com seus acólitos e coroinhas, com seus membros da liturgia, leitores, com seus ministros da Eucaristia. A figura do pastor é tão ou mais centralizada do que a do padre.
Acho que há muitas questões para serem estudadas e elucidadas, talvez mais pesquisa de campo e menos teoria de gabinete.
Quando vejo Marina Silva que foi criada na Igreja católica e se tornou evangélica, quando leio os atuais discursos de Clodovis Boff fico me perguntando o que está acontecendo.
Mas algumas coisas eu percebo que talvez possa ajudar a você, a outros autores e também a mim, compormos o mosaico mais amplo.
Ainda que não dure para sempre, há no sentimento de quem sai da Igreja e se torna evangélico mais do que qualquer outra coisa, o senso de conversão. A grande maioria dos católicos nasceu católica, foi batizado ainda criança e, muitos destes batizados já não tinham nos pais o vinculo da fé, por isso, quando adultos, ao se sentirem vazios, necessitados de algo mais tocante procuraram outras comunidades e nelas, muitas vezes se sentem acolhidos, convertidos. Ah! O sentimento de conversão, basta olhar para o apóstolo Paulo para se entender a força que isso provoca em uma pessoa.
Muitos procuram as Igrejas com a ideia de mercado mesmo, o produto lá é melhor e eu quero me dar bem.
Há padres e freis que estão na mídia, falam aos milhões de fiéis, o mesmo discurso moralista, o mesmo viés de moral conservadora e eles atraem, criam legiões, talvez seja esta a fome do povo.
Sua carta me parece contraditória pelo fato de você culpar os bispos pelos fieis estarem abandonando a Igreja pelos pontos que você levanta, mas o fato é que nas Igrejas evangélicas para onde eles migram não há nada que lembre as comunidades eclesiais de base e nem mesmo algo semelhante aos movimentos sociais e ou da ação católica. O mundo mudou meu caro, o mundo mudou.
O fato Betto é que a Igreja e a sociedade dos anos 70 e 80 já não existem mais, ficar nos gabinetes fazendo teologia já não responde mais às demandas dos clientes.
Ainda há o fato político e as polaridades das últimas eleições, sobretudo, a partir de 2014. Ainda o fato de a internet fazer de qualquer pessoa um “líder – influenciador” e neste meio cresceu muito o número de pessoas que se acham mais católicas que o papa e mais santas do que Deus e, com tudo isso, os bispos católicos, muitos deles pelo menos, se sentem acuados, desorientados.
O amigo termina a sua carta perguntando se ainda há salvação para o Evangelho na Igreja Católica. Eu pergunto se há salvação para o evangelho nas outras Igrejas? Ou o Evangelho é o caminho para o encontro com Jesus e o próximo e, portanto, a via para o diálogo com todo ser humano e, desta forma, caminho para a salvação?