02 Abril 2025
"O volume apresenta, por um lado, a história da pesquisa que levou à redescoberta do judaísmo pleno de Paulo e, por outro, o posicionamento do apóstolo dentro do judaísmo contemporâneo em relação a temas como a Lei, o mal, o Messias e a salvação", escreve Giovanni Ibba, professor permanente de Ciências Hebraicas e Bíblicas no Instituto Superior de Ciências Religiosas da Toscana, em artigo publicado por Settimana News, 31-03-2025.
Eis o artigo.
Paolo di Tarso, un ebreo del suo tempo, de Gabriele Boccaccini e Giulio Mariotti (Carocci, Roma 2025), a ser publicado em breve, deve ser considerado uma ponte fundamental entre os estudos italianos sobre Paulo e as perspectivas acadêmicas internacionais mais recentes.
Paolo di Tarso, un ebreo del suo tempo, de Gabriele Boccaccini e Giulio Mariotti (Foto: Divulgação)
O volume apresenta, por um lado, a história da pesquisa que levou à redescoberta do judaísmo pleno de Paulo e, por outro, o posicionamento do apóstolo dentro do judaísmo contemporâneo em relação a temas como a Lei, o mal, o Messias e a salvação.
Sabe-se agora que, até mais de meados do século passado, o apóstolo dos gentios foi mostrado - com algumas exceções notáveis – como um oponente do judaísmo, considerado em contraste com o cristianismo nascente. Esse estereótipo procurou retratar Paulo e suas cartas como um claro divisor de águas contra o judaísmo. Foi somente depois da Segunda Guerra Mundial que os estudiosos começaram a adotar uma perspectiva diferente, tanto por causa do Holocausto – que provocou uma reflexão necessária por parte dos cristãos sobre a atitude hostil que tinham tido até então em relação aos judeus (pense, por exemplo, na declaração conciliar Nostra Aetate) – quanto graças às descobertas das cavernas de Qumran a partir de 1947.
Os manuscritos encontrados produziram uma nova perspectiva sobre o judaísmo, mesmo da época de Paulo. Essas descobertas revelaram a existência de correntes judaicas que às vezes apresentavam diferenças significativas entre elas. Isso desafiou profundamente a visão predominante de um judaísmo legalista monolítico, livre dos estereótipos do judaísmo rabínico posterior.
Não apenas ficou claro que o judaísmo não deveria ser visto em contraste com o "cristianismo" de Paulo, mas que muitas de suas obras até apresentam temas em comum com os de sua correspondência. De modo que, pelo menos, uma comparação com essa literatura era necessária para entender seu pensamento. Com as descobertas de Qumran, os estudiosos também tiveram que reavaliar a literatura que já foi chamada de "apócrifa".
De fato, testemunhas dessa literatura foram encontradas nas cavernas e isso produziu o estudo do apocalíptico judaico, em particular o das obras atribuídas a Enoque e que, por isso, foram chamadas de "enóquicas". Hoje é evidente que é impossível entender Paulo sem um conhecimento prévio e profundo do apocalipticismo judaico, que, além de ser rastreável nas ideias paulinas, está presente em muitas obras judaicas. Tomemos, por exemplo, a ideia da origem do mal e sua presença no mundo. Essas aquisições também são resultado da pesquisa de Paolo Sacchi, um dos grandes pioneiros do estudo do apocalipticismo judaico, a quem o volume é dedicado.
Os autores, portanto, relatam como o apóstolo, em sua experiência do Ressuscitado e na descoberta de Sua justificação, reconhece a solução para o problema do mal e delineia sua própria proposta original, permanecendo dentro do mundo variado do judaísmo do Segundo Templo e, em particular, da cosmovisão apocalíptica. Na iminência do fim dos tempos, "em Cristo", o judeu Paulo encontrou o "único e inclusivo caminho de salvação".
O volume Paulo de Tarso, um judeu de seu tempo, explica em detalhes todos os passos necessários para chegar a uma nova compreensão de Paulo e de seu pensamento. O texto é precioso pela clareza da exposição da mais recente e promissora perspectiva de pesquisa, agora chamada de Perspectiva de Paulo dentro do Judaísmo, para a qual tanto Boccaccini quanto Mariotti já deram contribuições significativas.
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